O cãozinho come flores. Ele come. Como mastiga qualquer coisa qualquer cão pequeno. Filhotes precisam experimentar o gosto do mundo, para aprender a afastar-se de seus venenos.
Ao vê-lo ali no canteiro da larga avenida de Curitiba, por mais poética que fosse a cena, Aline teve pena. Supôs que tivesse fome. Ela sempre se penaliza dos bichos em abandono.
Ela e o namorido Paulo, em gestos de sensibilidade e insensatez – o mar para eles não andava para peixes, talvez para cachorros-quentes e espetinhos de gato –, viviam recolhendo bichos feridos e por aí largados.
Havia muitos gatos abandonados por ali, no espaço comum do condomínio. Pois eles lhes davam comida, compravam remédio. Acolhiam as gatas grávidas para que parissem na área de serviço, mas deixavam a janela aberta para não tolher a liberdade felina.
Quanto não foi o que gastaram tentando salvá-los da vida e da morte aventurosa de gatos vadios. Paulo e Aline levantando-se de madrugada para ir ao veterinário, tentando salvar Monalisa, a gata enigmática que em seus mistérios se foi. O trabalho que tiveram para achar dono para cada um dos filhotes dos quais cuidavam, antes da mudança para Curitiba. O suposto dono é um morador de rua, aparentemente bêbado. Diz que o cãozinho que mastiga pétalas roxas é do amigo. O curioso senhor discursa que eles não têm condições de cuidar do bicho.
Aline chega a ligar para a sociedade protetora dos animais, sempre ao telefone com Paulo – ele acompanhando-a no drama de tentar salvar os animais das garras humanas. A sociedade diz nada poder fazer, no entanto.
Não podemos confiscar simplesmente bichos aos seus donos, como não podemos tomar aos pais negligentes os seus filhos, ainda que os tratem sem carinho. Aline aceita seguir, em prantos. Mas leva flores consigo. Flores que nem o Cão nem o tempo comem: flores de São Francisco.