Goiânia – Há muitos abandonei o instantâneo. Refiro-me apenas ao café: o solúvel. Com o passar dos anos, aprendi o sentido de passar um café de verdade, mesmo que só para mim, de oferecer-me um tempo necessário, e baixar a fervura e a nervura no coador das manhãs. Porque no mais também tenho sido arrastada pelo instantâneo, pelo fugaz, pela pressa.
Também fui puxada, às vezes a contragosto, pela mudança de hábitos e comportamentos. Vivi o ápice do ficar ainda do período da pedra lascada: uma só troca de olhar e já se lascava um beijo, mas era apenas em um somente por noite. Depois, veio a época dos muitos ficantes, do ficar mais profundamente, do amassar e do ajoelhou tem que rezar. Mas essa prefiro nem comentar. Já se comenta demais e nem estamos ainda na profundeza dos fundos desse período da história humana.
Sem falar justamente de relacionamentos, também fui arrastada pelo instantâneo, das fotografias digitais, das novas mídias. Embora um pouco retardatária, aderi a elas e as abandonei seguidamente: ao ICQ, ao MSN, ao Orkut, ao Facebook, ao Twitter, e não sem alguma resistência ao WhattsApp, que não para de piar desesperadamente. Sim desesperada e doentiamente.
Há uns dez anos li algo, se não me engano do filósofo francês, Pierre Lévy, os primeiros estudos sobre o que já se delineava como uma doença: a ansiedade da informação, a informatose, a normose informacional. Não sei então por que hoje me surpreendo vendo-me e assistindo às pessoas ao meu lado no agudo da doença: os olhos vidrados no vidro computadores, celulares e tablets, sem tempo para sequer para roer as unhas, ultrapassados os limites da ansiedade e do sentido de urgência.
Nas relações afetivas, familiares, no trabalho, a comunicação é intensa, exacerbada, instantânea, imediata. Você manda um e-mail e se o destinatário não responde minutos depois, você envia o segundo para checar se ele não foi visualizado, ou se por acaso você não foi tratado com descaso, se não foi considerado prioridade. Se não responde imediatamente, pode, no ambiente profissional, ser considerado um indolente, um negligente, um descompromissado.
Se não curte ou comenta um post de um amigo, arrisca-se a perder uma amizade. Se no primeiro pio do Whats não se avista um segundo traço, isso significará o traço de que não é tão estreito assim o afetivo laço. Se o filho não responde ao chamado da mãe, ela logo deduz que ele foi sequestrado. Se não dá um “rs” nas piadas dos grupos de amigos ou familiares ou não lhes envia emoticons meigos, vídeos edificantes ou engraçados, pode ser-lhe atribuída a pecha de antissocial ou desnaturado.
E cá estão celulares atendidos e mensagens respondidas no meio da sessão de cinema, nas macas dos hospitais, no meio dos cemitérios, quando o defunto ainda nem esfriou na terra dos pés juntos. Não havemos de nos surpreender se alguns moribundos desejarem ser enterrados com seus portáteis para realizar uma chamada do além ou fazer o check-in das belezas ou quenturas do lugar a que acabam de chegar, como os faraós egípcios se faziam acompanhar em suas tumbas de seus bens.
Ui, como já estou exausta de tudo isso. Saudades de escrever uma carta e esperar que ela fosse entregue pelos Correios e de aguardar por dias pela resposta que às vezes não vinha. Saudades de um simples fax, de mandar revelar as fotografias que desvelavam feiuras mas também surpreendentes maravilhas. Talvez porque no jornalismo ou na comunicação corporativa, a gente viva ainda mais perto dessa instantaneidade e imediatismo, nos observo para além do limite do suportável e do endoidecível.
Nesse novo tempo do jornalismo digital, do jornalismo em tempo real, do acesso mais livre e democrático às tecnologias de comunicação, do e-government, não existe o direito à espera: tudo é para ontem, todas as informações precisam estar a mão e ser dadas com a máxima agilidade. Tudo gira em torno da informação e nós giramos como piões e peões desembestados sobre uma besta que nos comanda.
Já não existem limites entre o público e o privado, entre o tempo de trabalho e de descanso. No meio da noite o telefone apita com ofertas aflitas, com o e-mail do colega que esqueceu de avisá-lo sobre uma tarefa inadiável, como se o destino do mundo dependesse daquilo.
Diante disso, tomei mais algumas daquelas decisões improteláveis do início de ano novo (ele que já pelo meio avança): ao menos durante o sono desligar o celular, que já nos mantém sonâmbulos ao despertar, e trocar seu silvo pelo de um despertador de dar corda antigo. E, claro, começar a praticar a meditação e o zen-budismo. Quero matar de raiva os apressados, os imediatos, os instantâneos com minha calma de monja tibetana. E ao me dizerem “tem que ser hoje, agora”, responderei: “só amanhã, pois preciso passar um café antes”.