O segundo excerto foi retirado de History of the Violin, obra assinada por William Sandys e Simon Andrew Forster (1864 , p. 9; grifo meu). Assim como na citação anterior, os autores atribuem a criação do Ravanastron a “Ravana king of Ceylon”, lembrando que o Ceilão é um dos antigos nomes do Sri Lanka, um país insular localizado logo abaixo da atual Índia, no Oceano Índico. No entanto, no complemento da frase, lê-se: “5000 years before the Christian era”. Ou seja, há c.7000 anos.

Além da palavra Ravanastron, o “violino primitivo” – termo usado por Carl Engel (1876, p. 49) – costuma ser mencionado em vários livros com nomes diferenciados. Os mais comuns são: Ravanhattha (Ravanhatta) e Ravana Hasta Veena.
Vale esclarecer que o termo "Veena", em sentido genérico, refere-se a todos os tipos de instrumentos musicais de cordas da história indiana, sejam eles dedilhados (com ou sem trastes) ou tocados com arco etc. Tal afirmação pode ser encontrada na Tese assinada pela pesquisadora Amogh R. Nalawade e intitulada Vibro-acoustic analysis of the Veena (2015, p. 5) ou, ainda, no verbete “Vina”, presente na versão on-line da Encyclopaedia Britannica.
É pertinente mencionar que, ainda hoje, o Ravanastron faz parte da cultura musical da Índia. Abaixo, um exemplo de sonoridade do Ravanhattha (Vídeo 1).
Vídeo 1: Ravanhatta (Ravanastron)
Título (YouTube): Ravanhatta – A desert song on Ravana's musical instrument
Vídeo 2: Erhu (de origem chinesa; considerado cópia do Ravanastron)
The Butterfly Lover – Part 1: Chinese Folk Music

Fonte: stringfixer.com
Como mencionado, existe um segundo epíteto para Ravana: o “rei de Lanka”. Nesse seguimento, notei que, relativamente ao tempo de Ravana, as fontes bibliográficas examinadas fazem uso do termo “Lanka” com sentidos distintos: como um reino ou como uma cidade ou, ainda, como uma fortaleza.

Foi, então, que surgiu uma dúvida:
-
Ravana realmente existiu? Ou trata-se de um personagem da mitologia3 indiana?
Construção: corpo, cordas e arco.
- De serpente (Brown; Brown, 1888, p. 141; Chouquet, 1884, p. 110; Pasquali; Príncipe, 1952, p. 1; Wright, 1941, p. 146)
- De cabra (Viswanathan, 2016);
-
Por vezes, a pele de cobra é substituída por uma pele de cordeiro ou cabrito (Grillet, 1901, p. 273).

- Seda e, mais tarde, tripa. (Pasquali & Principe);
- Seda (Grillet, 1901, p. 273).
- “Intestines of the gazelle” (Brown & Brown).

Fonte 1: commons.wikimedia.org
A descendência direta do Ravanastron
Omerti
– Presente nas culturas indiana e dos povos árabes;
– Acredita-se que seja um aperfeiçoamento do Ravanastron.
Urh Sien (chinês) e R´Jenn (japonês)
– Considerados cópias do Ravanastron ou do Omerti.
Erhu (Vídeo nº 2), também de origem chinesa
– Considerado cópia do Ravanastron ou do Omerti;
– Artigo: Instrumentos chineses, um voo de 7000 anos (Autor: Paulo Veiga; Jornal da PUC/RJ)
Kemangeh (kamanche, kamancha ou “violino persa”)
– Família: Kemangeh à gouz ("viola antiga"), Kemangeh farkh (“médio Kemangeh” ou “media-viola”) etc.
– Suas origens estão na antiga Pérsia, cujo território, atualmente, é ocupado por nações como Afeganistão, Turquia, Paquistão, Iraque e Irã. Todavia, seu uso é um importante elemento da cultura dos povos árabes.

