Logo

Um pedaço do céu

24.10.2012 - 11:06:16
WhatsAppFacebookLinkedInX

Zurique – Hoje está fazendo um ano que um grande amigo morreu. E de morte entendo um tanto. Ela nasceu comigo. No dia que completei nove meses de idade, meu pai faleceu. Também um câncer bravo que, em poucos meses, terminou com uma vida de apenas 26 anos. Desde então esse vazio me acompanha, mas é um vazio suave, cheio de histórias. Um vazio que com o passar dos anos virou presença.
 

Assim é também a ausência do meu querido amigo Serjão.  Infelizmente, nos vimos pouco nos últimos anos, trabalho, filhos, viagens, tempo corrido. Os dias, os anos, sempre correm, mas o que fica são sementes. Como bem nos lembrou recentemente Fabrícia Hamu, “a única coisa que a morte nos ensina é a urgência de amar.”
 
Quando fiquei sabendo que não seria possível encontrá-lo na minha próxima viagem ao Brasil, não contive a emoção, como agora, ao rever sua foto. E repito aqui as palavras e lembranças que me vieram na época.
 
– “Meus filhos voltaram da escola e encontraram a mãe sentada em frente ao computador chorando feito criança. Passei a tarde inútil. Mesmo depois de tantos anos, Serjão ainda ocupava a cadeira de grande e querido amigo no meu coração. Fomos colegas no Pré-Médico e foi ele que me levou para a turma do "fundão", aqueles que, por aprenderem tudo com muita rapidez, mantinham o espírito livre para outros assuntos não menos interessantes.

Na sua casa, junto com Huguinho e Mário, estudei para o vestibular e foi onde realmente aprendi física e matemática. A sua inteligência não tinha limites. Divertia-se procurando as equações ou problemas mais complicados e quem não conseguisse resolvê-los, tinha que beber um gole do copo de pinga, colocado no centro da mesa…

Nos divertíamos muito resolvendo problemas de física! Foram tardes inesquecíveis, cheias de um incomparável espírito de companheirismo, confiança e liberdade de pensamento. E assim ele era, uma pessoa leal, honesta, livre de qualquer dogma ou preconceito. Sua inteligência era muito vasta. Foi também na sua casa que vi o primeiro computador da minha vida. Sérgio me apresentou e explicou as funções, isso ainda bem no início dos anos 80.

Prestamos vestibular juntos e fazíamos planos de um dia dividirmos um apartamento no Rio, de um lado uma mesa para seu PC, do outro uma para minha máquina de escrever Olivetti. Com os anos, nos perdemos de vista, mas sempre que nos encontrávamos por acaso, era uma festa! Através de amigos comuns, ouvia sempre elogios ao seu trabalho como médico, sua competência e carinho com os pacientes. Estava muito feliz com a possibilidade de revê-lo em breve…

Mas os grandes homens partem cedo. Assim como um outro querido colega de faculdade, que também nos deixou muito novo, ele fazia parte da categoria de pessoas que não precisam fazer esforço para serem especiais. Eles atraem as pessoas à sua volta pelo simples calor humano que irradiam, pela grandeza despretensiosa, por serem geniais, mas não se levarem muito a sério, por não economizarem vida e serem pessoas infinitamente bondosas, sábios como crianças grandes e por manterem por toda vida o coração simples. São verdadeiros mestres em sua simplicidade. Que grande perda para nós que aqui ficamos, mas que ganho para aqueles que já estão lá.”
 

Nada me parece atualmente mais importante do que rever pessoas queridas, amigos, parentes, velhos, novos, próximos, distantes. Porque nada é existencialmente mais único e imprescindível – um abraço apertado, um aperto de mão desajeitado ou escandalosamente festivo, um tapa nas costas, e aí amigo! um olhar de quem entende tudo por meias-palavras, risadas sincronizadas, cúmplices, segredos falados e esquecidos na confiança, lembranças em comum, as mesmas músicas, piadas, bares, e tudo não passa de fachada, cenário de papelão, bolha de sabão, se por trás dessa correria e luta diária não houver um pouco disso nos esperando. Cada amigo é um pedaço de céu. E o meu, hoje, se chama Sérgio Arruda Unes.

Que toda a família receba meu abraço saudoso e solidário. Foi um privilégio único fazer parte da lista de amigos do nosso querido Serjão.  

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
25.02.2026
Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás reúne autoridades e personalidades em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – A entrega das premiações da edição 2026 do Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás foi realizada nesta segunda-feira (23/2). Promovido pela Contato Comunicação, a 16ª edição foi realizada na Câmara de Goiânia, no Auditório Jaime Câmara. O reconhecimento contempla os nomes mais citados por jornalistas e formadores de opinião do […]

Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]

Noite e Dia
20.02.2026
Exposição de Maria Clara Curti abre temporada 2026 da Vila Cultural Cora Coralina; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu o calendário de exposições 2026 nesta quinta-feira (19/2), com a exposição “Aquilo que fica e outros fantasmas”, primeira individual de Maria Clara Curti. A produção multifacetada desdobra temas como o luto e a simbolização da perda, as impressões da memória no corpo, tensões intersubjetivas […]

Noite e Dia
18.02.2026
Goiânia recebe 42ª edição do Congresso Espírita de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Nem só de folia foi feito o Carnaval deste ano. A Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) realizou entre sábado (14) e segunda-feira (16), o 42º Congresso Espírita de Goiás. O evento foi realizado no Teatro Rio Vermelho (Centro de Convenções) e com o tema “Jesus e Kardec para os […]

Projetor
17.02.2026
Uma Cartografia de Influências

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões. Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de […]