
(Foto: divulgação)
Goiânia – O cinema é, definitivamente, um milagre. Se se traçar um recorte desta ainda púbere arte, observar-se-á uma quantidade desmesurável de obras tocantes, marcantes, daquelas que são capazes de aplacar as agruras do tempo presente e vislumbrar uma esperança por dias melhores. O poder das imagens imiscuídas em palavras, sons – ou não -, permeiam o imaginário popular e atravessam o tempo. Há filmes que fazem parte da vida e que são referências, que transcendem o próprio tempo e a própria época, reverberam e conectam amantes do cinema por meio da diluição de fronteiras, do poder de uma interpretação, do assombro de um roteiro, do esplendor de um retrato – colorido ou branco e preto -, por meio de um ritmo frenético ou com a pachorra e sabedoria de um mestre japonês.
Akira Kurosawa é, provavelmente, o diretor japonês com maior penetração no ocidente e, notoriamente, reconhecido pela relevância de suas obras como Os Sete Samurais (1954), Rashomon (1950), Céu e Inferno (1963), Ran (1985), Trono Manchado de Sangue (1957), O Idiota (1951), Não Lamento Minha Juventude (1946), Viver (1952)… Este último é um dos seus mais admiráveis trabalhos e uma obra que está cravada, definitivamente, nos anais do cinema. Uma obra-prima de destaque absoluto que, tanto quanto em seu enredo, a suntuosa encenação alcançada pelo elenco e o vigor de cenas deslumbrantes, fazem com que este possa ser considerado, facilmente, um de seus marcos, uma película que emana e irradia poesia, que toca e dialoga diretamente com o coração, suscita os mais magnânimos sentimentos e exibe um Kurosawa em estado de graça, o que, aliás, é bem comum.
É impossível escrever sobre esta pérola e não rememorar a cena do personagem principal Kanji Watanabe (Takashi Shimura), entoando uma canção em um balanço e a neve caindo em um retrato em branco e preto que ressalta um banzo inerente à condição do personagem. Ele é um funcionário público de longa data que não se importa com nada que não o interesse, um burocrata fadado as amarras impostas pela rotina. Todavia quando, próximo de sua aposentadoria, descobre que está com câncer, passa a refletir e sua vida sobre uma brusca guinada. Ele promove um mea-culpa e percebe uma existência vazia. Deste ponto em diante, parte em uma jornada em busca de algo que dê significado à sua existência.
Até que ponto é válido se esquivar do que realmente interessa em favor do dinheiro e do vazio existencial? Esta premissa é questionada e violada pelo funcionário à beira da aposentadoria e com a descoberta de sua doença. Ele decide-se, com a morte que se avizinha, cravar seu nome, realizar algo do qual possa se orgulhar. Kanji percebe que, mesmo em sua luta diária para criar seu filho após o falecimento de sua esposa, não obteve o devido reconhecimento em sua velhice. Ele se aventura uma nobre missão, por meio de um forte engajamento político, optando por deixar as amarras burocráticas de lado e agir em prol da sociedade. Uma solicitação de uma construção de um parque em um local pantanoso, que outrora seria ignorada, neste instante ganha contornos de grande importância e os anseios da comunidade passam a ser colocados em primeiro lugar, promovendo uma mordaz crítica ao excesso de burocracia.
Kurosawa arquiteta uma obra impregnada de uma sensibilidade raramente alcançada, extremamente reflexiva e permeada por beleza, melancolia e poesia, em que a paixão incontrolável pelo cinema e pela vida estão atreladas, caminham em uma sintonia incrível, promovendo uma luz que brilha intensamente, galgando o cinema a patamares elevados, dialogando certeiramente com os sentimentos, indubitavelmente, posicionando-o em um degrau elevadíssimo de uma arte de grande valor. A transcendência e a perenidade da arte em oposição à finitude da vida. Os filmes vivem e conectam as pessoas, garantindo que outros amarão as coisas que amei e que amo.