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“Veni Sancte Spiritus”, uma obra musical de Juliano Lima Lucas

07.12.2020 - 14:01:00
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Dias atrás, quando abri uma mensagem recebida em um grupo de músicos que tenho no WhatsApp, pude assistir a um excelente vídeo produzido pelo Coro Sinfônico de Goiânia. No clipe musical, os artistas deste corpo artístico interpretam a obra Veni Sancte Spiritus (Vem Espírito Santo), escrita pelo compositor e pianista Juliano Lima Lucas (n. 1978).
 
Conheci o Juliano na Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás (EMAC/UFG). Foi nesta Instituição que esse artista goiano cursou seu Bacharelado em Composição.
 
Em entrevista, realizada por e-mail, Juliano Lima Lucas fala sobre Veni Sancte Spiritus, entre outros assuntos.
 
 
 

Veni Sancte Spiritus 
Juliano Lima Lucas
 
Othaniel Alcântara: Se eu não estiver enganado, Veni Sancte Spiritus diz respeito a um canto medieval (gregoriano). E, a exemplo do Dies Irae, vem sendo citado em obras de prestigiados compositores ao longo do tempo. É isso mesmo?
 
Juliano Lima: Sim, isso mesmo! Mas é bom ressaltar que há vários textos cujo título é Veni Sancte Spiritus. Talvez o texto mais famoso seja a Sequência de Pentecostes, também chamada de Sequência de Ouro para a Missa de Pentecostes. Para este há bons exemplos como os de John Dunstable (1390-1453) e Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594), durante a Renascença e, nos dias atuais, o de Arvo Pärt (n. 1935). O texto que eu utilizei é outro, da Antífona, semelhante ao usado por W. A. Mozart (1756-1791), em sua obra K. 47, mas que também faz parte do Liber Usualis.
 
 

Juliano Lucas Lima (n. 1978)
 

Othaniel Alcântara: Quando e por qual motivo você decidiu musicar o texto Veni Sancte Spiritus?
 
Juliano Lima: Sempre gostei muito de obras corais sacras. Tanto que meu primeiro CD é uma Missa para Coro e Piano gravado em 2008, com o Coro de Câmara da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG. Mas fiquei um bom tempo sem compor nada para o gênero – praticamente dez anos – até começar a admirar e a estudar a obra do compositor estoniano Arvo Pärt (1935-) e sua técnica chamada de Tintinnabuli. A partir dele, também fui apreciando o resultado das sonoridades de outros compositores como Eric Whitacre, Ericks Esenvalds e Ola Gjeilo. Portanto, foi a partir de 2018 que comecei a criar um conjunto de obras corais sacras retiradas de textos latinos. Algumas, inclusive, já foram estreadas, como o Pater Noster, pelo Coro Juvenil de Goiânia e o Da Pacem Domine, pelo Coro de Câmara do IFG. Veni Sancte Spiritus foi finalizada em junho de 2019.
 
Othaniel Alcântara: No vídeo, sua composição é interpretada pelo Coro Sinfônico de Goiânia, sob a direção de Katarine Araújo. Nele percebe-se, nitidamente, algumas alusões à pandemia causada pela novo Corona vírus. Como ocorreu essa relação entre obra e Covid-19?
 
Juliano Lima: A estreia da obra foi em março de 2020, pelo próprio Coro Sinfônico de Goiânia, antes do início da pandemia aqui no Brasil. Não havia ainda nenhuma ligação com a Covid-19. Contudo, durante o longo período de quarentena, surgiu a ideia da própria regente Katarine Araújo, de fazer um vídeo com a intenção de participar de festivais no Brasil e no Chile. Mas, acredito que o vídeo alcançou um propósito maior. Como disse a regente na página do facebook: “Nosso canto se transformou em oração, a união de todos os credos, aquela súplica presa na garganta”. Foi um casamento perfeito entre a súplica ao Espírito Santo e as imagens que refletem toda nossa situação mundial atual: “qui per diversitatem linguarum cunctarum gentes in unitate fidei congregasti”.
 
