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Mer, um álbum de Paulo Guicheney e Luciane Cardassi

28.10.2020 - 14:59:32
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Neste mês de outubro, conversei (via e-mail) com o amigo Paulo Guicheney a respeito do álbum Mer. Este trabalho contém 4 obras do compositor goiano, interpretadas pela pianista Luciane Cardassi. Aliás, esta musicista brasileira-canadense também é responsável pela produção deste registro fonográfico. O lançamento do álbum, pela Redshift Records, será no dia 30/10/2020.

 


Divulgação – Álbum Mer

Othaniel Alcântara: Por que o título Mer?
 
Guicheney: Mer, a composição que nomeia o álbum, foi inspirada no romance O amante da Marguerite Duras. Há no livro de Duras uma associação entre a mãe e o mar, as palavras em francês mer (mar) e mère (mãe) são homófonas. Vem daí o título de minha peça e também do álbum. Duras soube captar como ninguém essa liquidez da mãe, essa dura, e temos aqui um paradoxo, relação entre filha e mãe. O livro é também, obviamente, uma história de amor, e como toda boa história de amor as coisas não dão muito certo ao final. Minha peça Mer é uma suíte, em 7 movimentos, que reverbera diferentes momentos de O amante, desde o início no rio Mekong ao final com a valsa de Chopin dentro no navio – novamente a água, em Duras nós não viemos e voltaremos ao pó, mas sim da e à água. Eu não fiz uma peça programática, mas é como se esse corpo sonoro vibrasse por simpatia com o texto da Marguerite; este texto tão profundo sobre o amor. O amor, a morte e o feminino são os temas que mais me interessam – não nessa ordem, e não necessariamente em conjunto. Acredito que minha música, quase toda ela, trate disso. 
 
Othaniel: Em O amante da Marguerite Duras (1914-1996), o encontro inicial da jovem de 15 anos com o rico chinês (10 ou 12 anos mais velho) ocorre em uma balsa no rio Mekong na antiga Indochina Francesa. Na resposta anterior você mencionou: “desde o início no rio Mekong ao final com a valsa de Chopin dentro no navio”. O que você pensou ao compor o último movimento? Minha curiosidade surgiu a partir da escrita em clusters variados com durações marcadas em segundos, ao invés do tradicional compasso ternário característico da valsa.
 
Guicheney: Achei que seria óbvio demais fazer uma valsa ou ainda, citar algo de Chopin. O mais importante desta passagem do livro não é a valsa em si, mas o que a valsa detona na personagem: a consciência de que ela sempre soube, na verdade, que amava o rapaz chinês. Neste movimento, um cluster se adensa rumo à região aguda do instrumento, é algo puramente musical. Em um outro movimento há o oposto, a filtragem de um complexo sonoro.
 
Othaniel: Ainda sobre Mer, você disse que sua intenção não foi fazer uma peça programática. Mas, ao ouvir, por exemplo, o movimento V (Hélène Lagonelle), a primeira coisa que me veio à cabeça foi o “som” das ondas do mar.
 
Guicheney: Não tinha pensado sobre esta “ondulação” em Hélène Lagonelle. Minha intenção havia sido outra, a de que a beleza da personagem se transformasse em ressonâncias do piano através dos arpejos agudos e rápidos; algo poético e puramente musical, creio, mais uma vez. Enfim, é a liberdade das interpretações, este é o território da obra de arte.

 


Paulo Guicheney
Foto: Karol Rufino


 
 
Othaniel: Além de Mer (faixas 01 a 07), o álbum contém mais três obras. A segunda delas é afloat (faixa 08). Fale também um pouco sobre o título desta peça. 
 
Guicheney: O título é uma referência ao poema Two Views of a Cadaver Room da Sylvia Plath – outra autora; às vezes, tenho a impressão de que só leio mulheres. A Cardassi gravou, em várias interpretações, a segunda parte do poema e eu utilizei este material na parte eletrônica da peça, nos samples (o “tape”). Eu despedacei sua voz, e também imensos clusters de piano, e criei várias camadas de sons em diferentes tempos, uma polifonia de periodicidades. Estes sons estão afinados em uma diferença de ¼ de tom com relação ao piano, o que gera um mundo bastante interessante de ressonâncias. Novamente, fui capturado por um texto sobre o amor. O poema da Plath foi inspirado na imagem de um casal no O triunfo da morte do Bruegel. A leitura que ela faz destes jovens amantes é surpreendente. Como alguém pôde, em meio ao caos que o quadro encarna, encontrar em um canto, quase escondido, este casal? Como grande criadora que é, Plath se detém em um mero detalhe. E é de um modo cristalino, frio, nada romântico que ela fala da antiga parceria amor e morte. O que ela expõe é um retrato da fragilidade de nossa existência. Não é uma leitura muito animadora. É o que tento reverberar em afloat, a beleza e a efemeridade do amor. 
 
Othaniel: Na capa da partitura de afloat você coloca o recorte da pintura O triunfo da morte, contendo o casal anteriormente mencionado. Em meio àquele caos – o “castigo de Deus” – retratado pelo artista Pieter Bruegel (1526/1530-1569), podemos ver o amante tocando um instrumento de cordas, enquanto sua amada segura uma partitura musical. Enfim, ouvindo sua peça não acho que ela esteja desconectada do cenário de todo o quadro de Bruegel. Como você mesmo disse, a autora fala dessa parceria “amor e morte” de modo “nada romântico”. Como, em termos técnico-musicais, você trabalhou esse contraste de sentimentos e sensações?

 

The Triumph of Death – Pieter Bruegel
Fonte: commons.wikimedia.org
 

Guicheney: A introdução é uma referência direta ao Bruegel, os três harmônicos no piano são sinos fúnebres, mas meu momento Berlioz para aí. À exceção desta passagem, mais nada é programático, salvo se inconsciente – de qualquer modo, este detalhe nunca foi percebido por ninguém, o que é positivo. Existe um espaço que eu tento adentrar com a minha música, digamos que em afloat este espaço seja o recorte no quadro do qual a Plath fala: esta pequena ilha em meio ao caos que o casal representa, mas do qual também faz parte. Meu objetivo – e digo isto sem nenhuma grande pretensão – é acrescentar algo a estes espaços. De um ponto de vista técnico, boa parte do que acontece em afloat está já esboçado em Mer: as repetições, os clusters, os glissandos de andamentos, as sobreposições de camadas sonoras, as ressonâncias do instrumento. Podemos pensar em uma câmera que se afasta e se aproxima, que foca e desfoca um objeto ou em uma fita cassete que se acelera e se desacelera distorcendo o som. São metáforas e mais metáforas… Quando componho não penso em sentimentos, penso em um afeto: a angústia. Tornei-me compositor para conseguir lidar com isto, não que eu consiga.

 

afloat (trecho da partitura)

 
Othaniel: Além das composições musicais, você possui uma produção literária. Aliás, as peças ILUMINURAS I. A silent fjord (faixa 09) e A floresta de ossos (faixa 10) são baseadas em seus textos. Como foi o processo de elaboração destas obras?
 
Guicheney: Eu sou um músico que escreve, é assim que vejo minha relação com a literatura. Tenho um livro, Tempo de atirar pedras e dançar (Martelo Casa Editorial, no prelo), e ainda outro por finalizar, O nome de tua pele – o que deve acontecer apenas quando eu terminar minha tese de doutorado. Além, é claro, de escrever os textos para as minhas composições. Acho que há aí a influência de meu professor, o Estércio Marquez Cunha, ele também escreve os textos de suas peças. ILUMINURAS I. A silent fjord tem um texto muito simples: as palavras flor, flama e fiorde são faladas pela pianista em diferentes línguas, sempre em cognatos, algo como uma Klangfarbenmelodie feita apenas de significantes. A floresta de ossos tem um texto mais elaborado, por assim dizer, um texto que independe da composição musical, que se sustenta sozinho. Temos aqui um processo parecido com a composição de afloat. A Luciane gravou várias versões do meu texto e eu novamente o despedacei para criar a parte eletrônica – devo ter algum problema grave com a palavra para tratá-la desta forma. Entretanto, a parte lida pela narradora é clara e perceptível, creio. É a história do encontro entre um homem e uma mulher, outra história de amor: 
 
Ela entra na floresta. Ele a persegue. Ela desaparece, não há como encontrá-la. É impossível encontrar uma mulher. A floresta imensa. Imersa em ossos. É uma floresta de ossos, ele percebe. Ele caminha, perde-se. Corre. Volta a correr. Tenta voar, grita. Ela está longe, flutua: as palavras ainda não mataram as suas asas. Ele está parado, mudo, os dedos clamando: Amo-te, amo-te. Receba meu corpo. É um corpo morto, o meu corpo. Morro em ti. Ela para, ela escuta. Ela canta. É branca a voz de uma mulher. Ele a abraça. Ela o abraça. O corpo de um desaparece no outro. O corpo do outro desaparece no um. As almas não existem. Um. 

A floresta de ossos 
(trecho da partitura)
 
Othaniel: As quatro obras foram criadas, exclusivamente, para esse álbum? Quando foram escritas?
 
Guicheney: Apenas A floresta de ossos (2019) foi composta para o álbum. As demais, não. Mer foi escrita em 2012 e estreada pela Cardassi em 2013; afloat foi escrita, também para ela, em 2014 e estreada no mesmo ano. ILUMINURAS I. A silent fjord foi composta e estreada em 2015 pelo pianista Robervaldo Linhares, a quem a obra é dedicada (ILUMINURAS I existe também em uma versão para piano e percussão, uma encomenda da Luciane e do percussionista Fabio Oliveira [Duo Cardassi-Oliveira], escrita e estreada em 2016).
 
Othaniel: Então a sua parceria com a Luciane Cardassi é antiga. Como foi esse encontro?
 
Guicheney: A Luciane fez um concerto em Goiânia, na EMAC-UFG. Me lembro dela ter tocado …sofferte onde serene… do Nono, foi um concerto bonito… Ao final nós conversamos e eu lhe dei um CD com algumas peças minhas. Um tempo depois ela entrou em contato comigo, disse que havia gostado da minha música e que queria encomendar uma peça para piano e sons eletroacústicos. A Luciane tem um trabalho interessante com a voz, ela lê e canta muito bem – além, é claro, de ser uma pianista brilhante. Escrever também para a voz foi algo importante para mim, abriu todo um mundo de possibilidades. Geralmente, pianistas são muito tradicionais, eles não gostam de nada que não seja tecla. Este não é o caso dela. É uma felicidade poder colaborar assim com outro músico.
 

Luciane Cardassi
Foto: Lia Sfoggia

* O álbum estará disponível no site da Redshift Records (a partir do dia 30/10/2020).
 
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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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