Jales Naves
Especial para A Redação
Goiânia – Em relato que muito a emocionou, a escritora Mércia Aguiar fechou a discussão sobre o seu livro “A Sublime Maria de Nazaré”, que durou dois anos, sempre no primeiro sábado do mês, em reuniões da Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás. Lançada em 2023 pela Editora Kelps, de Goiânia, a obra foi recebida mediunicamente, com o apoio de seu mentor espiritual, Alexandre – que foi seu avô em outros momentos de sua trajetória –, quando recebe as imagens, como num filme, e as transforma em texto, resgatando momentos que ali vivencia.
Nesse capítulo derradeiro, o XXXV, a autora resgata uma das aparições de Jesus Cristo, para acompanhar os últimos instantes de Maria Santíssima, em sua nobre e rica passagem terrena. Enfraquecida pela idade, aproximando-se dos 92 anos, além das angústias vividas e a dedicação incondicional e amorosa a enfermos do corpo e da alma, ela já não conseguia movimentar-se como outrora, como para se levantar e dar início às tarefas do dia.
Lembranças
São muitas as imagens criadas por Mércia a partir das descrições detalhadas feitas nos diálogos, como quando chama João, o apóstolo, sempre por perto e que a ajudava, em especial quando pede ajuda para se levantar, pois não estava conseguindo, e que a leve ao local onde o corpo de Ruth repousa.
– “João, meu filho, hoje acordei com uma viva lembrança; sonhei com um lugar onde tudo se transformava em doce encantamento. O sofrimento, as angústias, as maldades, doenças e traições espantosamente se diluíam, quais bolas de sabão ao sabor do vento. Ainda conservo na memória que belíssimos insetos multicores zumbiam harmoniosamente compondo hinos; o vento tangia as cordas dos arvoredos, sacudindo de leve as gotas de orvalho que desfaleciam de enlevo ao tocar cada ninho em que cantavam doce canção. Fiquei deslumbrada, escutando as melodias da natureza. Compreendi que naquele lugar tudo é um poema de louvor a Jesus, que está no seu invisível trono de luz”.
Muito debilitada, já sem enxergar devido a uma opacificação dos olhos, Maria de Nazaré conta, nessa parte final da obra, as visões que estava tendo, de pessoas próximas e que tinham partido, recordando-se dos tempos iniciais de Jesus Cristo e, mais recentemente, sua feliz convivência com José.
Num desses momentos especiais ela avista um barco que se aproximava da margem e nele vislumbrou um jovem em pé, acenando para o povo. Vestia uma túnica branca e apoiava ao ombro direito um manto da cor escarlate, ao estilo nazareno.
– “Quem poderia ser aquele homem de inigualável beleza e perfeição?”.
Ela mesmo respondeu:
– “É Jesus Cristo!”.
Recordações
Na manhã seguinte, com as mesmas dificuldades, prosseguiu em sua jornada voluntária, diária, de apoio aos humildes em suas carências.
Nesse dia, um indigente doente, que sempre estava circulando pelo local, foi convidado a entrar e se alimentar com ela, que não estava conseguindo se mover.
Na conversa, ele tocou num assunto caro para ela:
– Senhora Santíssima, como se sentiu vendo o seu filho pregado na cruz?
Calma, com o olhar distante, parecendo buscar na memória as dolorosas imagens de um passado longínquo, mas parecendo continuar vivo, muito presente, respondeu ao questionador:
– Naquele triste dia, quando os meus olhos viam o meu filho sendo crucificado, inocentemente, somente por ter pregado o amor, o perdão, o meu coração dava mostras de que não suportaria tamanha dor. Ali, no Calvário, um turbilhão de lágrimas banhou o meu rosto, mas se converteram em bênçãos, precipitando-se na terra sequiosa do alimento que Jesus ofertava, e iria fecundar das divinas sementes de amor e luz, espalhadas pelo seu Evangelho, que se tornariam árvores robustas e magnânimas, espalhando flores, frutos e conforto, aureolados de esperança aos sofredores do caminho, que vagam sem teto e sem pão, mas carregam fé, esperança e alegria, por terem conhecido os valiosos ensinamentos de Jesus. Naquele momento, olhei para a cruz e, a meia-voz, disse-lhe: ‘Filho amado, cumpriste Tua missão’. Foi isso, meu irmão, que divisei para a humanidade naquela hora angustiante. E, no santuário de minh’alma, acendem todas as luzes de que disponho, para neste momento cruel, adornar-te com todas as flores do meu jardim interior, transbordante de amor”.
Nas recordações que transcreveu os bons momentos que ela vivenciou, cantou e viu chegar à sua casa uma pessoa que caminhava em passos lentos.
Foi uma bela surpresa, pois desde o início da conversa ela sentia uma proximidade com ele a partir da sua voz, do seu jeito de falar, da forma como foi se apresentando e, logo, pela identificação, por conhecê-la tão bem:
– “Sim, Mãe, sou eu, teu filho Jesus! Triunfaste no cumprimento de tua missão no grande projeto de Deus, para a humanidade tão sofrida. Agora, venho buscar-te para ser, no meu reino, a Rainha dos Anjos”.
O apóstolo João, a quem Jesus pediu para que se tornasse filho de Maria para apoiá-la naquele momento difícil de seu sacrifício, chega em seguida, reconhece o mestre diante dele, e lhe transmite com os olhos o agradecimento por terem se tornado irmãos, entregando-o à sua própria mãe.
Nisso, percebeu que Maria estava nos seus últimos minutos de vida.
Com doçura, beijou-lhe as mãos e foi até o salão, onde já havia se aglomerado considerado número de cristãos, e pediu para que todos orassem em agradecimento àquele “Anjo, que tudo fez por nós”.
A bela descrição da despedida, que introduz o leitor nesse momento especial vivido por Maria de Nazaré, torna a leitura desse final da obra cheia de sentimentos de amor e fé, emocionantes.