Othaniel Alcântara: Vamos adentrar agora no terreno da técnica composicional. Em linhas gerais, como você define a construção da obra Veni Sancte Spiritus?
 
Juliano Lima: Para compor Veni Sancte Spiritus, usei como gatilho inicial uma variação da técnica chamada de tintinnabuli de Arvo Pärt. Essa técnica consiste em utilizar uma voz que circula pelos graus de uma escala diatônica, enquanto nas outras vozes, as que são subordinadas à principal, se fazem ouvir as notas da tríade principal da tônica. Mas, no caso de minha peça, em vez de uma tríade, uso uma tétrade, a de Bbm7. 
 
Há também, entre outras coisas, uma intenção estereofônica a partir da qual, utilizando três gestos básicos distintos, faço transitar a melodia, as palavras ou até mesmo partes de palavras, de uma voz para outra. Na figura abaixo, demonstro esses três gestos em cores diferentes. A melodia principal, que “gira” em torno da nota si bemol, está na cor verde, na voz dos baixos. Ela é acompanhada em um intervalo de décima acima, pelos contraltos. O segundo gesto são as notas prolongadas assinaladas em azul cujo texto é fragmentado pelas sílabas e transita entre diversas vozes. O terceiro gesto, em vermelho, enfatiza o verbo de cada passagem do texto e possui a característica da brevidade e de uma articulação espaçada pelas pausas entre as sílabas.

 
Othaniel Alcântara: Como você define o seu “estilo” de composição (se é que você gosta da expressão)? Enfim, você se considera um artista mais de vanguarda, mais tradicional, ou você descarta todos os ismos?
 
Juliano Lima: Devido a uma junção do caráter repetitivo e a temática espiritualista, talvez a obra pudesse ser facilmente “encaixada” dentro de um Minimalismo Sacro, seja o termo pejorativo ou não. Mas não me preocupo muito em me categorizar ou categorizar o que escrevo, ao menos por enquanto. Prefiro deixar em aberto a percepção e a análise do outro sobre a obra. Tenho uma dificuldade de aceitar o termo “ser de vanguarda” depois de tudo o que já foi feito no século passado. Estamos, atualmente, sempre dialogando com o presente e com o passado para vislumbrar um futuro, seja abraçando ou refutando a tradição. Mas ela sempre estará ali à espreita, fazendo parte de nossas atitudes. Por isso, eu também prefiro não descartar nenhum ismo, e sim dialogar com eles. 
 
Othaniel Alcântara: Antes de estudar com o compositor Roger Vogel na Universidade da Geórgia, Anthens (EUA), você fez o Curso de Composição (bacharelado) na Universidade Federal de Goiás, mais precisamente na Escola de Música e Artes Cênicas (EMAC/UFG). Na Instituição goiana, você esteve sob a orientação de Estércio Marquez Cunha e do saudoso austríaco Günter Bauer. Qual foi a contribuição de cada um desses prestigiados professores na formação, digamos, de sua “personalidade” musical?
 
Juliano Lima: Meu contato com o Estércio precede, e muito, minha entrada na EMAC. Eu o conheci e tive com ele meus primeiros contatos com o estudo de harmonia e composição, em 1995. Sua produção, cujo processo de criação é fortemente interagido com outras artes, bem como os seus ensinamentos – não somente da técnica, mas também de toda sua experiência humana -, me impulsionaram ainda mais a querer me tornar um compositor. 
 
Mas, na época do início dos estudos de composição, eu já era um aluno do 3º ano do Segundo Grau (hoje, Ensino Médio) e, embora fascinado pela música, eu sentia que ainda não estava pronto para escolhê-la como um curso universitário. Por isso, escolhi o curso de Engenharia Civil e continuar em minha cidade natal (Goiânia), seguindo paralelamente com os estudos de composição e piano com Estércio. Em 2000, concluí o bacharelado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia Civil da UFG e segui, durante os três anos seguintes, trabalhando em Brasília-DF, interrompendo os estudos de música. 
 
