Falemos hoje do cheiro de amêndoas amargas dos amores contrariados e de artimanhas obsessivas para conquistá-los ou reconquistá-los. Na arte de tentar manipular cupido e de correr atrás do prejuízo, difícil avaliar quando começar a serenata de sapo e quando enfiar a viola no saco. O objeto de seus afetos ou mesmo obsessão já não responde a nenhum de seus estímulos, e-mails, telefonemas, SMS, WhatsApp?
Você já investiu fortunas em amarrações para o amor, aplicou todas as técnicas infalíveis listadas nos caros kits de sedução e reconquista, à venda por aí, e a única coisa que conseguiu foi ser solenemente ignorado ou pisoteado como uma asquerosa barata? Pare de gastar babas e lágrimas à toa. Aceite de uma vez que, quando um não quer, dois só brigam e não roçam nem coxas nem barrigas. Ademais, é bem possível que, a essa altura, ele ou ela já estejam enrabichados por outra formosa criatura.
É verdade que por aí o que te dizem é que insista, que lute pelo seu amor. É assim nas novelas, é assim nas comédias românticas. Mostram que quem espera sempre alcança e o que não é dado de graça, compra-se, quer com presentes caros, quer com gestos dramáticos, quer se transformando repentinamente num super-herói que salva o mundo para romper a indiferença da menina. Os livros de autoajuda não ajudam em nada com suas lições de autoconfiança e perseverança. Ficar expirando como um mantra "me ame, me ame, vem, vem" não fará o universo conspirar amém.
Se suas calças já estão puídas de tanto arrastar a bunda no chão, se você já atingiu o fundo do não, pare de ficar embaixo do solado, chiclete mascado, ou no pé, de chulé, para dar a volta por cima. Tudo o que você fizer será inútil, perdulário e muitas vezes até humilhante. Não adianta propagar suas qualidades extraordinárias, que não vão te querer mesmo que você nasça de novo, vestido de ouro brilhante. Por exemplo, no seu caso, se for mulher, coma um caixa inteira de bombom.
Inútil fazer ameaças: “no meu amor por você ninguém me ultrapassa”, provar que é um amante à moda antiga do tipo que ainda manda flores e diamantes que não murcham tão depressa, cantar “quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita”, olhos nos olhos. É Chico Buarque, mas reconheçamos: que troço mais besta chorar no tapete atrás da porta ou com a dita sempre aberta. Só quem entra em porta permanentemente escancarada é mendigo ou cachorro na igreja.
Ninguém ficará com você por reconhecer a sua nobreza de espírito ou por comiseração. Não adianta ser carente como um gato de pensão. Bobagem buscar explicação em dívidas contraídas em vidas passadas. Isso é encanação, não encarnação. Não queira viver de passado como uma alma penada.
Há boleros de passos mais lentos, sincronizados, há os longos giros clássicos das valsas vienenses. E há essas danças regateiras e sem-vergonha, como o forró, a salsa, a lambada. Mas sempre é preciso que os dois queiram embaralhar as canelas, o paletó e a barra do vestido. Creia, minha amiga, meu amigo, o amor nunca é trance em que você passa o dia todo ignorando quem está ao lado e fixando em êxtase o DJ, achando que assim um dos dois irá viajar com você. Não é tampouco funk, em que a pessoa se contorce, levanta-se e se agacha, fecha e se racha, contrai e descontrai, mostra todas as posições que sabe fazer, porque isso não torna você um bom par pra amar, só pra foder.
Olhe ao redor. Quantos casais você conhece que são realmente felizes? Quantos você pensa que ganharam na mega-sena? A maioria, se não fica pra semente, jamais encontra a outra banda da melancia e tem que levantar fervura sem a tampa da panela. Sim, para ganhar, há que se apostar, mas pra que entrar em jogos viciados, de números marcados? Por ora, chega de chorar o leite que não será mais derramado, de arrancar e comer a casca da ferida. Quer finalmente uma dica, que não vale nada, nadica, mas é de graça?