Figura 7: Kemangeh à gouz
NOTAS:
1) Politicamente, costuma-se dividir, inicialmente, a história da Índia antiga em duas etapas: pré-ariana (iniciada há cerca de 75.000 anos) e ariana (a partir de 1.500 a. C., aproximadamente). Na primeira fase, trazendo as palavras de Alda Mauro Tírico (1964, p. 299), “existiam na Índia populações primitivas como os veddas do Ceilão, os khonds, disseminados pelas áreas centrais e Orissa, os kols, os katharis, os thakours e os munda”. Por volta de 5.000 a. C., aquela população ficara conhecida como povo do Vale do Indo. Tempos depois, a civilização do Vale do Indo, por motivos ainda nebulosos, praticamente desapareceu em torno do ano 1.500 antes da Era Cristã. Mais menos por essa época, chegaram àquela região algumas tribos indo-europeias (grupos humanos que falam idiomas relacionados com o sânscrito). Em relação ao termo “ariano”, conforme a explanação de Pe. Vath, secundada por Tírico (ibid., p. 300), “é a designação de iranianos e hindus, nome dado por eles próprios a si mesmos”. Com a mesclagem das duas culturas, iniciou-se, então, o Período Védico (c.1500 a. C. a 300 a. C.).
2) O significado de Sri Lanka (Sri Lanca, Seri Lanca) é “Ilha resplandecente”. Em sua história mais recente, no curso da Era Cristã, o Sri Lanka esteve sob o domínio de outros povos: chineses (século XV), portugueses (século XVI), holandeses (século XVII) e, por fim, os ingleses (1796 a 1948) que chamavam a ilha de Ceylon e sua capital “Madras”. Seu nome oficial (atual) é República [presidencialista] Democrática Socialista do Sri Lanka e sua capital é Sri Jaiavardenapura-Cota ou simplesmente Cota ou, ainda, Kotte (“fortaleza”).
3) Mircea Eliade em seu livro Mito e Realidade (Coleção "Debates", Editora Perspectiva) nos instrui que “todas as grandes religiões mediterrâneas e asiáticas possuem mitologias”. E, ainda hoje, há casos de sociedades nas quais os mitos continuam vivos. E, mais: continuam exercendo a função de fundamentar sobretudo o comportamento ou as atividades do homem. Ainda para a autora, “o mito é uma realidade cultural extremamente complexa que pode ser abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares”. Nessa orientação, Eliade afirma que, hoje em dia, o vocábulo “mito” é empregado em dois sentidos: 1) Como uma “ficção”, “fábula” ou "ilusão"; 2) Uma "história verdadeira", de "tradição sagrada”, uma “revelação primordial”, um “modelo exemplar", ou seja, por esta ótica, o mito é considerado “tal qual era compreendido pelas sociedades arcaicas” (Eliade, 1972, pp. 7-9).
OBRAS CONSULTADAS:
Chouquet, Gustave (1884). Le Musée du Conservatoire national de musique. Catalogue descriptif et raisonné par Gustave Chouquet – Conservatour du Musée. Paris: Librairie de Firmin-Didot et Cie.
Engel, Carl. (1876). Musical Instruments. London: Chapman and Hall Ltd.
Engel, Carl. (1883). Researches into the Early History of the Violin Family. London: Novello, Ewer & CO.
Lavignac, Albert & Laurencie, Lionel de la. (1921). Encyclopédie de la Musique et Dictionnaire du Conservatoire. Paris: Librairie Delagrave.
Pasquali, Giulio; Principe, Remy. (1952). El Violin – manual de cultura y didactica violinistica. Buenos Aires: Ricordi Americana.
Sandys, Willian; Foster, Simon Andrew. (1864). History of the violin. Londres: John Russell Smith; Addilson and Lucas.
Nalawade, Amogh R. (2015). Vibro-acoustic analysis of the Veena. (Thesis, Master of Technology). Indian Institute of Technology Hyderabad.
Veiga, Paula. (2019). Instrumentos chineses, um voo de 7000 anos. Jornal da PUC (on-line).
Viswanathan, Priya. (2016). Veena and Other Ancient Musical Instruments of India. In: Dolls of India.
Wright, Rowland. (1941). Dictionnaire des instruments de musique: Étude de Lexicologie. London: Battley brothers limited.
