Zurique – Hoje está fazendo um ano que um grande amigo morreu. E de morte entendo um tanto. Ela nasceu comigo. No dia que completei nove meses de idade, meu pai faleceu. Também um câncer bravo que, em poucos meses, terminou com uma vida de apenas 26 anos. Desde então esse vazio me acompanha, mas é um vazio suave, cheio de histórias. Um vazio que com o passar dos anos virou presença.
Na sua casa, junto com Huguinho e Mário, estudei para o vestibular e foi onde realmente aprendi física e matemática. A sua inteligência não tinha limites. Divertia-se procurando as equações ou problemas mais complicados e quem não conseguisse resolvê-los, tinha que beber um gole do copo de pinga, colocado no centro da mesa…
Nos divertíamos muito resolvendo problemas de física! Foram tardes inesquecíveis, cheias de um incomparável espírito de companheirismo, confiança e liberdade de pensamento. E assim ele era, uma pessoa leal, honesta, livre de qualquer dogma ou preconceito. Sua inteligência era muito vasta. Foi também na sua casa que vi o primeiro computador da minha vida. Sérgio me apresentou e explicou as funções, isso ainda bem no início dos anos 80.
Prestamos vestibular juntos e fazíamos planos de um dia dividirmos um apartamento no Rio, de um lado uma mesa para seu PC, do outro uma para minha máquina de escrever Olivetti. Com os anos, nos perdemos de vista, mas sempre que nos encontrávamos por acaso, era uma festa! Através de amigos comuns, ouvia sempre elogios ao seu trabalho como médico, sua competência e carinho com os pacientes. Estava muito feliz com a possibilidade de revê-lo em breve…
Mas os grandes homens partem cedo. Assim como um outro querido colega de faculdade, que também nos deixou muito novo, ele fazia parte da categoria de pessoas que não precisam fazer esforço para serem especiais. Eles atraem as pessoas à sua volta pelo simples calor humano que irradiam, pela grandeza despretensiosa, por serem geniais, mas não se levarem muito a sério, por não economizarem vida e serem pessoas infinitamente bondosas, sábios como crianças grandes e por manterem por toda vida o coração simples. São verdadeiros mestres em sua simplicidade. Que grande perda para nós que aqui ficamos, mas que ganho para aqueles que já estão lá.”
Que toda a família receba meu abraço saudoso e solidário. Foi um privilégio único fazer parte da lista de amigos do nosso querido Serjão.