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O negro, os livros e o nosso preconceito

07.10.2012 - 17:06:24
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Zurique, Suíça – Monteiro Lobato um escritor racista? Nos últimos dias, voltei a me preocupar com o preconceito no Brasil ao ler sobre a proposta de se proibir Monteiro Lobato nas escolas. Depois de me refazer do primeiro choque, comecei a analisar a questão e pedir a opinião de algumas pessoas envolvidas no assunto. 

Racismo no Brasil é um fato. Mas seria Monteiro Lobato, orgulho nacional, pai de figuras inesquecíveis como tia Nastácia, Emíla, Visconde de Sabugosa, um racista? Leio até hoje seus livros para meus filhos já adolescentes. Recentemente, minha caçula esteve doente e me pediu para ler Reinações de Narizinho. Um momento mágico para nós duas.

Um amigo da faculdade, desde sempre engajado no Movimento Negro, com quem, há mais de 20 anos, discutia sobre cultura afro-brasileira, Renato man Agba, explicou-me sua posição. “Pensar o negro numa condição de submissão e dependência era a regra do jogo naquela época. Aquele negócio da Tia Anastácia preparando delícias na cozinha para uma família branca é bem o jogo da Casa Grande & Senzala. Como sempre, temos uma negra a servir, destituída de família própria que se torna uma agregada de uma família branca. Na minha casa, quando criança, também tinha uma pequena senzala, o tal quarto de empregada onde elas dormiam durante a semana. E minha mãe, que é mulata, tratava as empregadas como se fossem burras e incapazes de aprender um serviço.“
 
Sobre a situação hoje, não acredita em proibições. "A novidade é que, aos poucos, o Brasil vai tentando encarar este assunto. A paralisia e impotência que o racismo gera é muito grande. Até há pouco tempo, muitos nem reconheciam haver racismo no Brasil. Mais recentemente, nos permitimos dizer que havia sim, mas nenhum de nós era racista. E agora? Ao menos, estamos começando a perceber que mesmo pessoas queridas cometiam atos infames. De todo modo, posso dizer que recomendaria a meu filho ler Monteiro Lobato. E, ao contrário do que falam, não vi nenhuma tentativa de censura por parte dos militantes. Eles exigiram apenas que fosse colocado uma nota explicativa contextualizando alguns trechos. E como pai, é o que farei, quando meu filho for ler essa obra. Falar a ele, com as minhas palavras, a nota de rodapé que eu acredito ser necessária."
 
Conversei também com outro amigo jornalista e escritor, Arnaldo Bloch, que, desde que surgiu a polêmica, levantou trechos de cartas pessoais de Monteiro Lobato, revelando declarações racistas que vão muito além do nível costumeiro e aceitável, como por exemplo – “Mulatada, em suma. (…) País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Klux-Klan é país perdido para altos destinos. (…) Um dia se fará justiça ao Klux-Klan; (…) Tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca — mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.” (Carta a Arthur Neiva, Nova York, 1928).
 
Arnaldo relativisa. "O pessoal entende as coisas às vezes por um ângulo errado. Wagner era um antissemita, mas, mesmos sendo judeu, eu não deixo de enlouquecer com a beleza de Tristão e Isolda. E acho que o racismo de Monteiro está mais no seu trato pessoal, na sua correspondência e em textos para adultos do que na obra infantil. Dizer que Tia Nastácia é negra e beiçuda não é racismo, é uma descrição, sem nenhum adjetivo de demérito. Beiço grande não é um insulto, a não ser para quem acha feio.“

Concordo com os dois. A questão faz parte de um processo histórico e necessário de conscientização, pelo qual passamos, mas é preciso contextualizar. Também não se pode confundir a obra com a vida do autor. Elas se misturam, mas temos que manter o respeito pela obra. Monteiro Lobato era racista? Sim. Seus livros infantis? Não.

O trabalho criativo vai muito além da nossa mesquinharia diária, a obra deve ser considerada autônoma. Bertold Brech escreveu também comerciais para automóveis e Pestalozzi abandonou seus filhos. As obras de arte são uma válvula de escape para nossas incapacidades e imperfeições, nos acompanham, nos transformam, nos melhoram, mas possuem vida própria.

