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(Re)descobrindo Aloysio Raulino no III Fronteira

21.03.2017 - 15:41:16
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Aloysio Albuquerque Raulino de Oliveira (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1947 – São Paulo, São Paulo, 2013), ou simplesmente Aloysio Raulino, foi um prolífico diretor e fotógrafo cinematográfico. Durante a segunda metade da década de 1960, mudou-se para São Paulo e ingressou na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Sua paixão pelo cinema advém desde sua tenra juventude quando frequentava o Cine Paissandu, no Rio de Janeiro, para assistir a filmes europeus, japoneses e aos do Cinema Novo.
 
A terceira edição do Festival Internacional do Filme Documentário e Experimental – Fronteira – exibirá na próxima quinta-feira, 23, às 21h, no Cine Cultura, Noites Paraguayas (1982), com a ilustre presença de Gustavo Raulino, filho do diretor. Haverá o lançamento de um box com a filmografia completa do diretor e os primeiros espectadores que chegarem à sala de exibição serão presenteados com esta sublime coleção.
 
Como contraponto ao cinema engessado proveniente da Globo Filmes que assola as salas por todo o país com produções anódinas e que remetem muito mais a extensões de programas televisivos de qualidade pífia do que o cinema propriamente dito, a obra de Aloysio Raulino é bálsamo para o olhar de um público ávido por filmes que provocam uma certa inquietude, em que o pensamento e a noção de autoria brotam de modo inexorável após cada película, à medida que se conhece cada uma delas.
 
Noites Paraguayas (1982) é seu único e seminal longa-metragem e parece um tanto quanto deslocado em sua contundente filmografia, uma espécie de um estranho no ninho. O improviso fica de lado e aparece uma mise-en-scène elaborada com rostos de atores conhecidos. O retrato em branco em preto de outrora dá espaço a cores vibrantes aliadas a uma estruturada direção de arte. O filme narra a história de Rosendo, que deixa sua cidade pequena, no interior do Paraguai, para tentar a vida na capital Assunção. Posteriormente, segue para São Paulo, onde se hospeda na casa de compatriotas. Quando retorna ao Paraguai, depara-se com seu país modificado.
 
Sua filmografia é composta de 18 títulos entre curtas, médias e o longa referido. O engajamento e a paixão desmedida do realizador são notados em cada nova empreitada, por meio de uma obra apaixonante em que a necessidade de adentrá-la se faz cada vez mais presente, proporcionalmente, na medida em que se assiste aos seus filmes. Todos eles são essenciais, cada um a seu modo. O tom em caráter de documento de uma época, uma radiografia precisa de uma era passada e que, atrelada a um engajamento genuíno, promove um impactante retrato social e firma de vez um pacto do cinema como ferramenta política que disseca as mazelas sociais.
 
Inventário da Rapina (1985) é, indubitavelmente, seu grande filme e deve constar em todos os anais quando se refere ao cinema brasileiro. Utiliza-se de texto, relato e música do poeta Cláudio Willer e traça brilhantemente impressões do momento da época e que pode ser estendido ao atual vivido no Brasil, podendo ser definido como um drama intimista patriótico. Lacrimosa (1970), O Porto de Santos (1978), Teremos Infância (1971), O Tigre e a Gazela (1976), bem como todos os outros trabalhos são valiosíssimos e merecem destaque absoluto na história do Brasil. Entre 1996 e 1998, realizou Puberdade I, II e III, três médias-metragens que compõem um belíssimo retrato do universo adolescente. Seus filmes deveriam ser obrigatórios em todas as escolas espalhadas pelo Brasil
 
Não obstante, o talento como fotógrafo de cinema é uma vertente que não poderia deixar de ser mencionada. Mesmo com todo o apuro técnico, conseguiu agrupar tal característica a uma obra extensa. Trabalhou em mais de cem títulos entre longas, curtas e documentários. Seu trabalho é notável em algumas das fitas mais emblemáticas do cinema brasileiro e é impossível deixar de mencionar a estupenda fotografia de Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci, referência absoluta quando o assunto é cinema brasileiro, assim como O Prisioneiro da Grade de Ferro (2003), de Paulo Sacramento, que dialoga com o filme Carandiru (2003), de Héctor Babenco.
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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