Falaram-se meses ao telefone e Jane julgou que de algum modo se assemelhavam em suas estranhezas e compulsório exílio. Por fotos conheceu “os seus olhos morenos” que lhe metiam “mais medo do que um raio de sol”. Com receio, porém, menos do bico de sua águia do que desses olhos que pareciam ter conhecimentos sobre a constituição e a delicadeza dos vasos, que conseguiam enxergar para além das paredes de tecido; tremendo de temor de que ele pudesse, mais do que outros homens ordinários, com precisão feri-la, propôs-lhe um tipo de trato: que no primeiro encontro, ainda que se sentissem irresistivelmente atraídos, não iriam tocar-se. Firmaram assim tal contrato. Mas ao ir à manicure e escolher o esmalte para a tal noite, deparou com um nome sutil na embalagem: um vermelho vivo, embora não gritante, quase desmanchando-se em laranja e que se chamava “”Me beija”.
Pobre Jane. É que às vezes, cansada do pulsar solitário do seu coração fora de lugar, enfastiada de guardá-lo em redoma, ousa sonhar a suavidade de um toque e sente-se tentada a exibi-lo em profundo decote. Ele, Christofer, atraído, ou pelo decote ou pela estranha bomba pulsante; ela, pelo risco da carícia dolorida do bico recurvo de uma águia em seu peito e nos seus próprios pequenos bicos, sentiram-se fortemente tentados a romper o contrato. A cada um deles faltava, porém, a coragem para o primeiro gesto. Desviando os olhos do colo e do músculo trêmulo, ele observava suas mãos, anéis e unhas pintadas. Investindo-se de temeridade, ela perguntou:
“Sabe como se chama esse esmalte?”
E foi a deixa.
Contrato rompido, estiraram-se na cama de Jane, ela vestida apenas com o verniz das unhas, ele com as penas de sua águia eriçadas. Ignorando, pois, o medo de seus agudos “olhos morenos” e das perspicazes pupilas aquilinas, ela se deixou envolver “nos seus braços serenos” e sentiu que ele já lhe havia arrancado um primeiro naco. E assim como qualquer casal de enamorados gosta de repetir mil vezes as miúdas e insignificantes minúcias que poetizaram seus primeiros encontros, revestindo-os de cor e significado, e como o nome do esmalte fora a senha mágica com que se abrira para eles uma caverna de tesouros e de prazeres, eles passaram a se divertir comentando que os fabricantes de esmaltes deviam manter em seus quadros de funcionários uma meia dúzia de almas sensíveis e criativas com a exclusiva função de denominá-los. “Então as mulheres, ao escolher as cores com que irão tingir as unhas o fazem a partir de seus desejos e intenções?”, ele perguntava. “É claro. Não há nada que uma mulher faça ou escolha que não tenha em vista o amor, por mais que isso esteja oculto para a sua própria alma. E sabem muito bem disso os encarregados de marketing da indústria cosmética”. “Você escolheria bem esses nomes então”. “Eu certamente não poderia trabalhar em tal função, pois sou muito prolixa, faria escolhas baseadas apenas em desejos pessoais, e daria aos esmaltes nomes longos como Me Beija Muito por Esta Noite e por Mil e Uma Noites Mais". Christofer fez mais uma vez o que ela pediu.
Outros encontros assim se deram e em cada um deles seu coração se tornava mais intumescido e acelerado. Para cada um Jane escolhia uma cor diferente e retomava o tema do princípio, ainda tão excitante para os dois. “Este, de vermelho mais intenso e sangrento, se chama Deixa Beijar”. E assim ela provocava a águia e se deixava beijar e bicar. Em certa ocasião, pensou em lhe pedir uma sugestão. “Da próxima vez em que nos encontrarmos, o que você acha de eu usar um chamado Nunca fui santa?”, mas se calou recordando-se que águias, como muitos homens, são animais que caçam solitários e querem crer que foram os primeiros a avistar suas presas. De outra vez, ela se arriscou: “e se eu usasse um outro chamado Amarração para o amor?”, ao que ele que ele retrucou, um tanto ríspido, percebendo a inquietação da águia: “Não creio que seja uma cor que agrade a pássaros”.
Christofer era parcimonioso e muito pouco hábil com as palavras, mas como Jane adorava dormir abraçada a sua voz, recostada àquela águia de penas macias quase sempre silenciosa e que silenciosamente a destroçava. Quando no meio da noite acordava, enquanto ele ainda dormia (os quatro olhos fechados), ela o contemplava em seu sono altivo, pensava nos cumes que ele sobrevoava dentro dos sonhos, em suas acrobacias pelos céus, em seus giros e nas distâncias que percorria, na sua liberdade de pássaro. E pensava em sua própria sina, acorrentada a um coração exposto e pesado. Mas que liberdade, afinal? Que triste também a sina daquela ave enterrada no peito de um homem! E que terrível destino daquele homem que com tal maldição de desejar os ares não poderia desfrutar plenamente do prazer de ter os pés enraizados à terra! E assim, com uma mistura de paixão e compaixão, acariciava as penas que se despregavam dele e em sua pele úmida se prendiam.
Uma noite, usava um esmalte chamado Poema. Contemplando na penumbra as próprias mãos, molhou uma dessas penas com o sangue que de si respingava e desengasgou sobre os lençóis o temor de ser viva devorada:
Haviam programado encontrar-se na semana seguinte. Mas no dia marcado, em um fim de tarde, enquanto o esperava, escolheu um esmalte chamado Entardecer. E teve o pressentimento triste de que: