(Foto Lili Lutz)
Zurique – Desde criança, gostava de colecionar objetos antigos, pequenezas como botões, anéis, colares, chapéus velhos, gravatas, revistas dos anos 50 – que encontrava na fazenda da minha avó, enfim, qualquer coisa que me lembrasse uma época passada, filme ou livros, um outro tempo, uma outra história, como a correr atrás da vida presa nos objetos para não deixar escapar o tempo do que não tinha vivido.
Consequentemente não demorei muito para descobrir os primeiros sebos e brechós. Principalmente durante as férias no Rio, levada pelas mãos da minha tia, grande conhecedora do assunto, percorria sem fôlego os bazares e da Zona Sul ao Centro, descobrindo além de objetos e móveis antigos, combinações de seda, camisas de linho, blusas de renda, tão em moda nos anos 70. Fazíamos produções incríveis, combinando gravatas e rendas, saias longas e coletes, transformando camisas em vestido, as blusas em saias, feito cinderelas ao avesso. Hoje tudo isso é novamente hype. O lixo virou luxo. Tão caro quanto qualquer produto comprado em uma loja de grife. Vintage enfim.
Em alemão, se diz “Brockenhaus”, nome que não gosto, pois significa literalmente “casa quebrada”. Prefiro as casas vivas, loucas, caóticas, onde se pode ainda imaginar a vida desses objetos e seus donos emocionados, rebeldes, alegres na medida do necessário, com tristezas fininhas, leves, como um bom dia de chuva e decepções camaradas, somente as inevitáveis. Às vezes, acho que percebo a história das coisas. Outras vezes, é somente a imaginação excitada por tantos restos de vida. As pessoas só se tornam realmente interessantes quando são vulneráveis. Sem maquiagem. O resto é só pretensão.
Para minha alegria, consegui passar esse amor pelo usado e ainda único à minha filha adolescente. Hoje é ela quem me leva aos lugares mais interessantes e baratos, e passamos tardes deliciosas descobrindo coisas que o tempo cuspiu. Ainda com apenas dez anos, me pediu de presente de aniversário uma máquina de escrever antiga. Comprei-a em uma feira de objetos usados, na maior emoção e orgulho.
Máquina de escrever Naumann, modelo Érika (Foto Lili Lutz)
Hoje, em tempos de vintage – quando le freak c’est chic – ficou praticamente impossível encontrar verdadeiros brechós. Tudo é chique e caro. Na viagem que fizemos a Paris – que lhe prometi como prêmio por ter passado na prova do Ginásio Artístico, foi ela que nos serviu de guia, preparando uma lista dos melhores endereços. Alugamos uma bicicleta e subimos e descemos ladeiras. Mesmo já sem fôlego, não queria deixar de ir no Mamie, onde encontraríamos sapatos da década de 30 e óculos dos anos 60.
Mas depois de tanto esforço, a decepção foi grande, não pelos objetos, mas pelos preços exorbitantes. E mesmo o tradicional Marché au Puce da Porta de Clignancourt já tinha perdido seu charme improvisado original, oferecendo produtos industrializados como qualquer camelô. Os verdadeiros achados e antiguidades eram também caríssimos.
Mesmo assim, descobriu ainda um maiô de banho com botõezinhos pretos, original da década de 50, que garante estar super na moda, e garimpei, entre os milhares de livros e revistas, um dos primeiros números de L’Écho de Savanes de 1974 por um preço bastante módico. E o prazer de fuçar nas memórias e quinquilharias de outros tempos com minha filha foi enorme.
Adoro brechós e bazares, mas principalmente os velhos, sujos e simples. Os autênticos. Felizmente, apesar de raros, eles ainda existem. Essa semana, descobrimos um deles, uma amiga lhe havia dado a dica. Um lugar maravilhoso, em uma velha garagem subterrânea, com uma rampa em forma de caracol.
Nos três andares do estacionamento, ao longo da rampa, havia roupas penduradas, livros e discos distribuídos em infinitas prateleiras. Onde antes havia carros, hoje espalham-se louças, xícaras, vasos, pratos, brinquedos, óculos, malas antigas de couro, um projetor de filme 16mm, máquinas fotográficas. Com poucas exceções, tudo era vendido a 2 Francos – enquanto, em qualquer bar da cidade, um cafezinho custa o dobro.
Abundância, plenitude, inclusive na figura da pessoa que atendia no caixa. Uma mulata opulenta, de seios e quadris largos, como Marianne Sägebrecht em “Out of Rosenheim”. Mulheres plenas de vida. Cabelo tingido de loiro e ruivo, brincos grandes e múltiplas pulseiras. Enquanto atendia, o rádio soltava um roquenrol básico em altíssimo volume e ela dançava. E cantava. E eu olhava, encantada, aguardando no meu lugar na fila, carregando algumas roupas e livros. Momento de puro júbilo. De vida sem pretensões, sem filtro solar, sem óculos escuros, sem nota de rodapé.
Tive vontade de subir no balcão e lhe dar um beijo na bochecha.