Goiânia
– Setenta pessoas foram atendidas pela Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO) na primeira edição do projeto Escuta Quilombo, ocorrida no sábado (4/12). Realizado em Abadia de Goiás, o projeto teve como público-chave as pessoas pertencentes à comunidade quilombola Recantos Dourados. A equipe da DPE-GO também visitou algumas residências, em conjunto com os defensores públicos federais Cláudio Luiz dos Santos e Carlos Eduardo Paz, a fim de dialogar e conhecer a realidade dessa comunidade in loco.“Essa primeira etapa do projeto Escuta Quilombo é o contato inicial com as comunidades quilombolas, com as lideranças locais e com o poder público também, no sentido de aproximar as comunidades quilombolas da rede de atendimento do poder público em relação a efetivação dos seus direitos fundamentais, que muitas vezes os quilombolas desconhecem em razão da omissão estatal histórica”, argumenta.
Esse foi o caso da família de dona Maria Rosa da Silva, 65 anos. Mãe de sete filhos, teve dois deles registrados de forma incorreta. “Eu tinha não tinha muita leitura, né, era analfabeta, e não percebi”, explica. Na Certidão de Nascimento de Maria Helena da Silva, 47 anos, e Divino Eterno Honório, 44 anos, a grafia de seu nome foi escrita de forma equivocada como Rosa Maria.
Maria Helena comenta que durante toda a vida ao preencher cadastros ou informar seus dados era obrigada a lembrar o nome errado da mãe, além disso o novo documento representará o reconhecimento de sua filiação. “Vai ser muito importante porque perante a justiça nós não somos filhos dela, e os outros irmãos sim. Então, vai ficar mais fácil com essa regularização. Eu sempre tive vontade de regularizar e nunca tive oportunidade”, expõe.
São direitos previstos no Estatuto da Igualdade Racial e em outros atos normativos e que demandam um trabalho a ser realizado a longo prazo, em especial com o aprofundamento do diálogo com o Poder Público e da efetivação de políticas públicas adequadas.
Delimitação
A comunidade Recantos Dourados é certificada pela Fundação Palmares, mas ainda não houve a finalização e publicação do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), etapa obrigatória do processo de titulação das terras quilombolas. “Então, essa presença da Defensoria Pública da União foi muito importante porque educou em direitos a comunidade e fortaleceu a necessidade de novos encontros para que essa comunidade tenha seu território efetivamente delimitado”, pontua Salomão Neto.
Ela continua: "Então, essa ação de ter a Defensoria Pública aqui no nosso território, atendendo essa gente que nem sabe de seus direitos, que estão lá escondidas, sofrendo, passando só Deus sabe o que e precisando tanto de ações afirmativas e positivas como essa, e de repente você vê essa oportunidade… você ter ela nos seus seios, no seu ventre, junto com seu povo, com a sua gente que precisa, simplesmente não tenho palavras pra definir".
Orientações jurídicas
Ademais, o curto espaço de tempo para o atendimento ocorrido no último sábado, em virtude do transporte oferecido pela Prefeitura de Abadia de Goiás (das 8 até cerca de 10h30) demonstrou a necessidade de um novo momento para atender essas pessoas, a fim de trabalhar de modo mais aprofundado seus casos.