Goiânia – Recentemente me recordei do texto de um monge budista – apenas suponho que seja de um monge e budista, pois não consegui localizá-lo, por mais que tenha utilizado os mecanismos de busca da internet – que dizia: “se você reclama que não tem tempo, é porque tem desejos demais”. Ou terei ouvido isso numa cena do desenho Kung Fu Panda?
De fato, o tempo é o mesmo, os dias têm a mesma duração para todos, mas a necessidade que nutrimos de fazer caber tanta coisa neles, o desejo de estar aqui e simultaneamente ali, ou de nos deslocar de um lugar a outro rapidamente, de realizar as múltiplas tarefas que assumimos é que faz com que ele pareça escasso. Podem argumentar que essa é mesmo a dinâmica da vida moderna, principalmente nas grandes cidades, onde o trânsito rouba grande parte do nosso tempo e o mercado de trabalho é cada vez mais competitivo e exigente.
Creio que isso contribui para nossa noção de escassez. Mas além de cultivarmos uma profusão de desejos, eles são demasiadamente diversificados e muitas vezes contraditórios. Mulheres, por exemplo, pretendem-se não raro supermulheres. Desejam ser tudo: profissionais bem-sucedidas, mães zelosas, amantes fogosas, mantendo corpos magros, perfeitos e vigorosos. Querem sair da sala de parto, amamentar e já exibir as formas invejáveis de uma capa de revista. Ora, os seios caídos são apenas um pequeno tributo às delícias da amamentação e da maternidade. Mas o nosso imenso e insaciável estômago feminino não sabe disso. E acrescentamos as próteses de silicone e as lipoesculturas às nossas listas de necessidades básicas.
Do mesmo modo, homens e mulheres aspiram de um lado a relações estáveis, seguras, nas quais possam cuidar e ser cuidados, que consigam manter até envelhecer juntinhos, mas ao mesmo tempo desejam que elas sejam repletas dos estremecimentos da paixão inerentes aos primórdios da conquista. E assim criam as experiências e combinações amorosas mais esdrúxulas e incoerentes, triângulos, polígonos, corações fechados e pernas arreganhados. Tantos desejos e tão inconciliáveis. “De um lado, a sedução das sensações; de outro, a saudade dos sentimentos”, como fala o psicanalista Jurandir Freire Costa em seu livro ‘Sem Fraude Nem Favor – Estudos sobre o Amor Romântico’.
Como diz também Zeca Baleiro a canção não por acaso chamada Desejo:
“Você faz planos, planeja
Deseja, o desejo sangra
Quer uma casa em angra
Quer carro, ipad, família
Filhos na universidade
(…)
Porque nenhum bem lhe basta
E a falta, a falta, a falta
A falta, sua vida devasta
E a falta nossa vida devasta. E sangramos. Há tantas coisas que precisamos ter: uma casa maior, um carro mais novo e mais potente, roupas mais caras e mais bonitas, vinhos raros, iguarias, viagens para a Conchinchina. A publicidade não só aguça os desejos que tínhamos como a todo momento cria novos. Introjeta e consagra em nós o hedonismo, já tão característico de nossa época e cultura. Na falta da transcendência, de utopias políticas, de crenças religiosas, acreditamos que a satisfação de nossos desejos é um direito nosso, a ser gozado desvairadamente na vida tão breve e única:
“Você quer rezar, mas para quem?
Se os deuses estão mortos
Não há mais divindade, ritos”
De repente perdemos nossa capacidade de fazer escolhas e nos vemos agindo todos como meninos mimados, frustrados, contrariados por não termos nossas pequenas e grandes vontades satisfeitas, por não obter o mais moderno brinquedo, o nosso iPad 5. E seguimos corroídos por uma fome que já não sabemos de que, por uma ansiedade que parece não ter tratamento. Como Zeca Baleiro conclui em sua canção:
“E pra dor que rói a carne tesa sob a pele fina
Não há um só remédio em toda medicina”