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Conversando com Glacy Antunes de Oliveira

11.03.2021 - 21:19:56
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Em 1976, a pianista e camerista Glacy Antunes de Oliveira (1943) iniciou sua carreira acadêmica como professora da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás (EMAC/UFG). Nesta Instituição fez, anteriormente, os Cursos de Bacharelado e Licenciatura em Música (Habilitação Piano). É Livre Docente e Doutora. 
 
Dentre outros tantos cargos administrativos assumidos de 1999 a 2007, ocupou o posto de “Diretora” da EMAC/UFG. E, logo na sequência, aposentou-se como Professora Titular. Todavia, continuou atuando como professora Colaboradora do Corpo Docente do Mestrado em Música daquela Unidade de Ensino. 
 
Recebeu, em 2019, o título de Professora Emérita, proposto pela Escola de Música e Artes Cênicas e outorgado pelo egrégio Conselho Universitário da UFG. Atualmente, preside a Associação Música & Cena Brasil, com sedes em Goiânia e Curitiba.
 
A Professora Glacy Antunes de Oliveira é minha convidada, nesta coluna, para uma conversa sobre sua trajetória no campo musical, entre outros assuntos.
 

Professores Edward Madureira (Reitor) e Glacy Antunes de Oliveira
Solenidade de entrega do título de Professora Emérita da UFG (2019)

 

Othaniel Alcântara: De que forma a música entrou na vida da senhora? Quando e como aconteceu o contato formal com a música?
 
Glacy Antunes: Sempre ouvimos muita música em casa. Meu pai tocava piano para cinema mudo; exímio pianista amador. Com ele ouvia polcas e valsas no estilo Chiquinha Gonzaga. Minha mãe tinha vasta coleção de LPs; com ela ouvi Cristina Maristany, Paul Robeson, Sonatas de Câmara de Rossini. Nasci em Goiânia, mas moramos um período em São Paulo, quando fiz Jardim de Infância no Colégio Batista das Perdizes (1948) e lá tive o primeiro contato com o piano.
 
Othaniel: E quais foram os (as) primeiros (as) professores (as) de piano da senhora?
 
Glacy: A família retornou à Goiânia e tive aulas com tia Amélia (Amélia Brandão Nery), fascinante gênio do teclado, mas que, à época, tinha uma carreira nacional e viajava muito. Minha mãe, muito zelosa, procurou uma professora de grandes resultados, Dona Hebe do Couto Alvarenga, tia de Dona Belkiss. Com ela aprendi muito! Participei de inúmeros recitais. Já tocava de memória as Seis Sonatinas de Clementi quando Dona Hebe me encaminhou para Dona Belkiss.
 
Othaniel: A senhora chegou a estudar no antigo Conservatório Goiano de Música? 
 
Glacy: Estudei, sim, no antigo Conservatório Goiano de Música, mas por pouco tempo.
 
Othaniel: Em nível de Graduação, a senhora fez inicialmente o Bacharelado em Piano, entre os anos de 1967 e 1971. Depois a senhora fez a Licenciatura em Educação Musical, entre 1971 e 1974. Ou seja, a senhora presenciou o surgimento do Instituto de Artes, em 1968, instituição que substituiu o Conservatório de Música da UFG (fundado em 1960). Na opinião da senhora, essa nova configuração, desta feita, ao lado da Faculdade de Artes, foi positiva ou negativa para o crescimento da atual EMAC?
 
Glacy: São fatos temporais os quais, se bem analisados, trazem algumas constatações: a fusão das duas escolas previa o estabelecimento de um Centro de Artes na UFG, como o modelo da Escola de Comunicações e Artes da USP. Isso não aconteceu e a convivência das duas áreas de conhecimento, apesar dos pontos de convergência e do bom relacionamento entre os docentes, revelou-se difícil pela diferença de necessidades práticas – espaços específicos, principalmente a necessidade de crescimento de cada área, orçamento e verbas próprias, exclusivas.
 
Othaniel: A senhora fez duas especializações na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A primeira, “Performance Pianística”, entre 1972 e 1973. A segunda, “Pedagogia da Performance Instrumental”, entre 1974 e 1977. Em resumo, como foram essas duas experiências?
 
