As palavras mudam; gastam-se; tornam-se pesadas, leves; flutuam; esvaziam-se. Mas ao empregá-las, somos muitas vezes desatentos e desmemoriados. Não nos recordamos das transformações por que passaram por séculos, dos sentidos que ganharam e perderam ao longo de nossas próprias vidas.
Lidar no cotidiano com as palavras me fez desejar usá-las escrupulosamente. Me fez desejar ou me obrigou a isso, visto que palavras, embora prazer, são sempre um tipo de pedra no sapato, um incômodo, uma dor, um calo. Quem por profissão ou amor lida com elas vive nesse tal embate. Será que essa é a palavra exata? Não estarei sendo ludibriada por ela? Por acaso ela não guarda um sentido oculto que me escapa? E o sentido que lhe atribuo será o mesmo ou outro que leitores lhe irão atribuir?
Creio que no amor como no ofício da escrita esse embate se agrava. Daí essa espécie de incômodo com que me defronto. Quando se apaixonam, as pessoas usam as palavras com maior prodigalidade, de forma até inconsequente. Declaram-se e para isso recorrem aos recursos limitados da língua, às mesmas palavras de sempre ou ao menos de sua época, ao “te amo”, às expressões que já se cristalizaram em clichês da linguagem amorosa.
É claro que há sempre os lacônicos, os austeros, os parcimoniosos, os que não se declaram nunca ou quase nunca, que desconfiam da verbalização e preferem expressar o amor em atitudes, em práticas. Mas digamos que a maioria se esbalda e usa esse léxico amoroso sem grandes cuidados, pouco ciente de que as palavras de tanto usadas podem estar desgastadas pelo uso e sobretudo que, para os que as ouvem, leem, recebem, podem ter um sentido completamente diverso daquele sentido, se sentido, para quem as emite. Podem trazer uma conotação diferente, escorada na experiência, nas boas vivências, nos traumas de quem diz e quem escuta. Podem ter peso ou permanecer na superfície. Podem ser nada além de ruído.
Nunca gostei de dizer “eu te amo” e sempre desconfiei ao ouvi-lo. E por mais que eu o tenha dito, em rompantes de desejo ou inconsequência, atendendo a pedidos de reciprocidade ou juramento, creio que essa expressão não traduziu nunca a singularidade do sentimento que essa ou aquela pessoa me despertou.
Creio que minhas melhores, mais profundas e verdadeiras declarações de amor não se constituíram propriamente em declarações, mas antes num repertório íntimo usado ao longo do relacionamento: aqueles apelidos carinhosos, bizarros e muitas vezes ridículos que um enamorado impõe ao outro, aqueles vocábulos característicos que se repetem nas conversas ou que se constituem em um tipo de marco poético ou prosaico do encontro e do convívio. As letras de músicas, os versos preferidos, os títulos e trechos de livros ou filmes.
Posso dizer, sem medo de estar enganada, que tive meu dicionário singular compartilhado com cada um daqueles que amei. Por isso, não deixo de me sentir assombrada quando vejo a banalidade com que as palavras são empregadas e não me refiro apenas à linguagem amorosa padrão: “sou apaixonada (o) por você”, “você é o homem ou a mulher da minha vida”. Refiro-me ao limitado repertório musical e literário de que as pessoas se apropriam e constroem quando se relacionam.
Outro dia mesmo, vi que a canção que eu considerara o marco de uma história entre um rapaz e uma moça passara a ser a canção-tema da história seguinte entre esse mesmo rapaz e outra moça. Vi também que o título de um livro que marcara o princípio de um romance, o motivo recorrente de um certo casal, tornara-se a isca e o fator de aproximação com uma terceira pessoa.
Vamos dar um desconto às nossas almas perdidas, desejosas de encontro de encontro transcendente, mas arrastadas ao desencontro pela imanência e precariedade da carne. Não havemos de querer originalidade e exclusividade no uso das palavras nesse tempo de amores líquidos, do amor nos tempos de cópula. Confesso, no entanto, me sentir um tanto quanto entristecida com seu uso abusivo e pouco escrupuloso.
Como pode alguém empregar exatamente o mesmo vocabulário amoroso ora com uma, ora com outra pessoa? Como pode alguém usá-lo simultaneamente como mais de uma? É bem verdade que o amor quando acontece parece ser sempre o primeiro, o derradeiro e o definitivo.
É bem verdade que quando apaixonados, os nossos olhos contemplam os objetos de amor com a mesma ternura repetida, pois ela afinal provém de nós, do que somos; que nossos corpos se aquecem, umedecem ou enrijecem esquecidos de que já estiveram assim um dia, mas nutridos do mesmo sangue que sempre circulou por nossas veias. Porém, se o sentimento se nos afigura novo, se diante de nós está um novo ser a ser amado, por que não tentar construir uma expressão mais peculiar e característica?
Vamos permanecer mais em silêncio ou vamos parar de dizer “eu te amo” a torto e a direito, indiscriminadamente. “Eu te amo” afinal não é bom dia. Vamos dizer, por exemplo: “teadoro teodoro”, como nesse terno poema de Manuel Bandeira.
"Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.”
E não, não é preciso ser poeta para conseguir criar uma expressão singular do amor. O que não faltam são canções sentimentais, livros, filmes, inesgotável fonte em que sempre podem os novos apaixonados se alimentar, para engendrar o seu próprio e peculiar discurso.