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O violino e sua representação no Renascimento

12.07.2019 - 17:44:09
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Othaniel Alcântara Jr.

 
O violino exerce um importante papel na estrutura das orquestras sifônicas (ou filarmônicas). Na realidade, considerando o total de instrumentos desses grandes conjuntos musicais, sua presença é bastante numerosa. A título de exemplo, vejamos o caso da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) que, atualmente, conta com cerca de trinta violinistas em seu quadro fixo de profissionais.
 
É correto afirmar que a presença do violino nas orquestras remonta ao século XVII. No entanto, a historiografia musical não foi capaz, até o momento, de estabelecer com precisão quando e por qual pessoa esse instrumento foi criado (PASQUALI & PRINCIPE, 1952, p. 01). De fato, das diferentes teorias existentes acerca desse tema, a mais aceita sugere que o violino tenha sido concebido na região norte da Itália, ainda nas primeiras décadas do século XVI, como parte do processo evolutivo de antecessores como o rebec, a vielle ou a lira da braccio
 
Cabe lembrar que a maioria dos tratados sobre o violino aponta como pioneiros da fabricação deste instrumento os italianos Gasparo da Salò (c.1540-1609) e Andrea Amati (c.1535-1611), fundadores das escolas de lutheria das cidades de Brescia e Cremona, respectivamente. Esta última, inclusive, atingiria o seu auge com o trabalho dos famosos Antonio Stradivari (1644-1737) e Guarnieri “del Gesù” (1698-1744). Em todo caso, podemos atribuir a Gasparo e Amati, no mínimo, os créditos em razão do aprimoramento e padronização da forma do violino.
 
Com efeito, a inexistência de fontes documentais impressas, relativas à origem do violino, acabou proporcionando o surgimento de hipóteses, desta feita, baseadas em evidências iconográficas que antecedem à fundação das escolas de lutheria das cidades de Brescia e Cremona. Neste cenário, destacam-se várias obras do artista Gaudenzio Ferrari (c.1475-1546). Duas delas, em especial, são constantemente citadas na literatura específica sobre esse assunto. São elas: La Madonna degli Aranci (c.1530) e The Concert of Angels (1534-36) que podem ser contempladas em igrejas pertencentes às comunas italianas de Vercelli e Saronno. (BERGMANN FILHO, 2010, pp. 28-29; CAPELA & ALEXANDRINO, 2017, pp. 13 e16; WECHSBERG, 1973, p. 14; WINTERNITZ, 1967, pp. 10-18).
 
A primeira delas – La Madonna degli Aranci -, pintada por volta de 1530, encontra-se em Vercelli (Itália), no altar da Igreja de San Cristoforo (Figuras 01, 02 e 03). É um trabalho feito com óleo sobre madeira.
 
 
Figura 01 – Nave central da Igreja de St. Cristoforo, Vercelli, Itália.

 

Abaixo, em destaque, a obra Madonna degli Aranci (c.1530), localizada no altar da Igreja de San Cristoforo.
 
Figura 02 – Gaudenzio Ferrari, Madonna degli Aranci (c.1530)
Chiesa di San Cristoforo, Vercelli, Itália.
Fonte: it.wikipedia.org

 

Podemos observar na parte inferior da obra La Madonna degli Aranci (c.1530) a representação de um anjo segurando um instrumento musical (Figura 03). De acordo com o resultado da análise de especialistas, este instrumento seria uma primeira forma do violino, com apenas três cordas: sol-ré-lá

 

Figura 03 – Gaudenzio Ferrari, Madonna degli Aranci (pormenor)
Igreja de St. Cristoforo, Vercelli, Itália.


A segunda obra do italiano Gaudenzio Ferrari – The Concert of Angels – pode ser apreciada no Santuário della Beata Vergine dei Miracoli (Figuras 04, 05 e 06), em Saronno, Itália. De acordo com Emanuel Winternitz (1967, pp. 11-12), este gigantesco afresco, pintado entre os anos de 1534 e 1536, representa a chegada da Virgem ao céu. Maria aparece na borda externa da cúpula, enquanto o Pai, em Glória, encontra-se no centro da pintura. O espaço circular entre esses dois principais personagens contém 87 anjos, todos suntuosamente vestidos. Ao mesmo tempo em que alguns rezam, adoram e exaltam, outros 61 tocam ou ajudam na execução de uma grande variedade de instrumentos renascentistas. Ainda segundo Winternitz, há nessa obra, ao todo, 56 instrumentos, sendo que vários deles apresentam características básicas do violino.
Figura 04 – Corpo centrale del Santuario della Beata Vergine dei Miracoli

 

Abaixo, em destaque (Figura 05), a cúpula do Santuário della Beata Vergine dei Miracoli.

