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Matar Para Viver

24.07.2017 - 10:16:09
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Goiânia – A derradeira cena de Matar Para Viver (1957), de Allan Dwan, remete ao instante em que o personagem interpretado por John Wayne pega a sobrinha no colo e diz "Let’s go home, Debbie.", em Rastros de Ódio (1956), a obra-prima de John Ford realizada no ano anterior. Momentos emblemáticos que carregam uma simbologia que denota um recomeço, de um fim de um ciclo e o princípio de um novo, a constante transformação à qual os personagens estão submetidos ao longo de suas jornadas. Tanto na película de Ford, quanto na de Dwan, o lirismo transborda de modo acachapante e mágico, sobretudo, nestas cenas espelhadas, ressaltando a genialidade contida nestes dois grandes cânones do cinema.
 
A trama aborda sobre uma teia intrincada envolvendo três personagens cujo destino será alterado a partir do momento em que o personagem Nardo Denning (Ray Milland) chega à cidade em busca de Meg (Debra Paget), sua antiga namorada, e, atualmente, esposa de Ben Cameron (Anthony Quinn), um pequeno rancheiro no deserto da Cidade do México. À certa altura, o casal é acometido de um pequeno entrevero que acontece no instante em que Nardo bate à porta do rancho do casal com o intuito de obter auxílio de Ben para uma fuga e roubar sua esposa, portando em mãos uma maleta com um milhão de dólares, em direção à fronteira que divide os Estados Unidos e o México.
 
Meg decidida a ir à cidade e, com o aval do marido, acaba sendo levada por Nardo, mas, quando Bem descobre, por meio de um retrato, de quem se trata, ele decide ir atrás dos dois. Nardo e Meg são parados por uma viatura cujo policial pede para revistar o porta-malas do carro, o que culmina no seu assassinado, tornando-a cúmplice de Ben. Um estudo psicológico de personagens é traçado de modo exímio por Dwan, uma vez que, quando os personagens se encontram e se adentram em uma odisseia – obrigados por Nardo -, pontuada por uma esplendorosa fotografia que capta pomposas paisagens – uma espécie de faroeste entremeado com road movie -, a personagem de Debra Paget demonstra estar ora a favor de Nardo, ora de Ben, promovendo uma tensão em constante movimento.
 
A cena em que Ben não hesita em incendiar inúmeras notas de dólares para manter acesa uma pequena fogueira para salvar sua amada é de um lirismo assombroso e corrobora para a retumbante capacidade e organicidade de construção de cenas antológicas intrínsecas a Dwan, evidenciando que o dinheiro fica em segundo plano diante do amor, não importando a quantidade, mas sim o sentimento para com a pessoa amada. Se, durante uma discussão no início do longa, Meg afirma que não se pode viver sem amor, Ben, por meio desta magnânima atitude, comprova que ele, de fato, sempre a amou. De um vigor absurdo que emana poesia na composição de suas cenas e uma encenação primorosa, este grande diretor confecciona uma obra-prima que deveria ser mais (re) conhecida.
 

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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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