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Melhor mudar de mundo do que mudá-lo

27.09.2012 - 09:42:00
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Goiânia – Todo mundo quer um mundo mais limpo, saudável, justo, mas quase ninguém parece estar disposto a modificar seus hábitos de consumo, a pagar o preço, a dividir tarefas e responsabilidades. É como diz uma dessas mensagens engraçadas que circulam por aí: “todo mundo quer salvar o mundo, mas ninguém quer ajudar a mãe a lavar a louça.” 
 
Por falar em mãe, Freud continua certo: a culpa é toda delas e entre elas me incluo. Mães em geral, ao menos as de classe média, apreciam mostrar-se preocupadas com a preservação do meio ambiente, com a reciclagem do lixo, com a alimentação saudável de suas crias. Fazem coro feliz ao discurso das escolas que comemoram dia do meio ambiente, dia da árvore, que estimulam o consumo de frutas e verduras, em lugar de doces e frituras. No entanto, tanto mães quanto professores, continuam, talvez até inconscientemente, perpetuando e reproduzindo hábitos que não contribuem nem para o bem do planeta, nem para a saúde.
 
Tome-se o exemplo das festas infantis.  Por falta de tempo, por praticidade e economia, é cada vez mais comum comemorar os aniversários das crianças nas escolas. Estas em geral têm normas para evitar o abuso do poder econômico na decoração e no espetáculo, permitindo que se levem apenas bolo, salgados, sucos e doces. Deixam de fora o palhaço, os animadores, os carrinhos de cachorro-quente e de pipoca, o pula-pula, a piscina de bolinhas… Ufa! Uma superprodução, sem a qual não parece ser mais possível a diversão infantil.
 
No entanto, as escolas não fazem nenhuma restrição às famigeradas lembrancinhas que na maioria das vezes consistem numa caixa, lata ou saquinho, contendo uma quantidade assombrosa de plástico e açúcar, para horror dos nutricionistas. São quinquilharias descartáveis, brinquedinhos made in China, que quebram ao primeiro manuseio e vão parar no lixo, reciclável, por favor. É um surtimento impressionante de balas e chocolates, muitos sem qualquer controle de qualidade, repletos de corantes, e comercializados nas lojas de artigos para festas espalhadas a cada esquina.
 
O saldo festivo costuma ser uma ameaça a qualquer equilibrada dieta infantil. Se em uma turma há 10 crianças, são pelo menos 10 festinhas ao longo do ano, sem contar que muitas fazem aniversário no mesmo mês, de tal forma que numa mesma semana às vezes a meninada leva pra casa um verdadeiro arsenal de guloseimas que competem deslealmente com a maçã e o alface. E lá vão essas mesmas mães – oh, contradição! –  inventar esconderijos e formar trincheiras para proteger as crianças, já viciadas nas bombas de açúcar.
 
Não bastassem as comemorações na escola, há também os aniversários de família, dos filhos dos amigos, comemorados em casa ou nos espaços de festa. Nessas produções cada vez mais sofisticadas, há, além das lembrancinhas, o excesso ainda maior de plástico e papel.  São enfeites de mesa, copos, pratos e talheres descartáveis, grande número de balões que as crianças tratam de estourar com euforia selvagem tão longo se cantam os parabéns. Quando assisto a esse costume, aliás, lembro quando, menina de cidade pequena, ia a festas, ao final das quais cada criança ganhava um único balão. A gente levava pra casa, brincava com ele, amarrava-o à cabeceira da cama e chorava se na manhã seguinte ele amanhecia murcho ou se estourava em algum triste acidente.
 
Quem tem menos de 40 anos certamente não se recorda de uma época em que produtos plásticos e guloseimas industrializadas não eram tão comuns assim. Ingressamos nas últimas décadas em um período de abundância, com a expansão das indústrias de alimentos e brinquedos, e com a invasão de produtos chineses. Percebemos, porém – e os ambientalistas não se cansam de repetir – que o planeta tem recursos finitos, que podem se esgotar.

Reproduzimos esse bonito discurso que já se cristalizou em clichê, mas também reproduzimos cegamente velhos costumes e os ensinamos aos nossos filhos.

Na última festa de meu filho na escola, recordando as dificuldades que enfrentava quando ele era alérgico a lactose e corantes, e as estratégicas que era preciso criar para dar sumiço às tais lembrancinhas, resolvi nadar contra a corrente. Em vez de mandar um pacote de guloseimas e quinquilharias, dias após a festa, enviei a cada coleguinha uma foto tirada do aniversariante com cada um deles. 
 
Aquilo sim, para mim, era uma lembrança, não o açúcar que se dissolve na boca, não o brinquedo que se desmancha.  No entanto, vendo que as outras mães continuavam distribuindo seus kits memória, acabei por me sentir um verdadeiro ET que tirava literalmente o doce da boca de uma criança. Receei, agindo assim como um ser de outro planeta, fazer com que meu filho se sinta um diferente, um excluído de nossos usos e costumes. Não pretendo repetir a experiência. Melhor deixar de lado essa bobagem de mudar o mundo. Melhor, mais adiante, a gente se mudar de mundo. 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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