Glacy: Experiências únicas, excelentes! A oportunidade de estudar na mais antiga e tradicional Escola de Música do país, o conhecer e receber conhecimentos de personalidades como, por exemplo, os Maestros José Siqueira e Rafael Batista, a Professora Historiadora Henriqueta Rosa Fernandes Braga, as Professoras Maria Luiza Priolli, de Teoria Musical e Andrely Paola Quintella, de Harmonia.
 
Importantíssima para minha formação como pianista, um privilégio foram as aulas com o Professor, grande pianista, Heitor Alimonda. Concepção musical apurada, conhecimento profundo das técnicas de virtuosidade pianística, saber histórico cultural, domínio da didática e, mesmo com tudo isso, afável, educado, despretensioso.
 

Foto: arquivo pessoal de Glacy Antunes de Oliveira 
Data: cerca de 40 anos atrás

 

 
Glacy Antunes de Oliveira (1984)
Fonte: Revista Goiana de Artes, 5(1): 113-132, jan./jun. 1984

 

Othaniel: Contextualizando minha próxima pergunta, quando o Lyceu de Goyaz foi transferido para Goiânia, em 1937, o professor de música daquela instituição de ensino era o violinista, compositor e maestro Joaquim Édison de Camargo. Na nova Capital, de acordo com o musicólogo Braz de Pina (2002, p. 20), Joaquim Édison “desenvolveu em Goiânia um trabalho musical dentro dos moldes de Vila Boa. Logo de início, montou um conjunto instrumental e coral (…)”. Pergunta: A senhora conheceu Joaquim Édison de Camargo (1900-1966)?
 
Glacy: Sim, conheci muito bem o Professor Joaquim Édison, enquanto meu professor, no Liceu de Goiânia [antigo Lyceu de Goyaz], onde cursei o ginásio. Ali fui pianista do “Orfeon”, criado e dirigido por ele, que reunia alunos de todas as turmas, aos sábados, no Auditório do Colégio. Não me recordo de uma orquestra, mas de alunos que tocavam algum instrumento para os quais o Maestro fazia arranjos como acompanhamento do Coro. Cantávamos canções de Goiás – Noites Goianas, Balada Goiana, outras modinhas brasileiras e italianas e, também, lindas canções de autoria dele mesmo, como Saudade (vídeo abaixo).
 
 
Música: Saudade
Tango composto pelo Prof. Joaquim Édison de Camargo (1900-1966),
para canto e piano, com orquestração de Fernando Cupertino.
Orquestra Sinfônica de Goiânia, dirigida pelo maestro Eliseu Ferreira.

Algumas das composições de Joaquim Edison de Camargo foram gravadas em vários LPs – Canções de Minha Terra e outros – por sua filha a notável cantora goiana, Ely Camargo.
 

Lista de obras musicais do compositor Joaquim Edison de Camargo: immub.org
 

Joaquim Édison dava aulas de música e, muitas vezes, queria que os alunos entendessem um pouco de escrita musical. Sempre fazia perguntas que os alunos não sabiam responder como: “ (…) O que significa esta figura??” (Era uma semínima, por exemplo). E quando o aluno respondia qualquer bobagem, ele sempre dizia: “ (…) isso na sua música, porque na minha, que é música de verdade, isso é uma semínima…”.
 
Lembro-me de que ele tinha sempre nas mãos uma caixinha de metal, não me lembro se de óculos ou menor, na qual percutia, com um diapasão, os ritmos que escrevia no quadro negro. Professor Joaquim Edison, muito magro, elegante, tinha um bigodinho bem aparado, sempre de terno, gravata. 
 

Joaquim Édison de Camargo (1900-1966)
Gravura: Amaury Menezes

 
 
Othaniel: Outro músico importante para o campo da música orquestral goianiense foi Érico Pieper. Até o momento, muito pouco foi escrito sobre esse pianista e maestro. A senhora chegou a conhecer esse músico?
 
Glacy: Conheci Érico Pieper de longe. Com ele não tive convivência próxima; eu era muito jovem para participar dos cafés-concerto do restaurante “Bamboo”, na rua seis, Centro. Mas lá estive várias vezes, em companhia da minha prima Indiara Artiaga, de linda voz, onde ouvi Heloísa e Honorina Barra, Ivan Matos, entre outros. Também estive várias vezes na Rádio Clube de Goiânia para assistir aos programas musicais com os melhores artistas da época.