 

Figura 05 – Cupula do Santuario della Beata Vergine dei Miracoli
Fonte: milanofotografo.it


No recorte abaixo (Figura 06), da obra The Concert of Angels (1534-36), observa-se a presença de de 3 instrumentos de cordas apoiados no obro de seus intérpretes. Na minha opinião, o mais esbelto poderia ser uma rebec e aquele colocado mais à direita, uma lira da braccio. Conquanto, especula-se que um deles esteja representando o já mencionado violino com três cordas. É, ainda, possível que a rebec e o violino de três cordas sejam o mesmo instrumento. Mas, enfim, essa discussão poderá ser contemplada em outra oportunidade.
 
Figura 06 – The Concert of Angels (pormenor)
 
 
Emanuel Winternitz, analisando o perfil e a familiaridade de Ferrari com as formas dos instrumentos, deixa registrado um curioso palpite em seu livro Gaudenzio Ferrari: his school and the early history of the violin. Para Winternitz, não há dúvida de que este artista tinha mais do que um profundo interesse nessa área, tendo sido, talvez, um músico experiente. Além disso, o autor diz-se convecido de que Gaudenzio foi também um luthier – fabricante de instrumentos de cordas (WINTERNITZ, 1967, p. 18).
 
Finalizando, acredida-se que em meados dos anos Quinhentos, o violino já teria adquirido a sua corda “mi”, a mais aguda. Também datam desta época as primeiras menções impressas alusivas ao violino. Sobre isso, embora os autores Giulio Pasquali e Remy Principe (1952, p. 10) afirmem que a denominação “violin” não tenha sido usada na Itália até 1562, o pesquisador Joseph Wechsberg (1973, p. 14), registra em seu The Glory of the Violin que tal fato teria acontecido em 1551. 
 
Contudo, mesmo concordando que a criação do violino tenha acontecido nas primeiras décadas do século XVI, surge um outro questionamento:
 
O violino teria sido projetado, repentinamente, por um luthier (Gasparo da Salò, Amati etc.) ou foi, na verdade, resultado da evolução, ou mesmo, o amálgama de instrumentos de arco mais antigos como, por exemplo, o rebec, a vielle ou a lyra da braccio?
 
 
Esse assunto será abordado no próximo texto (postado em 02/08/2019):

Leia também:

A “Orquestra” de Monteverdi (postado em 4/4/2019)

Os 24 Violinos do Rei (postado em 20/4/2019)

Les Petits Violons (postado em 16/9/2019)

La Grande Écurie (postado em 2/10/2019)

A música na corte do "Rei-Sol" (postado em 3/10/2019)

Lully e o "cajado" da morte (postado em 18/9/2019)

A família francesa do violino (postado em 9/3/2020).

A batuta (postado em 23/5/2019) 


Atribuições do regente de orquestra (postado em 12/7/2019)

 


Rererências:
 
BACHMANN, Alberto Abraham. An encyclopedia of the violin. New York: Da Capo Press, 1966.
 
BERGMANN FILHO Juarez. A análise e a criação de literatura musical como ferramentas da metodologia contemporânea do ensino do violino em sua fase inicial de aprendizado. Curitiba, 2010, 137p. Dissertação (Mestrado).
Departamento de Artes do Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná.
 
CAPELA, Joaquim Domingos; ALEXANDRINO, António. O violino e o violeiro. Aveiro, Portugal: UA Editora – Universidade de Aveiro, 2017.
 
MORALES, Claudia (ed.). Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Revista da OSESP 2019, Fundação OSESP, São Paulo, p. 128, Edição finalizada em 18/02/2019.
 
WECHSBERG, Joseph. The Glory of the violin. New York: The Viking Press, 1973.
 
WINTERNITZ, Emanuel. Gaudenzio Ferrari: his school and the early history of the violin. New York: Alexander Broude Inc., 1967.
 
PASQUALI, Giulio; PRINCIPE, Remy. El Violin – manual de cultura y didactica violinistica. Buenos Aires: Ricordi Americana, 1952.

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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