Logo

Não vamos dizer eu te amo

06.12.2013 - 18:59:14
WhatsAppFacebookLinkedInX

As palavras mudam; gastam-se; tornam-se pesadas, leves; flutuam; esvaziam-se. Mas ao empregá-las, somos muitas vezes desatentos e desmemoriados. Não nos recordamos das transformações por que passaram por séculos, dos sentidos que ganharam e perderam ao longo de nossas próprias vidas.  

Lidar no cotidiano com as palavras me fez desejar usá-las escrupulosamente. Me fez desejar ou me obrigou a isso, visto que palavras, embora prazer, são sempre um tipo de pedra no sapato, um incômodo, uma dor, um calo. Quem por profissão ou amor lida com elas vive nesse tal embate. Será que essa é a palavra exata? Não estarei sendo ludibriada por ela? Por acaso ela não guarda um sentido oculto que me escapa? E o sentido que lhe atribuo será o mesmo ou outro que leitores lhe irão atribuir?

Creio que no amor como no ofício da escrita esse embate se agrava. Daí essa espécie de incômodo com que me defronto. Quando se apaixonam, as pessoas usam as palavras com maior prodigalidade, de forma até inconsequente. Declaram-se e para isso recorrem aos recursos limitados da língua, às mesmas palavras de sempre ou ao menos de sua época, ao “te amo”, às expressões que já se cristalizaram em clichês da linguagem amorosa.

É claro que há sempre os lacônicos, os austeros, os parcimoniosos, os que não se declaram nunca ou quase nunca, que desconfiam da verbalização e preferem expressar o amor em atitudes, em práticas. Mas digamos que a maioria se esbalda e usa esse léxico amoroso sem grandes cuidados, pouco ciente de que as palavras de tanto usadas podem estar desgastadas pelo uso e sobretudo que, para os que as ouvem, leem, recebem, podem ter um sentido completamente diverso daquele sentido, se sentido, para quem as emite. Podem trazer uma conotação diferente, escorada na experiência, nas boas vivências, nos traumas de quem diz e quem escuta. Podem ter peso ou permanecer na superfície. Podem ser nada além de ruído.

Nunca gostei de dizer “eu te amo” e sempre desconfiei ao ouvi-lo. E por mais que eu o tenha dito, em rompantes de desejo ou inconsequência, atendendo a pedidos de reciprocidade ou juramento, creio que essa expressão não traduziu nunca a singularidade do sentimento que essa ou aquela pessoa me despertou.

Creio que minhas melhores, mais profundas e verdadeiras declarações de amor não se constituíram propriamente em declarações, mas antes num repertório íntimo usado ao longo do relacionamento: aqueles apelidos carinhosos, bizarros e muitas vezes ridículos que um enamorado impõe ao outro, aqueles vocábulos característicos que se repetem nas conversas ou que se constituem em um tipo de marco poético ou prosaico do encontro e do convívio. As letras de músicas, os versos preferidos, os títulos e trechos de livros ou filmes.

Posso dizer, sem medo de estar enganada, que tive meu dicionário singular compartilhado com cada um daqueles que amei. Por isso, não deixo de me sentir assombrada quando vejo a banalidade com que as palavras são empregadas e não me refiro apenas à linguagem amorosa padrão: “sou apaixonada (o) por você”, “você é o homem ou a mulher da minha vida”. Refiro-me ao limitado repertório musical e literário de que as pessoas se apropriam e constroem quando se relacionam.

 Outro dia mesmo, vi que a canção que eu considerara o marco de uma história entre um rapaz e uma moça passara a ser a canção-tema da história seguinte entre esse mesmo rapaz e outra moça. Vi também que o título de um livro que marcara o princípio de um romance, o motivo recorrente de um certo casal, tornara-se a isca e o fator de aproximação com uma terceira pessoa.

Vamos dar um desconto às nossas almas perdidas, desejosas de encontro de encontro transcendente, mas arrastadas ao desencontro pela imanência e precariedade da carne.  Não havemos de querer originalidade e exclusividade no uso das palavras nesse tempo de amores líquidos, do amor nos tempos de cópula. Confesso, no entanto, me sentir um tanto quanto entristecida com seu uso abusivo e pouco escrupuloso.

Como pode alguém empregar exatamente o mesmo vocabulário amoroso ora com uma, ora com outra pessoa? Como pode alguém usá-lo simultaneamente como mais de uma? É bem verdade que o amor quando acontece parece ser sempre o primeiro, o derradeiro e o definitivo.

É bem verdade que quando apaixonados, os nossos olhos contemplam os objetos de amor com a mesma ternura repetida, pois ela afinal provém de nós, do que somos; que nossos corpos se aquecem, umedecem ou enrijecem esquecidos de que já estiveram assim um dia, mas nutridos do mesmo sangue que sempre circulou por nossas veias. Porém, se o sentimento se nos afigura novo, se diante de nós está um novo ser a ser amado, por que não tentar construir uma expressão mais peculiar e característica?

Vamos permanecer mais em silêncio ou vamos parar de dizer “eu te amo” a torto e a direito, indiscriminadamente. “Eu te amo” afinal não é bom dia. Vamos dizer, por exemplo: “teadoro teodoro”, como nesse terno poema de Manuel Bandeira.


"Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.”

E não, não é preciso ser poeta para conseguir criar uma expressão singular do amor. O que não faltam são canções sentimentais, livros, filmes, inesgotável fonte em que sempre podem os novos apaixonados se alimentar, para engendrar o seu próprio e peculiar discurso.
 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

Postagens Relacionadas
Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]

Noite e Dia
20.02.2026
Exposição de Maria Clara Curti abre temporada 2026 da Vila Cultural Cora Coralina; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu o calendário de exposições 2026 nesta quinta-feira (19/2), com a exposição “Aquilo que fica e outros fantasmas”, primeira individual de Maria Clara Curti. A produção multifacetada desdobra temas como o luto e a simbolização da perda, as impressões da memória no corpo, tensões intersubjetivas […]

Noite e Dia
18.02.2026
Goiânia recebe 42ª edição do Congresso Espírita de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Nem só de folia foi feito o Carnaval deste ano. A Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) realizou entre sábado (14) e segunda-feira (16), o 42º Congresso Espírita de Goiás. O evento foi realizado no Teatro Rio Vermelho (Centro de Convenções) e com o tema “Jesus e Kardec para os […]

Projetor
17.02.2026
Uma Cartografia de Influências

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões. Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de […]

Noite e Dia
16.02.2026
Goianienses aproveitam sábado de carnaval com muito samba; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os goianienses aproveitaram o sábado de carnaval (14/2) no Centro da cidade. Com programação especial, o Quintal do Jajá recebeu os foliões com apresentação do DJ Ferrá, Ricardo Coutinho e Gabriela Assunção. A festa continua nesta segunda-feira (16), com show de Grace Venturini e Banda, às 18h. Na terça-feira (17), com […]