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É grave, doutor

18.10.2012 - 09:50:01
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Goiânia – Em uma de suas vidas passadas, Rubião foi um tranquilo hipocondríaco, o que naquele tempo não representava riscos. Certo de estar acometido de moléstia gravíssima, procurou um clínico-geral. Dr. Teleco lhe auscultou o coração, mediu a pressão arterial, investigou o branco dos olhos, indagando sobre seu estado civil, situação profissional e opinião acerca de acontecimentos noticiados nos periódicos. Examinou os ouvidos e espiou o fundo de sua garganta, contando uma anedota. Pediu que dissesse 33 e, sem fazer grande caso de números, concedeu-lhe ainda meia hora de audiência, solicitando a narração pormenorizada de seus muitos sintomas-sentimentos.
 
Ao ouvir o paciente, o médico, sem ter-se doutorado em psiquiatria, pacientemente contemplava-o com seu olho clínico, sabendo assim distinguir um mero carente, que procura atendimento para ter algum contato humano, ser ouvido e auscultado por mínimos segundos, de um convalescente profissional.
Conhecedor não só da doença e da saúde, mas das alegrias e tristezas da condição humana, até que a morte delas nos separe, de nossa carência e fragilidade, atribuía à quimérica enfermidade um complicado nome latino, receitando uns comprimidos de placebo, o ar grave, para não dissuadir o paciente da seriedade de sua patologia. 
 
Na atual vida de Rubião, porém, na qual foi batizado Murilo, ele já não é um hipocondríaco tão inocente, que se deixa enganar facilmente. Concorreu para isso o fato de que, com tantas desencarnações e reencarnações sucessivas, algumas daquelas, aliás, provocadas por doenças, agravou-se nele a mania.
 
Como um homem de nosso tempo, antes de se dirigir a um consultório, já sabe de antemão tudo sobre suas moléstias imaginárias. Já pesquisou no Google, identificou sintomas e tratamentos. Não procura assim um clínico geral – eles ainda existem? – mas especialistas. 
 
Aliás, um hipocondríaco que se preze e não menospreze a gravidade de seu estado, tem um bom plano de saúde, com ampla cobertura, o que  lhe permite transitar pelas salas de quantos especialistas há no cada vez mais especializado mercado da medicina. Rigorosos e precisos em seus diagnósticos, capazes de achar cabelo até no mais depilado dos ovos, todos eles pedem, além dos costumeiros exames de rotina, glicemia, hemograma, urina, fezes (para o qual, aliás, ele elegantemente se veste), todos os outros procedimentos cobertos pelo plano nas respectivas especialidades. E encontram sempre uma alteração qualquer em um dos exames que deve ser bem investigada.
 
A relação médico-paciente é assim uma relação de custo-benefício totalmente vantajosa para ambos. As consultas valem o investimento. Murilo jamais volta para casa de mãos vazias, mas com um extenso receituário que avia na farmácia onde já tem conta antiga. Embora se sinta constantemente doente, também convalesce contente, pois está sempre a um passo da cura, em estado pós-operatório ou experimentando revolucionário tratamento. 
 
Pois foi assim que, satisfeito, saiu do consultório do otorrinolaringologista, com operação agendada para correção de desvio no septo-nasal; da sala do ofalmo, com a prescrição de cirurgia para retirada de um pterígio. Depois de ser atendido por renomado cirurgião torácico com habilitação em videotoracoscopia, fez uma simpatectomia, para dar fim à terrível hiperhidrose. E dessa forma vem acumulando dezenas de pequenas e grandes cirurgias, livrando-se de incômodos catarros, remelas e suores.
 
Há no mercado, claro, alguns profissionais que nem se lixam para o juramento de Hipócrates, e Murilo esbarrou com um deles: um proctologista negligente, que se recusou a reexaminá-lo pela quarta vez, tentando convencê-lo de que ele não tinha um raro tumor na próstata. Vá bancar o Napoleão derrotado diante de um psiquiatra! – gritou-lhe, enfezado, o antiético, não lhe dando tempo de dizer que já se consultara com um doutor da alma, não só uma, mas dezenas de vezes. Tomava religiosamente as suas drágeas para transtornos diversos, anorexia nervosa, síndrome do pânico, distúrbio obsessivo-compulsivo. 
 
Quando, já tendo se tratado em quase todas as especialidades, ficava cético quanto à medicina tradicional, partia para os tratamentos alternativos, holísticos. Lia publicações científicas e paracientíficas, fazia dietas exóticas que ora consistiam em comer abundantemente certo alimento, ora em bani-lo, para tratar um mesmo mal. Certa vez, aderiu à auto-hemoterapia, que consiste em se retirar sangue da veia e injetá-lo no músculo. Por essa ocasião, teve uma infecção gravíssima, que para seu doloroso gozo, manteve-o 30 dias na UTI e quase o levou a óbito.
 
 Escapando por pouco, pegou mais leve. Experimentou a terapia de beber a própria urina. Quando, porém, começou a comer as próprias fezes, a mulher abandonou-o, ela que aceitara engravidar uma quarta vez, para que ele pudesse congelar o cordão umbilical do feto. Dele seriam retiradas as células-tronco que em futuro breve iriam salvá-lo do terrível tumor que se desenvolve em sua coluna.
 
Abandonado pela esposa, começou a sentir dores lancinantes no peito. Consultou-se com um renomado cardiologista, que diagnosticou ali uma má-formação. Eis que então Murilo acaba de sair do hospital com um coração novinho em folha, músculo de um moço de 25 anos. Teve, naturalmente, que consumir algo de sua fortuna subornando o corpo clínico, para furar a fila de transplantes. Mal recebeu alta e já tratou de visitar afamado urologista, que ouvindo suas queixas sobre flacidez, indisposição e impotência, sugeriu-lhe nova mudança em sua anatomia, dessa vez mais radical. Murilo terá, pois, a chance de viver, numa mesma encarnação, mais de uma vida, como pessoa novinha em folha. 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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