Pessoas que se escondem sob pseudônimos, que escrevem cartas anônimas, que publicam imagens ou textos apócrifos, sempre existiram antes mesmo que o homem e particularmente a mulher descobrissem a escrita. Arqueólogos encontraram recentemente pichações ofensivas estampadas em várias cavernas, datadas de 1.500 antes de Cristo. Eram verdadeiros impropérios sob a forma de pinturas rupestres. Uma alma ofendida por alheia felicidade desenhou uma fêmea puxada pelos cabelos e colocada de quatro por um macho da espécie sem que fizesse cara das mais desacatadas. Outro registro de maledicência encontrado em vasos reproduzidos em série na Grécia Antiga foram dois chifres desenhados nas duas cabeças de um centauro (ou seria antes um boi andando a cavalo?).
Se isso já acontecia com os seres que habitavam as cavernas, imagine o que não se faz hoje quando os homo sapiens, erectus, “sentadus”, “diquatrus” e “difamus”, com a internet, leva vidas às escuras, contemplando não só o mundo de sombras e simulacros que dentro dela se projeta, mas espiando o mundo verdadeiro ou o plano das ideias pela fresta. Na internet grassam e desgraçam as identidades secretas, os perfis fakes, gente que adora ver a pimenta exposta no WhatApp, Youtube e Facebook do outro, e que se aproveita disso para se dar refresco e a seus próprios crimes e calcanhares de Aquilles.
Diante da maledicência humana, das ameaças à segurança, da violência, os seres das cavernas platônicas e das cidades dionisíacas andam neuróticos com as questões de privacidade. Não sabem muito bem como proceder nessa nossa sociedade de vigilância, devassados pelo panóptico de Foucault. De um lado há aqueles que, temerários, se arreganham, que têm a vida “exposta na janela pra passar mão nela”. Já que estamos todos sorrindo já que estamos sendo filmados, vamos deixar tudo já de uma vez bem arreganhado. Por outro, há os que, temerosos, são muito ciosos de seus assuntos, que tentam ocultar e trancar tudo, como se isso possível fosse.
Ser muro intransponível,
com ervas alastradas.
Tornar-se caixa-forte,
cofre inviolável.
Guardar segredos indizíveis.
Comunicar-se pela caixa do correio,
Trancar o portão com cadeado.
Da mesma forma de que desconfio de quem tudo mostra, porque não sabe distinguir o que é notícia e o que é bosta, suspeito de quem muito se oculta ou disfarça, porque ou tem muito ou não tem nada para esconder, levando uma vida vazia de ser. Talvez também quem só se esconde, espiando e revirando a vida alheia, ao abrigo de cômodos dispositivos, revele no fundo o que é. Como se diz aí, em uma frase atribuída a Epicuro, “caráter é aquilo que você é quando ninguém está te olhando”. Caráter então é fazer o número dois?
O esforço dos extremos de todo modo é vão. Não é preciso ser nenhum detetive para descobrir o que qualquer um tem feito nos últimos anos. Há informações sobre os processos que respondemos na justiça, pessoas com as quais nos relacionamos. Deixamos por toda parte rastros dos sites pelos quais navegamos.
Sou adepta da teoria de que se já não tínhamos lá muito controle sobre a vida que levamos, menos temos ainda sobre a imagem dela difundida, ou seja, estamos difundidos mesmo. Um amigo brincou que depois que se descobriu que os Estados Unidos rastreavam nossas ligações e liam nossos e-mails, deveríamos já, para poupar trabalho, enviar todas as cópias deles para Obama. Eu não chegaria a tanto. Mas de certo modo renuncio ao controle, porque quem escreve dá mesmo a palavra a tapa.
Uma resolução inútil de ano novo que tomei foi não me deixar fotografar por aí com as câmeras de celulares, pelo menos voluntariamente, porque de qualquer modo sempre nos filmam e fotografam contra a nossa própria vontade. É que no Facebook, por exemplo, já me marcaram em fotos de não importa o que, já divulgaram imagens que eu sóbria não divulgaria, não para me preservar, mas para poupar os olhos dos outros de tanta feiura ou porcaria.
Uma reflexão que também tenho feito é: preciso realmente publicar isso ou, se estou publicando, quais são os sentimentos que me animam a publicá-lo? Quero mandar uma indireta para um ex-namorado, rival ou um desafeto? Quero despertar admiração, pena, inveja? Como disse o psicanalista Contardo Calligaris em seu texto “A inveja dos outros”, “o Facebook é o instrumento perfeito para um mundo em que a inveja é um regulador social”. Não, ao postar, não pergunto: a quem isso interessa? Porque no mais das vezes a resposta é que isso interessa apenas ao meu próprio ego. Antes me indago: quem pretendo que me leia ou veja e com qual finalidade? Ah, os artistas são uns exibicionistas desesperados, querem ser vistos, ouvidos, lidos, admirados.
Atualmente, todos somos ao nosso modo artistas e jornalistas, e temos as nossas colunas sociais particulares. A produção cultural e “umbigal” nunca foi antes tão democrática. Antes todos usufruíam de seus cinco minutos de bobeira, hoje todos querem ter seus cinco minutos de fama, suas mil curtidas, seus mil e quinhentos compartilhamentos. Vivemos a era da maledicência, da abundância e do exibicionismo. Vamos, portanto, compartilhar as nossas insignificâncias, mas procuremos ao menos ser sensatos. De resto, deixemos os restos com que não nos importamos e que não controlamos aos porcos ou ratos do cyberespaço. Não valorizemos tanto esse negócio de imagem, não nos preocupemos tantos em ser ou não exibidos, nos nossos melhores ou piores ângulos, afinal nessa vida significamos menos do que o mísero pó do cocô do cavalo do bandido.