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20.09.2012 - 10:03:30
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Goiânia – Confesso: não posso ver um sapato ou chinelo com solado pra cima, que trato logo de desvirá-lo. Como qualquer bicho medroso sobre a face dessa Terra cada vez mais virada do avesso e como dona de uma casa cada vez mais desorganizada, tenho cá minhas superstições. 

Mas o que me diverte é ver que, com a internet, surgiu uma nova categoria de supersticiosos: os virtuais. Supersticiosos, crédulos e maníacos de modo geral, gente que até passa tranquilamente sob uma escada, que encara um gato preto corajosamente, sem persignar-se, mas que reenvia todas as correntes que lhe passam por e-mail, como se uma maldição terrível pudesse realmente sobrevir se rompesse a cadeia.

Uma colega de trabalho, cuja identidade preferi resguardar – não é, Maria? – confessou-me, confiando no sigilo da fonte, que quando recebe um e-mail corrente, nem costuma abri-lo, pois se o lê, é tomada toda de uma tremura nas mãos, uma compulsão de movimentos, que a faz imediatamente encaminhá-lo para todos os seus contatos, receosa de que frágeis vínculos de amizade se rompam ou que algum castigo horrendo se abata sobre ela. (Aproveito a oportunidade para pedir que me retire de sua lista. Sem prejuízo de nossa amizade, claro).

 
Para nossa sorte, as correntes, que foram febre durante um tempo, deram certa trégua. Muitas são curiosamente místicas. Se você as reenviar para cinquenta amigos, receberá uma notícia maravilhosa dentro de cinco minutos, ao passo que se quebrar o poderoso elo, será surpreendido por uma grande tragédia. Junto, seguem exemplos de milagres e relatos ameaçadores.
 
Há também as que prometem, sabe-se lá por que mecanismos complexos e incompreensíveis de rastreamento, render dinheiro que salvará pessoas com doenças gravíssimas. Cada vez que certo e-mail for reenviado, mais uma grana entrará na conta de não sei quem, não sei como. Nunca vi uma notícia real de que alguém tenha sido salvo por essa boa-fé virtual, mas muitas vezes já ouvi falar de gente que teve o computador hackeado ou a conta bancária faxinada. 
 
Talvez as pessoas agora, mais familiarizadas com a internet, já não dediquem tanto tempo a esses e-mails ou talvez utilizem, para reproduzir suas superstições, novos meios: as redes sociais, por exemplo.
 
Compreendo a necessidade que temos de uma fé religiosa, mas me chamam a atenção em especial aqueles que, diariamente, rezam pelo Facebook. Há quem todos os dias, religiosamente, escreva orações, agradecimentos por cada graça alcançada, professando a sua fé aos quatro ventos e aos mil sites. 
 
Intenções messiânicas à parte, às vezes essas postagens parecem transpirar um temor medieval, como se seus autores receassem provocar a ira de um Deus muito vigilante e vaidoso, que não só se enfurece de ser renegado pelos homens, mas por não ser mencionado em todos os posts.   “Mas qualquer que me negar diante dos homens, eu o negarei também diante de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 10, 33).  Não bastando ao Criador ser onisciente e onipresente, sabendo o que se passa na reserva de nossos pensamentos, usaria poderosos mecanismos de busca. Acompanharia quantas menções a seu santo nome são feitas por cada usuário das redes sociais, números que serão contabilizados no dia do Julgamento.
 
Às vezes essa compulsão parece se avizinhar da loucura, como um dos personagens citados por Machado de Assis, em O alienista: “Garcia, que não dizia nada, porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus”.
 
As palavras têm sim uma força demiúrgica, de tal forma que muitos necessitam reafirmar todos os dias como estão felizes, como têm sorte, repetindo uma espécie de mantra. Faz sentido. Uma mentira repetida mil vezes se transforma em verdade. Se você escrever centenas de vezes que é rico, bonito e feliz, o universo irá conspirar ao seu favor e tudo isso irá se tornar repentinamente real – nos ensinam todos os muitos manuais de autoajuda.
 
Não basta você estar ciente de suas próprias qualidades ou sentimentos, é preciso alardeá-los, como se tratasse de algo singular, e principalmente incitar outros a fazê-lo, recorrendo à pressão da culpa. “Se fosse uma foto de mulher pelada ou gente morta, todo mundo compartilharia. Mas como é uma oração…”. “Ninguém nunca escreveu aqui que ama seu irmão. Se você ama seu irmão, compartilhe isso”. Oi? Desde quando declarar o amor pelo irmão é algo extraordinário? Queria ver era alguém escrever algo verdadeiramente inusitado. “Eu odeio meu chefe. Se você também odeia seu chefe, compartilhe.” “Ponho chifre no meu marido. Se você também põe no seu…” Aí sim, o homem morderia o cachorro e cairia o mundo.  
 
Antes que me acusem de ser adepta da Grande Intolerância, reafirmo aqui que celebro a liberdade de cada um curtir e compartilhar o que bem entender. Só me incomoda o fato de que muitos desses conteúdos apelam para a chantagem emocional, impõem o nivelamento das opiniões e o aniquilamento do senso crítico, fomentando uma gigante indústria de consciências pesadas, arrependimentos e de culpas; patrocinando espetáculos de otimismo ingênuo e de falsas felicidades; promovendo a credulidade infantil e, paradoxalmente, a desconfiança neurótica.
 
Pois nas redes sociais como em toda a internet, grassam as mensagens que apelam para a credulidade das pessoas, sua carência, medo e neuroses.  “Se você não colar no Facebook um texto dizendo que não autoriza o uso de suas informações pessoais, fotos etc, uma grande máquina maligna vai se apropriar delas”.
 
 A propósito, compartilhe este texto com cinquenta amigos nos próximos cinco minutos ou… absolutamente nada irá lhe acontecer. Nenhum golpe fatal do destino irá atingi-lo. No máximo eu, apenas eu, terei recebido mais um leve soco em minha já tão nocauteada autoestima, o que não será sequer um pequeno milagre.
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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