Tem uma velha canção de um velho Tom Jobim que diz assim: “é impossível ser feliz sozinho”. Pois digo sem cantar e sem estar sorrindo que ninguém quer ser infeliz sozinho. É que a felicidade parece ser um bem tão pouco, tão escasso, que não dá para todos, como se cabendo a um estivesse sendo roubado aos outros. Basta ver o que o mundo faz com os que ousam cantar a rara felicidade. E não é apenas da alegria, da euforia, da fanfarrice que falo – do sucesso estampado nas páginas de revistas sobre celebridades, diante das quais os leitores babam, torcendo nada secretamente pelo infortúnio e desgraça de seus protagonistas. Falo também daquela felicidade discreta e serena que mais se aproxima da tranquilidade, daqueles que têm a alma mansa, que desfrutam de alguns poucos mas preciosos momentos de paz consigo, gozam de algum tempo livre, encontram o difícil amor-amigo. Deve ter algo de errado com esse fingido.
Tem também uma canção de Zeca Baleiro, citando o também velho Odair, que diz isso:
Logo vem um infeliz
Se fingindo de amigo
Querendo apagar o meu sorriso
Que é o mais próximo do paraíso que eu consigo”
E assim segue contraditória a humanidade: aspira tanto à riqueza, à beleza, à felicidade, mas quando alguém alcança uma nesga, não é pequena a torcida para que se escafeda. Alguns chamam esse sentimento de inveja. Não é a ventura do outro que quero. Não sou desejoso de ser tão venturoso quanto ele, torço antes para que sua ventura se esfacele, para que estejamos juntos no mesmo barco de antes, desventurados navegantes.
No fundo do meu poço, no porão de mim descascando as minhas batatas quentes, quero mais é que o Titanic naufrague, já que não posso ficar com o Leonardo DiCaprio. É como se o bote fosse pequeno demais para que todos juntos se salvassem. Assim, amigas antes tão fiéis na solteirice, afastam-se quando uma delas passa a viver um caso de amor bem sucedido. Quem pensa que é aquela metida? Amigos de farra que deixam de ser tão unha e carne quando um deles, enrabichado, não passa mais as noites no rabo da cachaça. Enforcou-se o coitado.
Na vizinhança onde todos são pobres de marré deci, um consegue amealhar uns trocados, reforma a casa, põe carro novo na garagem e ali está boa parte da vizinhança levantando dúvidas sobre a honestidade daquela melhora de vida, agourando para que a chuva derrube o puxadinho. No ambiente profissional de opressão e exploração, onde todos permanecem acorrentados, aquele que recebe uma promoção, que ascende a um posto superior, desfrutando de cadeira com espaldar mais alto e o direito de chegar mais tarde, é logo parabenizado, mas também é rapidamente convertido no alvo de fofocas e vítima de trapaças.
Categorias profissionais que lutaram e que duramente conquistaram direitos, como remunerações maiores, jornadas mais leves, são não raro tachadas de preguiçosas e parasitas. Não se encaram seus direitos como conquistas que deveriam ser estendidas a todas as categorias, mas como privilégios e mordomias. Deve ser mal do animal humano, segundo Luis Fernando Veríssimo, “o único animal que ri dos outros”, mas deve ser um mal maior num país como o Brasil, onde as oportunidades são tão desiguais, onde os salários são tão baixos, onde não há vagas para todos.
Aqui ser explorado parece que é bonito. Ser espremido até o bagaço reveste-se de elegante discurso: é a tal da otimização do processo produtivo, produzir mais com um número cada vez menor de recursos materiais e humanos e, portanto, menos humanidade. Fala-se de boca cheia que é no ambiente de trabalho que passam as pessoas a maior parte de suas vidas e de seu dia. Como se isso fosse, não algo a ser lastimado, mas uma grande vantagem. Que maravilha há em trabalhar 10 horas por dia, chegar em casa esfalfado, só desejando a distração narcotizante da televisão, sem ânimo para o diálogo com a família e os amigos, sem disposição para um entretenimento criativo?
Se não há realmente para todos um lugar ao sol, ele pelo menos nasce para todos, todos os dias. Lembremos disso, quando estivermos corroídos pela ventura de que não desfrutamos, quando a galinha da vizinha parecer mais apetitosa, quando estivermos tentados a disseminar por aí nossa infelicidade e infortúnio. Sempre podemos substituir a inveja pelo sentimento que Aristóteles chamava de emulação. Ao contrário da inveja que equivale ao desejo de ver o outro despojado do que conquistou, a emulação consiste em inspirar-se nele como em um modelo, em esforçar-se para imitá-lo sem que, com isso, ele seja de seus bens e belezas destituído.