Augusto Diniz
Goiânia – Representantes de produtores rurais e entidades ligadas ao agronegócio em Goiás realizam na manhã desta segunda-feira (3/1) o protesto "Segunda Com Carne", com o objetivo de mobilizar a sociedade contra um dos vídeos atribuídos à campanha publicitária "Carbono neutro" do Banco Bradesco. A instituição financeira publicou uma carta direcionada ao agronegócio para dizer que "tal posição não representa a visão desta casa em relação ao consumo da carne bovina".
Os manifestantes vão à porta da agência da instituição financeira que fica na Praça Tamandaré, em Goiânia, às 11h30, para reclamar do conteúdo do material no qual três influenciadoras afirmam: "A criação de gado contribui para emissão dos gases de efeito estufa. Então, que tal se a gente reduzir o nosso consumo de carne e escolher um prato vegetariano na segunda-feira?".
É isso mesmo @Bradesco , o pasto não entra nesse cálculo? Vocês não pensaram em consultar EMBRAPA ou alguma instituição séria p saber se o pasto captura carbono na atmosfera e compensa os gases da pecuária? pic.twitter.com/DhR5JHgNhs
— José Medeiros (@JoseMedeirosMT) December 23, 2021
De acordo com os organizadores, serão distribuídos mais de 2 mil espetinhos de carne em frente à agência do Bradesco na Praça Tamandaré. "Hoje em Goiânia vai acontecer um protesto de ruralistas e entidades ligadas ao agronegócio em Goiás sobre uma campanha que o Banco Bradesco divulgou nas redes sociais, no dia 23 de dezembro, em que influenciadoras recomendam a redução do consumo de carne e associa, a prática ao efeito estufa", informam pessoas ligadas à manifestação.
Em resposta às manifestações dos produtores de carne, o Bradesco informou que adotou algumas atitudes em relação ao vídeo. "O Bradesco acredita e promove direta e indiretamente a pecuária brasileira e por conseguinte o consumo de carne bovina. Diante do ocorrido, medidas foram imediatamente tomadas incluindo a remoção do conteúdo de ambiente público, e, além disso, ações administrativas internas severas."
"Segunda Com Carne"
O nome "Segunda Com Carne" seria uma resposta à sugestão do vídeo atribuído ao Bradesco, no qual é feita a sugestão para que as pessoas façam adesão à campanha "Segunda Sem Carne". "Duas atitudes simples que você pode adotar no seu dia a dia para reduzir o impacto. E uma extra. A primeira é reduzir o nosso consumo de carne e aderir à Segunda Sem Carne", sugerem as influenciadoras digitais que participam do vídeo atribuído ao Bradesco.
No dia seguinte, 24 de dezembro, o Bradesco divulgou uma "Carta Aberta ao Agronegócio Brasileiro" e alegou que "nos últimos dias lamentavelmente vimos uma posição descabida de influenciadores digitais em relação ao consumo de carne bovina, associadas à nossa marca".
"Ao longo de seus quase 79 anos de história o Bradesco apoiou de forma plena o segmento do agronegócio brasileiro, estabelecendo parcerias sólidas e produtivas. Tal opção é baseada em sua crença indelével nesse segmento enquanto vetor de desenvolvimento social e econômico do País", abre a carta a instituição financeira.
Nota de repúdio
Uma das entidades que se manifestou contra as informações contidas no vídeo é a Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA). Por meio de nota de repúdio assinada pelo presidente Eurico Velasco de Azevedo Neto, a SGPA "vem manifestar o seu total repúdio em decorrência das propagandas veiculadas atualmente pelo Banco Bradesco a respeito de uma equivocada campanha de 'sustentabilidade'".
De acordo com o presidente da SGPA, o Bradesco coloca "levianamente" o pecuarista como vilão ao dizer que uma das medidas para reduzir o impacto de carbono seria aderir à "Segunda Sem Carne" porque a produção de gado contribuiria com a emissão de gases do efeito estufa.
"O Bradesco, além de apresentar informações irresponsáveis e erradas, imputou irresponsavelmente uma culpa ao produtor rural que, além de alimentar a população mundial, ainda é o grande responsável pela manutenção positiva da economia brasileira (PIB), e assim, gerando fortunas aos cofres do Bradesco", diz a nota.
Uma das organizadoras do protesto em Goiânia, Janaína Flor, que é coordenadora geral do Núcleo Feminino da Pecuária em Goiás, afirma que a "Segunda Com Carne" é uma resposta ao desrespeito feito pelo Bradesco contra "toda a cadeia produtiva".
"Em relação à campanha, na qual ele [o banco] não fez qualquer estudo sobre as consequências do que é uma atividade econômica que representa o nosso País, que representa uma força hoje pulsante do PIB brasileiro. Em resposta ao desrespeito do Bradesco em relação à pecuária brasileira, estamos com o 'Segunda Com Carne' sim", explica Janaína.
"Respeito ao produtor"
A SGPA conclui a nota de repúdio da seguinte forma: "Por fim, exigimos o máximo de respeito ao produtor rural brasileiro, que além de ser um grande protetor de nossas matas e águas, dia a dia salva a vida financeira do Brasil".
No dia 24 de dezembro, o Bradesco respondeu ao setor do agronegócio por meio de uma carta direcionada ao produtores de carne do Brasil. "Dessa forma, reiteramos nossa lamenta pelo ocorrido e reforçamos mais uma vez nossa crença irrestrita na pecuária brasileira", informa o banco no texto.
Leia abaixo a carta do Bradesco na íntegra:
"CARTA ABERTA AO AGRONEGÓCIO BRASILEIROAo longo de seus quase 79 anos de história o Bradesco apoiou de forma plena o segmento do agronegócio brasileiro, estabelecendo parcerias sólidas e produtivas. Tal opção é baseada em sua crença indelével nesse segmento enquanto vetor de desenvolvimento social e econômico do País.Contudo, nos últimos dias lamentavelmente vimos uma posição descabida de influenciadores digitais em relação ao consumo de carne bovina, associadas à nossa marca.Importante dizer que tal posição não representa a visão desta casa em relação ao consumo da carne bovina.Pelo contrário.O Bradesco acredita e promove direta e indiretamente a pecuária brasileira e por conseguinte o consumo de carne bovina.Diante do ocorrido, medidas foram imediatamente tomadas incluindo a remoção do conteúdo de ambiente público, e, além disso, ações administrativas internas severas.Dessa forma, reiteramos nossa lamenta pelo ocorrido e reforçamos mais uma vez nossa crença irrestrita na pecuária brasileira".