É preciso evitar uma euforia militante, que num sopro, na virada de esquina de um novo parágrafo, transforme-se em uma caça às bruxas. Não podemos recriar um MacCarthismo tropical ao avesso, com proibição de livros, listas negras, index e fogueiras. Arroubos moralistas de qualquer espécie não costumam dar bons resultados.

O Brasil é um país mestiço. Por definição e por princípio. E a história não é assim tão simples como parece, preto no branco. Apesar de ter nascido loira, branca e com olhos azuis, sou também descendente, por parte de pai e mãe, de negros. E disso me orgulho muito. Sempre fui curiosa e perguntei mais do que devia. Por isso, sei de histórias que muitos talvez  ignorem sobre suas famílias.

Um dos meus tataravôs era negro – não apenas mestiço, mas negro realmente – e grande proprietário de terras. Acredito, pelo que ouvi dizer, que em uma de suas inúmeras fazendas, era feita a venda de escravos. Apesar de não ter pesquisado adequadament, sei que não era o único. Existem outros casos parecidos, de negros que participaram da comercialização de escravos assim como do trato deles, como capatazes.

No Brasil, raras ou inexistentes são as famílias que não possuem sangue negro. O racismo não é exclusividade de brancos. Antigamente acreditava-se que era preciso ‘limpar’ a raça, ou seja, os próprios mestiços preferiam evitar o casamento com pessoas negras ou mulatas. Talvez por isso tenha nascido assim tão clarinha. Tenho também sangue de aventureiros alemães, fidalgos portugueses, protestantes holandeses e bandeirantes. Se continuar a perguntar, descubro ainda algum antepassado índio ou árabe.

A questão nunca é a raça em si, mas o preconceito e a intolerância. Também em outras culturas. O que dizer quando povos ou etnias oprimidas voltam-se contra grupos semelhantes ou, o que não é muito raro, contra si mesmos? Hoje, a posição de vítima é disputada em Hollywood e na política. Dá ibope ser vítima. Animosidades, fronteiras, guerras, conflitos, precisam ser nutridos.
 
Palestinos, árabes, muçulmanos consideram-se perseguidos e perseguem. Negros e judeus, vítimas históricas, sofrem preconceito assim como refletem preconceito. Grupos e sub-grupos religiosos lutam entre si, radicalmente, desvairadamente, fogem da morte matando. Sunitas, xiitas, alevitas são manipulados pela ganância da indústria de armas e da indústria automobilística em busca de petróleo. O preconceito nutre guerras, devastações, e poucos ganham muito em nome do poder. E a grande mídia repercute tudo com louvor e lucro.

O problema também não é ser de direita ou de esquerda. Na China, em nome do comunismo, milhares de pessoas foram semi-escravizadas durantes décadas em suas “unidades de trabalho”, vivendo anos sem contato com amigos, esposas e filhos. Crianças recém-nascidas foram mortas sistematicamente e abortos compulsórios feitos em massa. Tudo em nome do bem comum.

O problema não está na cor, na crença ou na ideologia, mas sim na intolerância, na falta de respeito pela diferença, na falta de delicadeza com os outros, com nós mesmos, nossos vizinhos, com a pessoa sentada ao lado. Tudo começa com o desconhecimento do que nos une, o comum de dois de todos os habitantes do planeta, o abrangente, o básico, e nossa condição de imperfeitos, caolhos, em um mundo quase perfeito.

Existe a violência, existe o preconceito e o racismo institucional ou pessoal. O institucional deve ser tratado politicamente. Por isso sou a favor das cotas, em todos os sentidos. É preciso uma correção estrutural em um país de passado colonial.

Porém, de nada adianta substituir o preconceito do negro, pelo do branco, a perseguição dos judeus, pela perseguição dos muçulmanos, do proletariado, pelo da burguesia, dos homossexuais, pela dos heterossexuais. Preconceito é preconceito. Não é time de futebol, não é paixão. É cegueira, é burrice, é ignorância. O que nos une é muito maior, vai ser sempre maior.

E vou continuar lendo Monteiro Lobato para os meus filhos.

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por Cejana Di Guimarães

*Jornalista formada pela UFRJ e pela Universidade de Fribourg, Suíça. Vive há 20 anos em Zurique.

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