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Fale-me mais sobre isso

17.01.2013 - 10:13:12
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Goiânia – Dizem que é conversando que a gente se entende. Se não se compreende melhor, pelo menos sabe que os outros têm problemas maiores ou no mínimo diferentes dos nossos. Dizem também que quem tem amigos não precisa de psicólogo. Não fossem tão caros os serviços de ouvido, eu não os dispensaria. Quer coisa melhor do que você deitar no divã, recostar-se na poltrona e falar, desabafar, divagar, e ter alguém ali só te pedindo: fale-me mais sobre isso?
 
Muitas vezes, a gente usa o papel e a tela do computador como ouvido, espalha os nossos lamentos, os nossos gemidos pelo mundo virtual como se fosse um ombro amigo. Ora se dá bem, ora se mete na maior enrascada, porque sempre há quem lê só um fragmento, faz seus julgamentos, criando-se os mais complicados mal-entendidos. E os poemas e os textos sobre amores fortuitos? E os enganos e desenganos seguidos? Eles ficarão por aí flutuando no ciberespaço, vísceras expostas, verdadeiras provas de crimes cometidos, de nossa volubilidade, da velocidade e liquidez com que avança a vida, faturas que serão cobradas pelo próximo amor com juros abusivos.
 
Assim que despontou a necessidade de usar porta-seios, aprendi a descrever meus sentimentos ou a narrar o que se passava comigo em códigos. Era uma estratégia para ludibriar a mãe zelosa e bisbilhoteira – mães não reconhecem o direito dos filhos à privacidade –, que fuçava os meus cadernos, à procura de indícios de comportamentos inadequados, de ameaças ao tão precioso cabaço. E então eu derramava metáforas absurdas e outras tantas aberrantes figuras de linguagem pelas páginas. Dava certo, porque ela se frustrava em suas intenções investigativas, reclamava de que não entendia nada que eu escrevia. Uma beleza de estratégia para a poesia, a ficção e para a vida: criar vozes diferentes, fazer passar-se por outro, virar personagem. Procurando se esconder de si e do outro, é a si e ao outro que a gente encontra ao final dessa estrada, gratificada ou desiludida.
 
Mas o que aprecio mesmo é fazer terapia de graça com os amigos, terapia que é um escambo de tolerância, paciência e afeto. Você, exausta de falar com o próprio umbigo, não suportando mais a própria companhia, convida aquela velha amiga para o café, na fé de que vai descarregar sobre ela todo o seu fardo. Mas quando começa a lhe alugar os ouvidos, percebe que ela também está ávida por esvaziar os seus sacos de lástimas, e que os problemas dela são ainda maiores, que ela também está farta de monologar só consigo. 
 
São dívidas a pagar, contas de família, crises profissionais, amores mal resolvidos, paixões e intrigas; são doenças e convalescenças, casos de morte, solucionados definitivamente para quem parte, mas não para quem fica. Você lhe cede a vez. E se não cede, ela reivindica o direito à palavra. Tenho algumas amigas, com as quais me encontro mais ou menos regularmente, que não se envergonham em dizer: agora é minha vez ou já estou inscrita, ou direito a aparte. É o bom das assembleias femininas.
 
O agradável dessas terapias em duplas ou coletivas é a gente perceber que todos têm problemas, que ninguém tem uma vida perfeita como às vezes se pensa, que a grande maioria vive sórdidos dramas rodrigueanos ou histórias dignas de serem narradas por Woody Allen. Falar de nossas próprias inquietações e impasses, e escutar os dos outros não nos garante soluções mágicas, mas como a gente se sente mais reconfortada ao se defrontar com outro humano ali ao lado, que também se zanga, sangra e chora, que tem medos, dúvidas, fragilidade. Nesses desabafos, a gente ri dos próprios problemas, faz piadas, o que lhes tira um tanto do peso. Transformamos em cômico o que antes nos parecia trágico.
 
Mas é preciso ter amigos para conversar assim e é necessário sobretudo estar disposta a despir a alma, a revelar que tem uma calcinha puída, uma casca de ferida. Como conta Chico Buarque em sua Ciranda da bailarina, canção tão divertidamente gravada por Adriana Calcanhoto: 
 
“Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem”
 
Algumas pessoas, claro, não gostam de se expor, acreditam que a cada um basta a sua dor, que quem pariu os problemas que os embale. Outras preferem ser belas vitrines de si mesmas, apreciam vender-se cor de rosa à vista, não entregam nada de pessoal nas conversas, optam por narrar apenas episódios corriqueiros ou extraordinários: a última viagem, a última festa, ou abordam a vida dos outros, decerto mais interessante que as delas.
 
Mulheres, somos bem mais pródigas em nos escancarar. Desabafamos com a diarista, a manicure, com a vendedora que nunca vimos mais gorda e que de repente promovemos a melhor amiga. Homens em geral tendem a ser mais reservados.  Se isso por um lado lhes confere um charme sedutoramente misterioso, se os livra de se meterem em fofocas, por outro é de lamentar sua solitária sorte. Aturam-se a si mesmos em silêncio, às vezes por uma vida inteira, não podendo confessar suas fraquezas ou fracassos, porque homem que é homem não olha nos olhos de outro, nem fala de seus sentimentos – vai que se levanta alguma dúvida sobre sua virilidade. Exceção feita aos momentos de porre. Aí estão liberados os desabafos, os abraços, as declarações de amizade. Será por isso que os homens bebem tanto? Porque só a embriaguez lhes dá a licença para se confessarem humanos?
 
É verdade que quem se expõe está realmente exposto a ouvir muitos palpites, coloca-se como livro aberto, dá o rosto a tapa, mas como a gente se aceita mais e se nutre de esperança quando se iguala e se confronta. Às vezes, amigas, diante dos nossos monstruosos dramas, nos dizem coisas tão simples, tão óbvias, que pensamos: poxa, como não pensei nisso antes!? Ou nos mandam calar a boca, o que em alguns casos é tudo de que a gente vinha necessitando. Vamos mudar de assunto. Não me fale mais sobre isso. Ninguém suporta mais essa ladainha.
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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