 


 Érico Pieper 
(Final dos anos 1940 ou década de 1950)

 

Othaniel: A historiografia musical goiana registra que Érico Pieper foi o responsável pela mudança do violinista Crundwald Costa (Prof. Costinha) da cidade de Franca/SP para Goiânia, em 1945. Sei que vocês foram colegas de trabalho no Instituto de Artes (atual EMAC/UFG). E como a senhora sabe, eu fui aluno dele por vários anos. Gostaria que a senhora falasse um pouco sobre esse personagem.
 
Glacy: O Professor Costinha conheci muito bem! Figura encantadora, educadíssimo, excelente afinador de pianos, além de suas atividades como professor e violinista. Com ele vivemos na UFG uma ocasião incomum quando ele e seu filho Antônio fizeram vestibular juntos! 

Inusitado, pois o Professor Costinha já tinha uma excelente classe de violinistas, regia Orquestras, fazia Música de Câmara, mas lhe faltava um diploma para ser professor na Universidade. Daí a coragem de prestar um vestibular junto com o filho, moço, também violinista. Que alegria, quando o resultado positivo chegou!

Entendo que a vaidade não fazia parte da personalidade de Crundwald Costa e espero que o tempo traga a valorização correta deste excepcional ser humano, cujas ações foram fundamentais para a trajetória da música de Goiás.

 


Crundwald Costa – Professor Costinha

(1916-2002)

 

Othaniel: Sei que a senhora, além do piano, também estudou oboé. Em que ano e por qual motivo a senhora resolveu se “aventurar” com um instrumento de sopro?
 
Glacy: Não escolhi o oboé. Quando D. Belkiss e o Maestro Jean Douliez criaram a Orquestra Feminina de Goiás (1959), cada aluna recebeu a responsabilidade de estudar um instrumento de orquestra. A mim coube, então, o oboé, de cujo som gostei imensamente! Mas as palhetas, trabalhosas e imprevisíveis, logo me fizeram desistir…
 
Othaniel: E o Maestro Jean Douliez, como ele era como músico? E como pessoa?
 
Glacy: Conheci bem o Maestro Douliez enquanto ainda era aluna do Conservatório Goiano de Música. Músico de alta qualidade, tocava vários instrumentos, com foco no violino. Era muito educado e sempre disposto a trabalhar mais. 
 
Fiz com ele aulas de Música de Câmara e pertenci à célebre Orquestra Sinfônica Feminina, como oboísta – melhor dizendo, na tentativa de tocar oboé. Todas as integrantes da Orquestra éramos alunas de piano e começamos a aprender a tocar outros instrumentos, o que quase nunca deu muito certo.

 

Jean François Douliez (1903-1987)
Fonte: Dissertação de Mestrado – Marcia Terezinha Brunatto Bittencourt

 
O Maestro Douliez tinha muitos amigos, não só entre os músicos, mas também entre a intelectualidade goiana, dos quais destaco Gilberto Mendonça Telles e Sérgio Paulo Moreyra. Bem diferente das outras Professoras do Conservatório, Douliez era boêmio, gostava da noite! Ouvíamos sempre falar de mais de uma namorada (…). Mais tarde, regressou à Bélgica, onde se casou com uma ex-aluna bem mais nova do que ele.

 

Glacy Antunes e Othaniel Alcântara
Foto: arquivo pessoal de Glacy Antunes de Oliveira

 

Na próxima coluna será apresentada mais uma parte da entrevista com a Professora Glacy Antunes de Oliveira, na qual mais relatos sobre o Maestro Jean Douliez serão acrescentados. Além disso, será abordado o período no qual a prestigiada pianista se aventurou a tocar oboé na Orquestra Sinfônica Feminina de Goiás, fundada em 1959.

REFERÊNCIAS:

Bittencourt, Marcia Terezinha Brunatto. A presença de Jean François Douliez na música em Goiás (pdf), Goiânia, 2008. 101 p. Dissertação de Mestrado – Escola de Música e Artes Cênicas, Universidade Federal de Goiás.

Pina (Filho), Braz Wilson Pompeu. Memória Musical de Goiânia. Goiânia: Kelps, 2002.

 

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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