Inconformado com a situação, resolvi retornar à Goiânia, desta vez não apenas como engenheiro, mas como aluno do curso de bacharelado em Composição pela EMAC/UFG. Foi aí que passei a estudar, de 2004 a 2007, com Günter Bauer, que muito contribuiu, principalmente na técnica do contraponto e nas técnicas seriais. O curso de inverno que fiz com Roger Vogel, nos EUA, depois da graduação, me fez conhecer muita coisa mais atual na época, e ter uma visão bem mais ampla do repertório composicional mundial. Depois de tudo isso ainda voltei, por um bom tempo, a ter contatos mais informais e esporádicos com o Estércio que, além de mestre, é um grande amigo.
 
Othaniel Alcântara: E a questão do público? Estamos falando de um tipo de música que, por vezes é considerada, digamos, “intelectualizada”. Na minha opinião, até pouco tempo, a chamada música erudita contemporânea dificilmente chegava ao grande público. Na realidade, tal repertório era até mesmo preterido em algumas salas de concerto, em favor de obras pertencentes a uma ou outra categorização do cânone da Música Ocidental. Não sei se você concorda com o meu ponto de vista. Por outro lado, nos dias atuais, temos a imensa força das redes sociais, dos canais do YouTube etc. Dito isso, você acha que esses novos espaços potencializados pela evolução da internet, de alguma forma ajudam na aproximação da produção musical atual com esse novo tipo de plateia?
 
Juliano Lima: Acredito que o problema é muito cultural e educacional. Posso estar errado, mas, para mim, fomos acostumados a apreciar música ou pelo ritmo ou pelas melodias tonais. Quando aparecem os compositores que quebram esses paradigmas, nos sentimos perdidos. Em uma sociedade que preza pelo imediatismo e pela busca do prazer em todo e qualquer tempo, temos uma tendência de excluir aquilo que nos exigiria algum esforço para assimilação. Podemos ver que o grande público mal se interessa por qualquer tipo de música instrumental, tendo em vista a ausência de letra. 
 
Mas é claro que a culpa não é só do público, é também dos próprios compositores. Quantas vezes já não ouvimos falar do “gênio incompreendido cuja música só será entendida no futuro etc.”? Esse futuro parece que nunca chega! Talvez exista uma quebra na comunicação. Há uma situação de vaidade e de orgulho em ambas as partes. O compositor fala que o púbico não entende sua música e o público diz que a música é difícil mesmo de entender. Cada um vira para um lado e segue sua vida. E de que adianta querer impactar a sociedade com sua arte, mas atingir apenas uns poucos iniciados? É um grande dilema!
 
A questão do afastamento dessa música não é só em relação ao grande público, mas um afastamento em relação aos próprios músicos profissionais, até daqueles que ingressam em uma formação mais acadêmica. Como professor [no IFG/GO], tenho visto o crescente número daqueles que entram em uma faculdade de música, mas possuem enormes restrições a querer estudar ou até mesmo apreciar essa tal música “intelectualizada”. Há um preconceito, inclusive interno: a grande rixa entre o erudito e o popular. Tudo é música, tudo trabalha, de alguma forma, o intelecto.
 
Os novos espaços virtuais, hoje em dia, podem ajudar na aproximação da produção musical atual, mas é preciso saber divulgar. Ainda é tudo muito difícil, porque o mercado manda muito e a grande maioria das pessoas ainda prefere compartilhar uma “esferográfica cerúlea” do que uma oração ao Espírito Santo.
 
Othaniel Alcântara: Obrigado pela entrevista!
 

JULIANO LIMA LUCAS

1) Canal no Youtube

2) Google Site

Estreia da obra Veni Sancte Spiritus – Juliano Lima Lucas
Coro Sinfônico de Goiânia
Regência: Katarine Araújo
Teatro Goiânia

Outras obras de Juliano Lima Lucas:
 Canal – Youtube

Leia também:

O Coro Sinfônico de Goiânia na Mostra Online de Coros da ABRACO
Entrevista com a maestrina Katarine Araújo

 

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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