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Meu Pai, Eterno Amigo

02.10.2017 - 09:12:00
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Goiânia – Em meio aos escombros de edifícios provocados por uma máquina conduzida por Harry (Paul Newman), um operário da construção civil que padece pelo falecimento de sua esposa, e cuja dificuldade em se relacionar com o filho é uma rotina devido ao distanciamento entre a vontade diametralmente oposta de cada um. Enquanto Harry almeja que seu filho Howard tenha um futuro diferente do seu, até por ser extremamente inteligente, Howard é um jovem dotado de uma infrequente sensibilidade e uma veia artística cujo sonho é se tornar um escritor.
 
Um incidente ocorre durante seu trabalho devido a um problema de saúde que embaça sua visão e quase o leva a matar um colega de trabalho com a má condução do equipamento, o que o leva a demissão. As ruínas decorrentes da máquina que derruba as construções é o prenúncio para expor as fragilidades às quais os personagens são submetidos ao longo de Meu Pai, Eterno Amigo (1984), com certeza um dos mais brilhantes filmes da década de 80.
 
Paul Newman, tal qual Ida Lupino, possui um amplo reconhecimento por suas respectivas carreiras de atores, entretanto se são dois ótimos no quesito atuação, o talento desabrocha inequivocamente no tocante à direção e, tanto Newman quanto Lupino, merecem uma atenção especial, pois são dois dos maiores do cinema neste aspecto, apesar de passarem muitas vezes desapercebidos por suas parcas filmografias, mas assombrosas quando a referência é o triunfo cinematográfico e o brilhante talento intrínseco a estes nomes.
 
O domínio da narrativa promove uma sinergia com uma mise-en-scène de saltar os olhos, calcada em uma extrema discrição e elegância. A sutileza predomina em meio a uma organicidade que evidencia a beleza inerente à realidade, de momentos de graça, capturados por Paul Newman, que remetem a uma virtude de uma inocência por meio de uma verdade conferida pela câmera, o que estabelece um vínculo entre o espectador e os personagens. Um cinema que não parece encenado, mas que dá a sensação de que realmente se presencia um evento cotidiano, de uma família qualquer, tal o nível de empatia ao qual é estabelecido, uma sensibilidade cada vez mais rara no cinema contemporâneo. Todo o elenco está impecável e, principalmente, Paul Newman, em uma de suas melhores, se não a sua grande atuação em toda sua carreira.
 
A tristeza inabalável diante da brevidade da vida, do profundo desejo de um pai por conjeturar um futuro brilhante a seu filho, e a incapacidade de lidar entre seu próprio anseio e o do filho, que se divergem ante a um mar de sensações que movem os personagens ao longo de suas vidas. A incongruência entre gestos que descambam em uma brutalidade e ao pulcro afeto entre pai e filho, em um dos mais belos filmes a tratar deste amor, um amor impenetrável, trancafiado por laços austeros mesmo com as díspares visões de mundo de cada um dos personagens. Apesar de o filho tentar se enquadrar e agradar seu pai com relação a um emprego convencional, sua inquietude permanece.
 
O amor que emana e que condiciona o desejo de um pai por um futuro promissor a seu filho em meio a finitude de sua própria vida. A necessidade de encaminhar o filho na vida para, finalmente, poder descansar em paz, encontrar a serenidade que é revelada no instante em que uma lágrima escorre em sua face um dos momentos mais tocantes da história do cinema. O final na praia, com os ânimos abrandados e iluminados pelos raios solares, representa o princípio de um novo ciclo. Howard, agora casado e com um filho, encontrou a paz. E a vida continua…
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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