Recentemente colegas e amigos têm pedido que explique o que o tal do StoryTelling — uma moda dos últimos anos no Brasil, e algo algo com o qual trabalho desde 2007. Pensei muito se escreveria sobre a minha formação com Peseschkian, o autor do clássico “O Mercador e O Papagaio”, a minha participação ativa com o mundo TED/TEDx, ou se falaria que notei na escola como culturas distintas contam de forma diferente as mesmas histórias.
A verdade é que você, leitor, e eu já notamos o sucesso de novelas e séries, e já ouvimos ou nos envolvemos com uma fofoca. As tais fake news inclusive provam isso. Lembra no começo da internet que tínhamos que encaminhar email a dez pessoas senão tragédia assolaria, ou FHC estava vendendo a Amazônia, ou alguma celebridade doaria um centavo a cada vez que uma foto fosse compartilhada? Provas como o cérebro é programado a acreditar em Histórias!
E saber como elas operam permite que um líder alcance suas metas; seja a mãe que conta a história de Chapéuzinho na Idade Média europeia para ensinar a filha a não falar com desconhecidos, um líder de clã à volta da fogueira falando da origem da humanidade, ou um empreendedor fazendo um pitch para convencer investidores.
A vida de todas as pessoas é sempre significativa (mesmo que não saibamos). A questão é que não vemos a beleza dessa história, porque não a sabemos contar! Por isso, a pergunta que deve ser feita é, na verdade:
O que faz uma história significativa?
Quando aceitamos que uma história tem um final, que uma vida tem um final, temos dois caminhos a seguir: perder a esperança e cair no vácuo, ou aproveitar esse espaço vazio para voar. Como preencher a vida, para além do que queremos, em direção ao compromisso que temos com ela? Veja os heróis da Marvel (péssimo exemplo, não é?): o que os faz especial? Sacrificam suas vidas não pelo que querem, mas pelo que devem realizar no mundo. Então, a primeira coisa, é definir o protagonista (você, seu líder, o herói do conto, a empresa que você lidera,…) e fazê-lo ocupar sua finitude com o que realmente importa.
E esses personagens são imbuídos de emoções. E, como qualquer pessoa, sem exageros! Se a sua história é de lamentação constante, sua equipe ficará desmotivada; como no caso da novela onde o protagonista só se lamuria e a audiência despenca. “Divertidamente” é o melhor exemplo para isso: quando percebemos que não basta ser e fazer, é necessário também sentir, e sentir de maneira coerente. E observando o outro que vive a história passar por emoções e crises, eu me distancio das minhas emoções e crises para, a partir daí, ver soluções para os problemas. Por isso parábolas sobre Jesus ou Buda inspiram tantas gerações milénios após seu falecimento.
Histórias nos inspiram a mudar, a superar crises, a enfrentar desafios, contornando nossas resistências pessoais — sem percebermos que estamos fazendo isso. É por isso que elas têm o poder que têm.
Só que não é tão simples. Você precisa saber contar a história. Os elementos narrativos precisam estar bem organizados. Primeiro orientando o leitor ao aqui-e-agora, trazê-lo para perto, convidá-lo a estar conosco ao longo da história, com elementos agradáveis aos seus olhos. É aqui que o “emparelhamento neural” ocorre, como se as mentes de quem conta e quem recebe a história se unissem. Por isso, quando há uma complicação (um confronto ou um conflito que rompem o sistema “normal”) nos incomodamos; o segundo ato é aquele que dói em nós. E torcemos pelo protagonista que, no terceiro ato, começa a olhar para o problema com novos olhos e descobre a resolução. Na resolução a história não regressa ao que ela era, mas ao que ela deveria ser, desde o começo, alcançando o seu pleno potencial. Por isso, uma boa história — seja um bom discurso, uma boa reunião ou um bom filme — precisa saber encerrar no momento mais alto, mais transcendente.
Então, se as histórias promovem autodistanciamento e despertam autotranscendência por seu conteúdo e sua forma, elas também oferecem uma mudança ética em nós, aprendendo a viver e apreciar realidades semelhantes e diferentes das nossas. Histórias conduzem, portanto a tolerância e, com sorte, a aceitação. Seja tolerando nossos limites, medos, erros, fracassos e aceitar quem somos apesar deles; seja tolerando o outro que nos é diferente, com seus gostos e desgostos, e aceitá-lo eventualmente.
O maior presente que o StoryTelling nos oferece, como ciência que explica o poder da arte de contar histórias, é vencer o maio desafio da humanidade: aceitarmos a história do outro, mas antes, sendo curiosos pela história do outro, sem conclusões precipitadas com base em opiniões pré-concebidas. Afinal, uma vida significativa é uma na qual contamos e vivemos as nossas histórias, percebendo que — tanto histórias como vidas — são apenas belas porque são únicas e irrepetíveis e podem conectar mundos.
*Sam Cyrous (@sam.cyrous) é psicólogo (CRP09/8178) e Doutor em Psicologia, Pesquisador sobre o poder psicológico das histórias

O artigo destaca o poder das histórias na construção de sentidos, na aprendizagem e nas relações humanas, e ainda mostra que contar histórias vai muito além de uma técnica de comunicação: é uma forma de despertar emoções, provocar reflexão, superar desafios e compreender diferentes perspectivas.Cada pessoa possui uma história única e significativa, e que conhecer e ouvir a história do outro pode favorecer a empatia, a tolerância e a aceitação das diferenças. Por isso o Storytelling pode ser uma ferramenta no ambiente escolar, pois permite trabalhar valores, emoções, protagonismo e convivência de maneira mais significativa. Enfim,o artigo nos ajuda a compreender que contar histórias é uma forma de conectar pessoas, transformar experiências e dar significado à própria vida. Amei!!!!