Logo

O estopim do amor

11.06.2017 - 14:01:36
WhatsAppFacebookLinkedInX

Pensou então que o silêncio pudesse conter uma palavra que… que… explodisse. Com o dizer daquilo que apertava na garganta. Se seria justo ou injusto, se as pessoas entenderiam, se isso ou aquilo-outro — importava?

É que tinha conhecido o Amor. E, dessa vez, deusdocéu!, preferia que fosse diferente de como já tinham contado vida afora — o amor longe-longe, retratado, representando-se. Ou daquele jeito como se café-com- pão, café-com- pão, todo dia, perto-perto, cheio de agendas, frases feitinhas, encontros de família, só assim, também desejava nem-não.

O ideal seria encontrar uma forma nem longe nem perto demais. Jeito outro, não-ia-querer-mesmo. Porque-não- ia. Mas de repente, pum!, chegava sem avisar o Amor. E foi que: quis.
 
Maior esquisitice do mundo, cruzcredo! E coisa para médico nenhum explicar. Amava.

De primeiro percebeu que amava mais em dias específicos da semana, quando dava, claro, mas quase nunca de um dia para o outro. Era abrir os olhos de manhãzinha, querendo estar-se de abraços-com, para encontrar em lugar disso o travesseiro só seu, ali, ao léu das intenções. Quando-assim, procurava forma de não ficar com sensação negativa. E calculava-se: estava sabendo amar? Parecia tão longe ainda — o Amor…
 
Depois: os dias redemoinhavam, amava com intensidade, vontadeava mais, amar de bem-mais perto, abraçando-se, em ternuras, intimidades, e também com listas de compra, trabalhos por fazer, o que se põe à mesa em rotinas, sendo de silêncio, de barulho; tempo cozinhando, tempo remexido. Sim, aqueles momentos de caçar a fumaça dos vazios. A mochila de carregar as coisas de lado a outro, para lugar nenhum. Ia tudo indo, a vida, e as coisas, de tão perto, foram caindo na distração típica da vida que se vive sem pulsar.

Cansava-se de acreditar que era a pessoa mais importante do mundo, que isso, que aquilo. Mas assim, no concreto, pensava: E se isso for só fala, fala, falação de Amor? Sentia alegria, coração pululando, querença de estar-com, compartilhar, sonhar; às vezes também ressentia, duvidava, sentia saudade, um apertume, estranhezas, quando é que… aquela angústia nunca acabaria? Por fim, ficava de esperança, esperando.
 
Amava. Do que mais se precisaria, afinal?

De receber, um dia finalmente pensorresolutou. Porque Amor que é Amor tem que ser sem conter-se. Okay, Amor até existia, mas ainda estava de longe, era isso? Ah… bastasse, então, que… que… ligasse as matemáticas, não, não; as matemáticas, não; as geográficas fábricas de transver. Para pertoamar. Nossa, diziam tantas coisas, perturbando-se, confundindo-se, gente aconselhando, anúncios conduzindo, qual danação!
 
E foi que: decidiu fazer anúncios próprios ao Amor. Que juntassem as coisas, como sugeriam, os pratos, colheres, triunfos, quadros, papéis, canetas de imaginar, anoiteceres em penumbra de estupor ou esplendor, tudo o menos, tudo o mais, até as judiarias… Porque era para dividir até os resvalos, as impertinências, não era? Os lapsos, desfeitos, os muitos aconchegos e atrasos. Pois se era para ser assim… Mas tem-que- então que: a vida segue.

Passavam as horas. Monumentos, dias, meses, tempo-tempo. Tão logo, ali: que o silêncio contivesse palavras que explodissem. E assim teria pelo menos dito que não acreditava mais nas ladainhas contadas, nos dias que já eram de… de… Ah, mais de amizade que qualquer outra coisa. Não estava certo aquilo, estava? Não, daquele jeito não queria Amor, não. Concluía. Tinham (re)aconselhado, em contrapartida, que bobagem, que só podia isso ser besteirice, que pensasse melhor, no Amor. E enfins…
 
Ocorria então que o Amor, fim das contas, inexistia? Ou tinha só relampeado faíscas de proximidade, voltando para longe? Aquelas mesmas conversas de fila de supermercado, no trabalho, telas e outdoors, nos silêncios das matérias de jornal, ou no ruidoso das páginas dos livros. Só cenas. Era isso? Amor só fazia existência sem pertoamar?
 
Uma coisa, entretanto, era de se pressentir: abrisse a porta para que saísse, com ou sem motivo, custoso que o Amor quisesse voltar logo. Talvez nunca mais. E então, às dez e trinta e três da noite, ainda estava ali, querendo prosa, que não tinha sido nada daquilo. Explicando-se. Em querença de pertencimentos.

Que coisa… tão assim, de entra-e- sai, o Amor, né?, altopensava…
 
Pois de coerências a incoerências, com ou sem chão de miragens: que se danassem os conselhos, as (im)pertinências, os anúncios. Bom mesmo era quando ficava o Amor…
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

Postagens Relacionadas
Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]

Noite e Dia
20.02.2026
Exposição de Maria Clara Curti abre temporada 2026 da Vila Cultural Cora Coralina; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu o calendário de exposições 2026 nesta quinta-feira (19/2), com a exposição “Aquilo que fica e outros fantasmas”, primeira individual de Maria Clara Curti. A produção multifacetada desdobra temas como o luto e a simbolização da perda, as impressões da memória no corpo, tensões intersubjetivas […]

Noite e Dia
18.02.2026
Goiânia recebe 42ª edição do Congresso Espírita de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Nem só de folia foi feito o Carnaval deste ano. A Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) realizou entre sábado (14) e segunda-feira (16), o 42º Congresso Espírita de Goiás. O evento foi realizado no Teatro Rio Vermelho (Centro de Convenções) e com o tema “Jesus e Kardec para os […]

Projetor
17.02.2026
Uma Cartografia de Influências

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões. Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de […]

Noite e Dia
16.02.2026
Goianienses aproveitam sábado de carnaval com muito samba; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os goianienses aproveitaram o sábado de carnaval (14/2) no Centro da cidade. Com programação especial, o Quintal do Jajá recebeu os foliões com apresentação do DJ Ferrá, Ricardo Coutinho e Gabriela Assunção. A festa continua nesta segunda-feira (16), com show de Grace Venturini e Banda, às 18h. Na terça-feira (17), com […]