Othaniel Alcântara Jr.
A palavra orquestra é usada atualmente, de forma genérica, para designar um conjunto instrumental que, independentemente do seu tamanho e tipo de instrumentos usados, executa uma peça musical ou acompanha um cantor em apresentações artísticas. Particularmente no universo da música “de concerto”, expressão que costumeiramente é substituída por música “clássica” ou música “erudita”, são bastante conhecidas as orquestras de cordas¹, as de câmara² e também a maior delas, a sinfônica (ou filarmônica³).
Grécia
É certo que a estrutura da orquestra sinfônica/filarmônica, por exemplo, não surgiu com as características atuais. Aliás, o próprio substantivo “orquestra”, em sua origem no vocábulo grego orkestra (ορχ?στρα), não se referia a um conjunto musical como organização, mas sim, a um espaço físico. De acordo com o Grove Dictionary of Music and Musicians, nas famosas representações teatrais gregas do século V a. C., o termo orkestra significava “lugar para dançar”. Tratava-se, mais especificamente, de uma área circular (ou semicircular) localizada próxima à plateia. Esse local era destinado aos cantores e dançarinos integrantes do coro (SADIE, 1980). Salienta-se que a performance destes dois corpos artísticos era sempre acompanhada por instrumentos musicais como tambores, flautas, cítaras e aulos (MEDAGLIA, 2008, pp.16-17).
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1) Orquestra de tamanho reduzido formada, exclusivamente, por instrumentos de cordas e arco integrantes da “família do violino”. São eles: os violinos (separados em dois grupos, os primeiros e os segundos), as violas, os violoncelos e contrabaixos. (DOURADO, 2008, p. 239).
2) Orquestra reduzida de formações variadas, podendo ser apenas uma orquestra de cordas (família do violino) ou a seção de cordas com alguns sopros. Nesse caso, são acrescentados instrumentos tais como, flautas, oboés, clarinetas, fagotes, trompetes e trompas, geralmente aos pares. (DOURADO, 2008, p. 239).
3) No passado, houve o entendimento de que uma orquestra sinfônica era composta por músicos remunerados, enquanto a orquestra filarmônica era formada unicamente por músicos amadores. Também já houve, e ainda há, a compreensão de que a diferença entre tais orquestras está na maneira como são mantidas. A primeira seria mantida, então, pelo poder público, enquanto a segunda, pela iniciativa privada. Esta definição justifica-se pelo fato de que, no início do Século XIX, comerciantes de algumas cidades da Europa organizavam sociedades culturais que mantinham orquestras. Atualmente, não existem diferenças entre essas orquestras, exceto com relação ao nome. Na prática, parte das filarmônicas de hoje não sobreviveriam sem financiamento público. Ambas orquestras – sinfônicas e filarmônicas – possuem uma estrutura definida: naipe das cordas, naipe das madeiras, naipe dos metais etc. Sua formação pode comportar entre 60 e 120 músicos. (SAMPAIO, 2000, p. 11).
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Itália
Mais adiante, Roma, ao transformar a Grécia em uma de suas províncias – em 146 a. C. – acabou por assimilar parte da cultura daquela região (GROUT; PALISCA, 2001, p. 33). Assim, o vocábulo grego orkestra passou a ser conhecido em latim como orchestra. Porém, curiosamente, essa palavra, por algum tempo, deixou de se referir ao local do coro, visto ter este desaparecido no teatro romano, passando, então, a indicar o local reservado aos assentos das autoridades e altos dignitários romanos, tais como governantes, cavaleiros, magistrados e senadores (SANTOS, 2016, p. 2).
Tempos mais tarde, a expressão grega orkestra, por meio de seu cognato italiano orchestra, seria revivida pelos humanistas renascentistas que, a partir dos últimos anos do século XVI, tentariam reconstituir o teatro grego clássico. Inicialmente, nesse cenário de experiências com a música dramática, do qual emergiram as primeiras óperas4 italianas, os pequenos conjuntos instrumentais permaneceriam próximos aos cantores no palco, ou mesmo em uma sacada ou, ainda, nos bastidores das primitivas casas de espetáculos.
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4) Obra musical dramática em que alguns ou todos os papéis são cantados pelos atores. Trata-se de uma união de música, drama e espetáculo com a música, normalmente desempenhando a principal função (SADIE, 1980, p. 459). É importante dizer que, embora as primeiras peças do gênero ao qual hoje damos o nome de “ópera” datem apenas dos últimos anos no século XVI, a ligação entre música e teatro foi bastante usual desde a Antiguidade. São os casos de algumas partes musicadas nas tragédias e comédias gregas ou nos dramas litúrgicos medievais (GROUT; PALISCA, 2001, p. 316). Em relação às obras dramáticas cantadas no final do século XVI e início dos anos Seiscentos, inspiradas no modelo da Grécia Antiga, Roland de Candé prefere utilizar a palavra “melodrama”. Para esse autor, a palavra “ópera” evoca, de uma forma bem particular, o teatro lírico – gênero mais musical do que dramático – que se caracteriza pela sucessão de recitativos, árias e coros (CANDÉ, 2001, p. 424).
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Como exemplo desse último caso podemos citar a estreia da obra Euridice, composta pelos italianos Jacopo Peri (1561-1633) e Giulio Caccini (1551-1618), por ocasião das comemorações oficiais do matrimônio entre Henrique IV da França e Maria de Médici, em Florença, no mês de outubro de 1600. Para a apresentação desse melodrama5, – o primeiro que chegou inteiro até nós – os quatro músicos responsáveis pelo acompanhamento musical (cravo, lira, alaúde e teorba) ficaram escondidos atrás das cortinas (DIAS; JANK, 2016, p.159).
