Logo

Um presente que é uma bomba

10.01.2013 - 10:00:01
WhatsAppFacebookLinkedInX
Goiânia – É um pobre de um rejeitado poeta, nesse mundo em que poucos ainda remanescem que apreciam e respeitam a poesia, onde para a maioria poemas são constrangimentos rimados em decassílabos, uma manifestação obsoleta que morreu lá no parnasianismo. Mas esses mesmos que pensam isso gemem e cantarolam as letras mais toscas do sertanejo universitário e do pop rock meloso para otários. Queria tanto publicar livros com seus versos, e quando os publicava, bancados com os próprios trocados ou por uma lei qualquer de incentivo, via que eram reduzidos a artigos baratos de papelaria, empurrados para o mais baixo patamar das estantes, entupidas e resplandecentes de cinquenta tons de cinza.
 
Achava que punha neles o que havia melhor de si, mas acontecia com ele o que ocorre frequentemente a tanta gente que nem poeta se pretende ou julga, mas que crê ter algo a doar, algo a dizer, que tem certo amor e devaneios a distribuir, e os distribui erradamente a quem não está interessado em receber, a bocas desinteressadas em sorver, ouvidos indiferentes a ouvir. Ninguém o lia. Parentes e amigos tratavam-no com piedade indulgente.
 
Decidiu destruir seus livros, consumi-los na fogueira ateada no meio do quintal, mas recuou no último momento, pois seu nome ali impresso ainda era coisa tão bonita de se ver. Distribuía-os, pois, nas esquinas, nos bancos das praças, como se tivessem sido perdidos aqui e ali, mas que desgraça quando os reencontrava nos sebos do centro da cidade, misturados aos exemplares carinhosamente autografados e nunca lidos e jamais folheados. Outras vezes, passando por uma rua numa manhã e deixando o produto de seus afetos e suores jogado, o encontrava ali mesmo em estado de abandono quando retornava pelo caminho à tarde. 
 
E havia situações piores. Não era raro vê-los rasgados, desfolhados, como se quem os tivesse encontrado houvesse surtado num acesso de raiva porque achara um livro – ora merda! – e não uma nota de cem ou um bilhete de loteria premiado. Oh, gente embrutecida, oh, gente burra, que não entendia o seu gesto amoroso de querer democratizar a cultura! 
 
Ainda assim, poderia ter sido pior – pensava, tentando consolar-se. Restava-lhe certa orgulhosa dignidade. Recusava-se a agir como aqueles que, mendicosamente,  tentavam vender seus livros nos bares, disputando espaço com os vendedores de rosas plastificadas, de quinquilharias da China ou de CDs e DVDs piratas.  Não se tornara manchete nos jornais da internet como aquela escritora que dava nas esquinas, a tal de Chantal Dalmas, valendo-se da ambiguidade do verbo dar e da própria natureza feminina. Sim, ao menos não passara pela maior das humilhações, como daquele outro autor-personagem – leu essa história na verdade em um livro cujo título não se recorda, ingratos são os autores para com seus iguais – que no dia do tão esperado lançamento, viu o renomado crítico literário saindo do banheiro. Quando entrou, constatou que na falta de papel higiênico, o crítico diarreico, de alma impiedosa e imunda, limpara o que restara de sua própria obra na bunda com a obra do pobre artista.
 
Foi então que surgiu a oportunidade daquela viagem. Colocou tudo o que lhe restava de sua alma e de sua macerada autoestima na mala. Na cidade luz, iluminado pela ideia de que ali os povos eram mais sensíveis e cultos – e sendo época de festejos natalinos – quis realizar um velho sonho de menino, de todos os meninos: quis agradar à mãe, presenteando o mundo.
 
Comprou dezenas de bonitas caixas de presentes, embalou nelas cada um dos livros cuidadosamente, adornou-as com laço de fita e saiu flanando por Paris, fingindo esquecer um pacote na entrada do Louvre, outro na calçada do Museu D`Orsay, outro na Place de La Concorde, outro como uma cabeça perdida na Place de La Bastille. Se não lhe importava o fato de que quem os encontrasse não entenderia uma só palavra de sua desconhecida língua? Animava-o a esperança de que poderiam ter certa reverência pelo objeto-livro, que o guardassem como o souvenir de uma terra distante, de um país exótico como o Brasil. A gente sempre guarda objetos de outros países como coisas valiosas e raras, não guarda? E quem sabe se um sortudo achador não se animaria a aprender o português, para compreender os versos com que a sorte o presenteara.
 
Descobriu, todavia, não ter sido boa ideia deixar um pacote no banco do metrô. Mal desembarcou na estação, percebeu que se instalaram o pânico e a confusão: os vagões foram esvaziados, paralisaram-se várias linhas, anunciavam pelos alto-falantes que haviam encontrado um pacote suspeito – podia tratar-se de um atentado terrorista. Isso sempre acontecia – como é que não tinha se lembrado? – alguém esquecia uma sacola no metrô e era alarme geral.
 
Sentiu um vento gélido percorrendo-lhe a espinha, mas nem teve tempo de vestir o casaco para aquecer-se: dois guardas o alcançaram e pediram nada gentilmente que os acompanhasse, enquanto uma equipe especializada preparava-se para abordar e quem sabe desarmar ou detonar o artefato. Tentou explicar-lhes debalde que o pacote continha um livro, não uma bomba, que não pretendia ele disseminar o terror, mas simplesmente espalhar poesia, que não, ele não o esquecera, deixara-o de propósito ali, para… Enrolou-se mais ainda. Nem naquela terra evoluída compreenderam a nobreza de seus propósitos, suas aflições de vate. Provocara grande perturbação pública. Foi deportado. Não ousou esquecer no hotel os livros que lhe restaram. Trouxe-os consigo. A poesia é o pior dos presentes de grego, que não se oferta nem ao pior dos inimigos.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

Postagens Relacionadas
Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]

Noite e Dia
20.02.2026
Exposição de Maria Clara Curti abre temporada 2026 da Vila Cultural Cora Coralina; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu o calendário de exposições 2026 nesta quinta-feira (19/2), com a exposição “Aquilo que fica e outros fantasmas”, primeira individual de Maria Clara Curti. A produção multifacetada desdobra temas como o luto e a simbolização da perda, as impressões da memória no corpo, tensões intersubjetivas […]

Noite e Dia
18.02.2026
Goiânia recebe 42ª edição do Congresso Espírita de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Nem só de folia foi feito o Carnaval deste ano. A Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) realizou entre sábado (14) e segunda-feira (16), o 42º Congresso Espírita de Goiás. O evento foi realizado no Teatro Rio Vermelho (Centro de Convenções) e com o tema “Jesus e Kardec para os […]

Projetor
17.02.2026
Uma Cartografia de Influências

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões. Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de […]

Noite e Dia
16.02.2026
Goianienses aproveitam sábado de carnaval com muito samba; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os goianienses aproveitaram o sábado de carnaval (14/2) no Centro da cidade. Com programação especial, o Quintal do Jajá recebeu os foliões com apresentação do DJ Ferrá, Ricardo Coutinho e Gabriela Assunção. A festa continua nesta segunda-feira (16), com show de Grace Venturini e Banda, às 18h. Na terça-feira (17), com […]