Ana Carla Abrão
Há mais de dois mil anos, Aristóteles escreveu que nenhuma comunidade política se sustenta apenas sobre leis e instituições. Para que uma cidade exista de fato, dizia ele, é preciso haver entre seus cidadãos alguma forma de amizade. Não a amizade que nasce do afeto, da intimidade ou da afinidade. Mas aquilo que ele chamou de amizade cívica: o reconhecimento de que, apesar das diferenças, há algo que compartilhamos e pelo qual somos conjuntamente responsáveis.
A amizade aristotélica parte do princípio de que o principal amálgama de uma comunidade é o sentido de pertencimento, a disposição para reconhecer no outro alguém com quem se compartilha um destino. Não alguém que pensa como eu, mas alguém que, pensando diferente, continua fazendo parte do mesmo “nós”.
Aristóteles nunca imaginou uma sociedade sem conflito. Ao contrário. A política existe justamente porque somos diferentes. A amizade cívica não pressupõe consenso, muito menos bem querer. Ela exige algo que é, a um só tempo, simples e difícil: que reconheçamos naquele de quem discordamos um concidadão. Alguém com quem compartilhamos não necessariamente as mesmas ideias, mas o mesmo país. E, sobretudo o futuro, o dia seguinte.
Hoje vivemos tempos em que já não discordamos apenas sobre impostos, segurança, educação ou o tamanho do Estado. Passamos a enxergar quem pensa diferente como alguém moralmente diferente de nós. E, quando isso acontece, o sentimento deixa de ser de troca e passa a ser de incômodo. A política deixou de ser apenas o espaço da divergência para se tornar, cada vez mais, um marcador de identidade.
Passamos meses discutindo (anti)candidatos, escândalos de corrupção, brigas familiares e alianças — algumas forjadas na imoralidade. Escolhemos lados e não ideias. Perplexos, chegamos a esse domingo de primeiro turno decididos sobre o que não fazer, em quem não votar.
Na desilusão, talvez estejamos prestando atenção demais ao domingo e de menos à segunda-feira. Afinal, encerrada ou não a disputa eleitoral, no dia seguinte continuaremos aqui. Com os mesmos problemas e as mesmas pessoas com quem dividimos o país. Algumas terão votado como nós. Muitas, não. É aí que a amizade cívica deixa de ser uma ideia abstrata e se torna uma exigência da democracia.
Quem vence uma eleição não adquire a propriedade daquilo que é comum. E quem perde não deixa de fazer parte dele. Maiorias são circunstanciais. Governos passam. O país permanece — e continua pertencendo tanto àqueles que venceram quanto àqueles que perderam.
Isso não exige moderação política, abandono de convicções ou ausência de conflito. Uma democracia saudável precisa de debate, oposição e indignação. Precisa de cidadãos dispostos a defender com firmeza aquilo em que acreditam.
O que ela não pode dispensar é a disposição de aplicar aos nossos os mesmos padrões que aplicamos aos outros; de defender instituições também quando suas decisões nos desagradam; de não desejar o fracasso do país apenas para provar que estávamos certos.
Há, no pensamento de Aristóteles, uma palavra que leva essa ideia um pouco adiante: homonoia, geralmente traduzida como concórdia. Concórdia, para ele, não significava pensar igual. Significava conseguir querer algumas coisas juntos. Talvez essa seja a pergunta mais importante agora, antes de uma anti-escolha: o que ainda somos capazes de querer juntos?
Não precisamos querer o mesmo governo, o mesmo presidente ou as mesmas políticas. Mas precisamos querer instituições que funcionem, integridade no uso do dinheiro público, liberdade também para quem pensa diferente e regras que valham para todos — inclusive quando nos desagradam.
Antes de sermos eleitores de candidatos diferentes, somos coproprietários de uma mesma construção coletiva. O dinheiro público é nosso. As regras são nossas. A liberdade é nossa. As instituições também são nossas. E quando elas falham, como acontece agora, a responsabilidade de reconstrução também é nossa.
No domingo, milhões de brasileiros entrarão sozinhos na cabine eleitoral. Ali, por alguns instantes, não haverá conciliação possível. Cada um estará diante de suas convicções, de suas escolhas e de sua consciência. Mas todos sairemos da cabine. Em algum momento, os votos estarão contados, os palanques serão desmontados, e a eleição acabará.
O país, não. Na segunda-feira, o país continua sendo de todos nós.
* Ana Carla Abrão é uma economista, executiva e articulista brasileira
