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Crime sem Castigo

17.07.2017 - 09:09:00
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Goiânia – Crime e Castigo, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, é um dos maiores romances da literatura mundial e certamente uma pedra angular para Woody Allen erigir uma de suas grandes pérolas: Crimes e Pecados (1989). O existencialismo presente na obra mencionada e a admiração do diretor pelo genial Ingmar Bergman foram preponderantes para Allen tecer um cinema que flerta com um de seus ídolos, gerando alguns similares como Interiores (1978) e A Outra (1988). Para não ser rotulado ou para tentar fugir do estigma de ser lembrado somente como um diretor de comédias, Allen aventurou-se em um terreno sinuoso com o objetivo de perpassar fronteiras e galgar novas perspectivas. O mote do romance de Dostoiévski pode ser, nitidamente, sentido neste belo filme. Sven Nykvist, diretor de fotografia habitual em filmes de Bergman, realiza um magnífico trabalho e corrobora as obsessões de Allen com o cinema do diretor sueco.
 
Na referida obra literária, o personagem Raskólnikov, um estudante que vive em um pequeno apartamento alugado, vive em precárias condições e ganha a vida realizando pequenas traduções com enorme dificuldade em cumprir suas obrigações relacionadas ao pagamento do aluguel. Seu comportamento introspectivo e neurótico imiscuído a momentos ociosos o leva a formular uma teoria de que, se César ou Napoleão, responsáveis por milhares de assassinatos, foram absolvidos pela história e considerados conquistadores ou heróis, ele, oprimido pela locatária, também poderia cometer assassinato e colocar um ponto final em suas angústias. Woody Allen utilizou-se desta temática ainda em Match Point (2005) e O Sonho de Cassandra (2007), formando uma espécie de trilogia não oficial.
 
O tom pessimista do longa permeia a obra e versa sobre adultério, fornicação, assassinato, mentiras e os comportamentos mais avarentos dos seres humanos. Um retrato ácido e desesperançoso ante a condição humana.
 
Duas histórias paralelas compõem e se convergem, magistralmente, durante a projeção. De um lado, há Judah Rosenthal (Martin Landau), um oftalmologista muito bem apessoado que circula na alta sociedade e visto com bons olhos, mas que esbanja as mais abjetas condutas e cuja traição à sua esposa é uma constante em sua vida. De outro, Cliff Stern (Woody Allen), um cineasta idealista que se recusa a entrar no esquema para alcançar o sucesso a qualquer preço e que também luta contra a tentação enquanto produz um novo filme.
 
As cortinas são abertas no início do longa e o expectador é transposto para uma cerimônia suntuosa, em que os participantes estão trajados com a mais elegante indumentária para uma célebre homenagem a Judah por seus préstimos à sociedade, mas logo esta hipocrisia e falsidade são reveladas e demonstram que elas imperam neste meio, é possível aludir a Luis Buñuel em sua mordaz crítica em relação aos costumes burgueses e ao seu jogo de aparências em que os relacionamentos não se sustentam em um fio condutor de ética e de uma relação estável e duradoura. O oftalmologista e o cineasta padecem deste mesmo mal.
 
A estabilidade de Judah é posta em xeque quando Dolores Paley (Angelica Huston), sua amante, ventila a possibilidade de trazer à tona suas infidelidades e suas falcatruas. Angustiado, ele conta e ouve conselhos sensatos do rabino Bem, seu paciente, e os maus por parte de Jack (Jerry Orbach), um irmão gângster, que se oferece para silenciar sua amante. Judah opta por ouvir os conselhos de seu familiar e encomenda o assassinato da amante. A fagulha de sua formação religiosa vem à tona, visto que nada escapa aos olhos de Deus, e deflagra uma cena maravilhosa em que ele é transportado no tempo e volta à sua casa onde vivera de onde irrompe um diálogo primoroso envolvendo questões filosóficas e morais entre seus familiares. Ele passa a ser atormentado pelo ato cometido.
 
Cliff demonstra o seu apreço ao trabalho do professor Louis Levy (Martin S. Bergmann), um intelectual brilhante em suas ideias abordadas, e representa uma dicotomia entre o trabalho anódino de seu cunhado Lester (Alan Alda), que apesar de ser um produtor de sucesso, não importa a mínima para a qualidade de seus programas, além de possuir um comportamento megalômano, mulherengo e extremamente boçal. Cliff se vê em uma encruzilhada diante da impossibilidade de criar um trabalho enobrecedor e é levado a produzir um filme sobre seu cunhado. Durante a produção, Cliff e Lester conhecem Halley Reed e se apaixonam, sendo que o primeiro decide se separar de sua esposa. Há uma sintonia incrível entre a verve cômica de Allen e a sobriedade dramática em que a melancolia e a desesperança são predominantes, bem como uma irrepreensível encenação de todo o elenco. Os ecos de uma terrível injustiça provocam uma sensação de que há crime sem castigo.
 
Apesar do pessimismo que o filme reflete, há um discurso final proferido pelo professor Levy que mantém a chama da esperança por dias melhores acesa: “Somos todos confrontados ao longo de nossas vidas com decisões agonizantes, escolhas morais. Algumas são em grande escala, a maioria é sobre pontos menores. Mas nós nos definimos pelas escolhas que fizemos.
 
Somos, na verdade, a soma total de nossas escolhas. Acontecimentos se desdobram de maneira tão imprevisível, tão injusta. A felicidade não parece ter sido incluída no design da criação. Somos apenas nós, com nossa capacidade para amar, que damos sentido ao universo indiferente. E mesmo assim, a maioria dos seres humanos parecer ter a habilidade de continuar tentando e inclusive encontrar alegria nas coisas simples, com suas famílias, seu trabalho, e na esperança de que gerações futuras possam compreender mais.”
 

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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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