Em algum momento, durante as primeiras décadas do século XVII, os produtores de óperas optaram por colocar o conjunto instrumental no proscênio, ou seja, entre o palco e a plateia. Como consequência disso, ainda no decorrer dos anos Seiscentos, o proscênio passou a ser chamado também de “orquestra”, um neologismo adotado, posteriormente, por outras línguas europeias (fr. orchestre; al. orchester; ing. orchestra). É pertinente destacar que a historiografia musical não foi capaz, até o momento, de oferecer dados mais precisos acerca da cronologia referente ao processo histórico acima mencionado. Da mesma forma, devido ainda à falta de comprovações, não é possível determinar quando, exatamente, o termo “orquestra” passou a designar um corpo de instrumentistas.
Nesta trilha, Tim Carter e Erik Levi, autores do Capítulo intitulado The history of the orchestra, parte integrante do livro The Cambridge Companion to the Orchestra, editado por Colin Lawson especulam que a utilização do termo “orquestra” no sentido de um conjunto musical e não como o espaço onde os instrumentistas tocavam já era comum na década de 1670, tanto na França quanto na Itália (CARTER; LEVI, 2005, p. 05).
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5) O termo “melodrama” é muitas vezes utilizado como sinônimo de “ópera”. Sua origem remonta à Grécia Antiga, quando os espetáculos teatrais apresentavam linhas declamadas acompanhadas ou intercaladas por música (SADIE, 1980, p. 593). Roland de Candé utiliza a palavra para designar, no sentido mais lato, as obras dramáticas cantadas e cita a peça Dafne (1594), musicada por Jacopo Peri (1561-1633), como sendo, provavelmente, o primeiro exemplar de melodrama inteiramente cantado. Esse novo gênero de espetáculo característico do final da Renascença surgiu a partir das experiências musicais realizadas sob a influência dos intelectuais humanistas florentinos. Porém, na opinião desse autor, tanto esse novo gênero quanto os primeiros masques ingleses ou os intermédios florentinos, bem como qualquer outro tipo de espetáculo renascentista que junta música e teatro, não podem ser considerados óperas primitivas (CANDÉ, 2001, pp. 424-426).
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Porém, os musicólogos John Spitzer e Neal Zaslaw, após analisarem uma significativa quantidade de fontes documentais visando à elaboração da obra The birth of the orchestra: history of an institution, 1650-1815, atestam que somente encontraram evidências de que a palavra orquestra havia assumido um novo sentido em arquivos datados do início do século XVIII. Entre esses arquivos encontra-se um memorando datado de 1702, no qual um violinista-compositor da Igreja de Santa Maggiore em Bergamo faz referência a despesas provenientes da compra de papel e feitura de cópia de sua música para “tutti li virtuosi della Sacra Orchestra”. Na interpretação desses pesquisadores, a palavra orchestra assume aí o seu novo sentido, ou seja, o de um conjunto instrumental considerado como uma unidade única, distinto dos "virtuosi", quer dizer, dos instrumentistas individuais (SPITZER; ZASLAW, 2004, pp. 16-17).
Vale esclarecer, ainda, que até a difusão da palavra “orquestra” pela Europa, esses pequenos grupos musicais receberam diversos outros nomes, tais como: consort ou band em inglês; concerto ou gli stromenti em italiano; kapelle ou symphonie em Alemão; e les concertants, les instruments em francês.
Mas, quando surgiu um tipo de orquestra com a configuração instrumental próxima daquela que conhecemos atualmente? Será exatamente este o assunto do próximo texto.
Leia na sequência:
CANDÉ, Roland De. História universal da música. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
CARTER, Tim; LEVI, Erik. The history of the orchestra. In: LAWSON, Colin (Ed.). The Cambridge Companion to the Orchestra. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2005. p. 313.
DIAS, Gustavo Angelo; JANK, Helena. A formulação da Favola in musica de Jacopo Peri: uma tradução e estudo do prefácio de Euridice (1600). Revista Música Hodie, Goiânia, p. 149–164, 2016.
DOURADO, Henrique Autran. Dobrar. In: Dicionário de termos e expressões da música. São Paulo: Editora 34, 2008.
GROUT, Donald J.; PALISCA, Claude V. História da música ocidental. 2. ed. Lisboa: Gradiva, 2001.
KOBBÉ, Gustave. Kobbé: o livro completo da ópera. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.
LAWSON, Colin. The Cambridge companion to the orchestra. [s.l: s.n.].
MARTINELLI, Leonardo. Superorquestras. Revista Concerto – Gramophone: guia mensal de música clássica, São Paulo, p. 26–28, 2013.
MEDAGLIA, Júlio. Música, Maestro!: do canto gregoriano ao sintetizador. São Paulo: Globo, 2008.
SADIE, Stanley. Orchestra. In: The New Grove Dictionary of Music and Musicians, v. 1-20. New York: Grove´s Dictionaries of music Inc., 1980.
SAMPAIO, Luiz Paulo. A orquestra sinfônica: sua história e seus instrumentos. Rio de Janeiro: GMT Editores, 2000.
SANTOS, Maria do Rosário Laureano. O Teatro Romano. In: CICLO DE CONFERÊNCIAS SOBRE OS TESTEMUNHOS ROMANOS EM PORTUGAL 2016, Lisboa. Anais… Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 2016.
SPITZER, John; ZASLAW, Neal. The birth of the orchestra: history of an institution, 1650-1815. New York: Oxford University Press Inc., 2004.
STANLEY, John. Música Clássica: os grandes compositores e as suas obra-primas. Lisboa: Editorial Estampa, 2006.