Goiânia – Ainda no mês de outubro, quando, ao passar diante de um shopping, notei que já exibia a decoração de Natal, levei um baita susto. Pensei a princípio que havia me perdido no tempo, mas logo percebi que não só aquele shopping, mas supermercados e pequenos comércios já estavam enfeitados. No rádio e na TV, também já estavam no ar comerciais com ofertas para quem quisesse sair na frente e antecipar as compras.O Natal tinha chegado mais cedo.
Como assim chegou mais cedo? Então o Natal não é uma data cristã e coisa e tal, a celebração de uma data de nascimento e tal e coisa, um dia fixado no calendário? Como então começar a celebrá-lo dois meses antes?
É chover no molhado dizer que o comércio se apropriou da data, que a maioria das pessoas perdeu de vista seu verdadeiro significado. Sei, porém, que não fui a única a ficar estupefata com essa pressa em adiantar o calendário.
E com antecipação da decoração e dos anúncios natalinos, o comércio conseguiu o que pretendia: antecipar a febre, a ansiedade, a euforia que tomam conta das ruas nas vésperas da data. Esse clima, já tão precoce, me fez recordar Liquidação de inverno, um texto antigo de Carlos Drummond de Andrade:
Olha o ajuntamento na calçada,
o bolo humano denso, silencioso,
a paralisia coletiva…
Que foi que aconteceu?
Crime, suicídio, bomba, um novo deus?
Calma, não te assustes.
Precisas acostumar-te com a cidade
e seus ritos pendulares.
Não viste nos jornais aquele grito
e nas vitrinas as vermelhas tiras
anunciando em voz e cifra
Liquidação
Liquidação?
Drummond falava de um evento sazonal, uma liquidação de inverno. As liquidações, porém, são cada vez mais comuns, constantes e superlativas. Quantas superpromoções, quantas megaliquidações, de primavera, verão, outono, inverno – multiplicaram-se também as estações? – temos ao longo de um único ano. O Papai Noel de agosto Onogás – quem não se lembra do antigo comercial da rede de eletrodomésticos? – estará prestes a se generalizar?
Parece-me que o comércio está passando dos limites no afã de vender e as pessoas, na avidez de comprar. Mas afinal que limites? Desde que tiveram fim as utopias, desde que deixamos de sonhar com revoluções sociais, com um paraíso socialista ou comunista, desde que o capitalismo triunfou, não há limites para a lei do mercado e ficamos sozinhos com nossos desejos individuais, restando-nos apenas sonhar com o que iremos adquirir.
Tudo é permitido dentro da lógica do mercado, do primado do lucro. As poucas restrições são feitas por órgãos de defesa do consumidor, por órgãos reguladores, que deveriam evitar os abusos do capitalismo, mas que têm uma ação permissiva ou tímida.
E assim, sob a justificativa de que é preciso aumentar a lucratividade das empresas, valem todas as estratégias de marketing, todos os violentos e invasivos recursos da publicidade, para a qual já inexiste privacidade. Vale antecipar as datas comemorativas, inclusive as de natureza religiosa.Vale anunciar toda semana promoções extraordinárias com dezenas de restrições registradas em caracteres minúsculos e ilegíveis. Vale mandar mensagens dia e noite para os nossos celulares. Vale encher nossas caixas de e-mail com spans.
Vale telefonar para a casa da gente às oito da noite ou nas manhãs de sábado. Vale colocar em cada esquina uns pobres coitados, esturricando ao sol para nos empurrar panfletos com os quais vamos a ajudar a entupir os bueiros da cidade.
Com o único e legítimo argumento de que é o lucro que move o mundo, vale produzir lixo televisivo, cinematográfico, musical, celebridades instantâneas para povoar a programação de nossos canais de TV, que embora sendo concessões públicas, nenhuma responsabilidade ou compromisso têm com a educação pública. Vale, vale tudo! E diante desse vale-tudo, valha-nos, pois, Deus! Mas que Deus? O Deus Menino que este ano nasceu dois meses mais cedo? Valha-nos sim o Deus Mercado!