Todo mundo tem um chato para chamar de seu. Aquele cara que só faz gracinhas sem graça, brincadeiras bobas, papo inconveniente, que fica te cutucando quando quer falar, abraça todo mundo sem motivo, fica melando nas pessoas. Enfim, um chato. No caso, o seu chato.
E quando o chato é nosso o jeito é respirar fundo e aguentar. Porque amigo é amigo, mesmo quando é amigo chato. E até o chato tem suas qualidades – poucas, convenhamos – já que a chatura se sobrepõe a todas as demais. Mas é preciso tolerar o chato, pelo menos o seu chato.
Já no caso do chato alheio – o verdadeiro chato de galocha – qualquer espécie de tolerância vai às favas. O chato de galocha não tem noção de tempo, hora ou lugar. Ele é chato em tempo integral. Nasceu chato, cresceu chato, virou um adulto chato.
O chato de galocha era aquela criança insuportável do jardim de infância que você encontrou outro dia e percebeu que não tinha mudado nadinha. Ou melhor, a chatura ficou amplificada, foi sendo delapidada no decorrer dos anos. O menino chatinho virou um verdadeiro mala sem alça, o próprio chato de galocha. Era seu destino ser chato. E o seu, o de sair correndo o mais rápido dele.
Em geral o verdadeiro chato de galocha anda solitário. Mas jamais permanece solitário, já que o melhor que ele faz na vida é atazanar todo mundo que cruza seu caminho. No bar, por exemplo, o chato de galocha chega sozinho, pega uma mesa, em geral muito bem localizada e se senta. Só o tempo suficiente para ele tomar umas e ficar de pilequinho, e claro, ficar ainda mais chato.
Ai o chato de galocha começa a atacar. Conhecido ou desconhecidos, ele atira sua metralhadora de chatices para todos os lados. E sempre têm uns bonzinhos que caem como patos e não conseguem se desvencilhar do chato. Morro de pena desses bonzinhos, com aquela cara de quem gostaria de ser resgatado em alto mar, mas não aparece nenhum bote salva-vidas. E ficam lá aturando o chato. Sem nenhuma esperança de salvação.
O chato de galocha sabe como levar alguém à loucura. O chato de galocha vai no ponto fraco do interlocutor. O chato de galocha gosta de conversar bem de pertinho, de preferência pegando em você. E gritando no seu ouvido. Porque o verdadeiro chato de galocha só fala uns 30 decibéis acima do tolerável.
Afinal, esse é o papel dele, chatear o máximo de pessoas possíveis, de todas as maneiras possíveis. Dizia o Cazuza, que não há perdão para os chatos. Concordo totalmente.