Logo

O limbo regulatório da cannabis medicinal no Brasil

WhatsAppFacebookLinkedInX
03.10.2025 - 09:22:59
Na noite do último dia 30 de setembro, nos últimos minutos do prazo já estendido anteriormente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a União protocolaram novo pedido de prorrogação de 180 dias no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O objetivo é ganhar mais tempo para regulamentar o plantio de cânhamo industrial e de cannabis medicinal, conforme determinado no Incidente de Assunção de Competência (IAC 16).
 
O histórico revela um padrão de adiamentos que contrasta com a urgência social da matéria. Em novembro de 2024, a Primeira Seção do STJ reconheceu a possibilidade de autorização sanitária para o cultivo, com finalidade exclusivamente medicinal e farmacêutica, e fixou prazo inicial de seis meses para a edição das normas. Esse prazo foi prorrogado, e a expectativa era de que setembro de 2025 representasse um ponto de virada. Não foi o que ocorreu.
 
O argumento apresentado pelo Executivo e pela Anvisa apoia-se na complexidade técnica, na necessidade de participação social e em mudanças internas na gestão da Agência. O cronograma agora promete abertura de consulta pública até o fim de outubro, sistematização das contribuições até janeiro e edição da norma até março de 2026.
 
Ainda que se reconheça a relevância de uma regulação participativa e tecnicamente sólida, a realidade é que cada adiamento amplia a insegurança jurídica e agrava a desigualdade no acesso a tratamentos. Pacientes continuam reféns de decisões judiciais individuais, associações sobrevivem em um limbo legal e famílias seguem arcando com altos custos de importação de produtos que poderiam ser produzidos localmente sob controle sanitário rigoroso.
 
Em agosto de 2025, a Agência anunciou que levaria à votação uma proposta de alteração da Portaria SVS/MS nº 344/1998 para retirar a cannabis sativa L. com baixo teor de THC da Lista E de plantas proscritas, medida que alinharia o regramento nacional ao cenário científico atual. No entanto, a minuta foi retirada da pauta da Dicol na reunião de 13 de agosto de 2025, adiando novamente a decisão. Esse histórico de adiamentos revela um padrão de hesitação regulatória que prolonga a vigência de normas desatualizadas e posterga a criação de um ambiente jurídico mais adequado para pacientes, prescritores e empresas.
 
O marco regulatório de cannabis, RDC 327/19 também reclama revisão pela Anvisa. A Consulta Pública nº 1.316/2025, que trata da atualização da norma, encerrou-se em junho e ainda segue sem conclusão: a Anvisa consolida contribuições e não pautou a matéria para deliberação da Diretoria Colegiada. É preciso lembrar que a própria norma previa sua revisão em até três anos — prazo que se esgotou em 2022. Ou seja, estamos com pelo menos três anos de atraso. O setor de farmácias de manipulação segue há seis anos proibido de atuar com cannabis, tema que responde por forte judicialização. 
 
Esse compasso de espera expõe pacientes, médicos e empresas a um vácuo regulatório que compromete previsibilidade, segurança jurídica e até o acesso a terapias. A morosidade da Agência contrasta com a velocidade de expansão do mercado e com a urgência dos que dependem de produtos à base de cannabis para tratamento.
 
A demora não atinge apenas quem precisa da cannabis medicinal como recurso terapêutico, mas também impede o país de estruturar uma cadeia produtiva regulada, transparente e segura. O Brasil perde tempo enquanto outras nações avançam em políticas públicas que conciliam ciência, regulação e desenvolvimento econômico.
 
Ao insistirem em mais uma prorrogação, a União e a Anvisa transmitem a mensagem de que o direito à saúde pode esperar, quando o tribunal já foi claro em sua decisão. O atraso prolonga um cenário de incerteza e posterga a construção de uma política pública consistente. A postergação administrativa, neste caso, não é apenas burocrática: ela tem consequências concretas sobre vidas e direitos fundamentais.
 
*Claudia de Lucca Mano é advogada e consultora empresarial atuando desde 1999 na área de vigilância sanitária e assuntos
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Claudia Lucca Mano

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Ricardo Menegatto
15.09.2026
Novas regras mudam a relação entre consumidor e plataformas de ingressos

Comprar ingresso para um show, festival ou espetáculo deixou há algum tempo de ser uma operação simples. Filas virtuais pouco transparentes, preços que mudam em questão de minutos, taxas reveladas apenas na etapa final da compra e ingressos rapidamente esgotados por sistemas automatizados transformaram a aquisição de uma entrada em uma experiência muitas vezes frustrante […]

Fernando Schüler
13.09.2026
O dia ‘D’ da democracia brasileira

Fernando Schüler São Paulo – “Apagar dados do celular indica consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados”, escreveu o ministro Alexandre de Moraes, em um dos argumentos para condenar a cabeleireira Débora dos Santos a 14 anos de prisão. E explicou: “se o indivíduo tivesse convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que […]

Tia Dag
12.09.2026
A escolha de um jovem começa muito antes do vestibular

Para falar sobre o futuro de um jovem, é necessário falar também sobre as oportunidades que ele encontrou ao longo do caminho. Nenhuma escolha começa apenas no momento da inscrição em uma faculdade. Ela é construída desde os primeiros anos de escola, a partir da qualidade do ensino, do acesso à cultura, das referências profissionais, […]

Ketllyn Fernandes
10.09.2026
Comunicar é uma arte

Setembro costuma ser um mês de muitas campanhas, estatísticas e alertas sobre saúde mental. Por isso, senti de abordar o tema por outro caminho: a partir da arte. Recentemente, a artista japonesa Yayoi Kusama, um dos maiores nomes da arte contemporânea, nos deixou aos 97 anos. Durante décadas, ela falou abertamente sobre seu sofrimento psíquico […]

Ives Gandra da Silva Martins
09.09.2026
Mandato de 12 anos para os ministros do STF

A OAB de São Paulo, o Instituto dos Advogados de São Paulo e a Associação dos Advogados — três entidades representativas da advocacia paulista — têm apontado que a perda de credibilidade do Supremo Tribunal Federal decorre do fato de a Corte ter deixado de ser apenas um legislador negativo e um tribunal imparcial para […]

José Maria Franco de Godoi Neto
09.09.2026
O custo invisível das decisões empresariais

Toda decisão empresarial envolve risco. A abertura de uma nova unidade, a aquisição de outra empresa, o lançamento de um produto ou a entrada em um novo mercado exigem projeções financeiras, análises de viabilidade e estudos de mercado. No entanto, ainda é comum que um componente decisivo fique em segundo plano: o risco jurídico. Essa […]

Juliano Fagundes
09.09.2026
Inteligência Artificial analisa “A Sublime Maria de Nazaré” e identifica fundamentos históricos e profundo simbolismo na obra de Mércia Aguiar

A obra “A Sublime Maria de Nazaré”, recebida mediunicamente por Mércia Aguiar, vem despertando atenção não apenas por sua dimensão espiritual, mas também pela riqueza de elementos históricos, culturais e simbólicos presentes em sua narrativa. Com o objetivo de investigar até que ponto os acontecimentos, costumes e ambientes descritos no livro encontram correspondência com o […]

José Expedito da Silva
07.09.2026
Eleição: a festa da cidadania

Será necessária muita sabedoria para que a eleição seja, de fato, a festa da cidadania — um momento livre de hostilidades e polarizações ideológicas. Dessa forma, todos os convidados, que são os eleitores e as eleitoras, não sairão decepcionados. A Igreja Católica não apresenta nem indica candidatos e partidos políticos. Sua verdadeira missão é colaborar […]