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Caminhe, caminhe, continue a caminhar

08.07.2014 - 15:24:54
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(Foto: Rimene Amaral)
Goiânia – Se você algum dia deixou o carro em casa e seguiu a pé até a padaria do seu bairro ou quem sabe um pouco mais longe, deve ter se surpreendido ao ver uma nova cidade que até tal momento desconhecia total ou ao menos parcialmente.

Então aquelas árvores, muros, portões sempre estiveram ali e você não os via quando passava célere, filtrando  tudo pelo parabrisas? Mover-se amparado apenas nas próprias pernas e pés, e olhar sem outras lentes que não a própria córnea permitem muitas vezes enxergar o mundo de uma outra perspectiva. 

De certo modo, ao caminhar, revivo-me infante. Colando o rosto ao chão e fingindo transformar-me na diminuta boneca com que, paradoxalmente, brincava de ser gente crescida, via as minúsculas plantas transformadas em gigantescas árvores de floresta,  as poças de água em brilhantes  e profundos lagos, e os modestos amontoados de terra  em descomunais montanhas mágicas.

Caminhar nos apequena e consequentemente nos humaniza. Pés afundados no acelerador do cotidiano;  olhos concentrados nos parachoques dos outros que seguem sempre adiante e que precisam ser ultrapassados a qualquer custo; mãos crentes que estão no controle da direção; em cada vez mais raras ocasiões nos damos conta de nossa pequenez e fragilidade, de que muito, muitíssimo pouco está mesmo sob nosso controle.

Repentinamente, quando não nos sustentamos sobre as próprias pernas e convalescemos; subitamente, quando alguém próximo de nós bate os calcanhares e parte para a terra dos pés juntos, apeamos de nossa automatismo e desarrazoada autoconfiança, e nos percebemos menos condutores do que conduzidos, reles pedestres marionetes.

Recentemente, fiz pela primeira vez a tradicional caminhada de 18km até Trindade durante o período da festa religiosa que se realiza todos os anos. Segui de Goiânia até lá com um grupo que há uma década participa da romaria.  

Logo na saída da cidade, no início da noite,  em horário de intenso tráfego, em meio à fumaça dos escapamentos, faróis, buzinas, a angústia apressada dos que têm a muito perder, dos que têm prazos a cumprir, senti-me estranhamente alheia e tranquila, uma estrangeira e visitante em minha própria cidade.

Já notou que quando viajamos, principalmente para metrópoles, nos sentimos confortavelmente privilegiados, observando os moradores enlouquecidos em seus cotidianos, horários, obrigações, enquanto vagamos ou nos sentamos comodamente como observadores, sem ter outro compromisso senão a contemplação de tudo que nos parece tão estranho e novo? 

Não resisti, naquele momento de partida, a pensar que devem se sentir assim os mortos, se seus espíritos passeiam entre nós. Devem nos observar a todos, absorvidos em nossas loucuras, em nossos miúdos e ordinários dramas que nos parecem tão grandiosos e incomuns, e murmurar: "tolos!".

Por que então é que nós, enquanto vivos,  perdemos essa capacidade de contemplação, estranhamento e fruição? Por que não  caminhamos pela cidade em que moramos e não conseguimos enxergá-la com os mesmos olhos surpresos e desbravadores com que olhamos a cidades que visitamos?

Somos capazes de viver anos em um lugar, sem jamais ter percorrido toda extensão de nossa rua a pé. Se nos mudarmos dali e nos pedirem para descrever como eram as casas, prédios e árvores que havia nos arredores, certamente não saberemos dizer. Só alcançamos perceber e explorar quando estamos em férias? Teremos então que aguardar o definitivo recesso?

Durante o percurso, por aquela estrada pela qual tantas vezes já trafegara de carro,  procurei reparar atentamente no que havia em torno. Tentei ouvi a multiplicidade de vozes, observei toda sorte de seres,  expressões de sentimentos e desejos, surtimento de histórias.  

Muitos faziam o trajeto como se estivessem em um divertido passeio, em uma maratona esportiva, em uma animada festa,  parando a cada estação da Via Sacra para produzir selfies e imediatamente postar nas redes sociais. Em uma das paradas, um rapaz fotografava a vela acesa. 

Havia também, no extremo oposto ao da alegria e da euforia, quem exibisse no rosto marcas gritantes de dor, de gratidão, esperança e fé. Conversei com alguns sobre suas histórias, sobre os motivos que os levavam a estar ali.  Uma mãe fazia a caminhada na esperançosa prece de iluminar o túnel de prostração e abatimento em que o filho tinha ingressado assim que se formara na universidade.  

Um casal apaixonado dava graças naquele dia por um ano de namoro. Eles haviam se conhecido exatamente ali no início da caminhada havia doze meses e só tinham começado a conversar porque, ao final do percurso,  exausta, ela se sentara no único lugar vago nas escadarias da basílica em Trindade, justamente ao lado dele.

Ao longo do trajeto notei os chamativos apelos da vida mundana: os muitos comércios, as barracas de comes e bebes, os motéis com seus nomes repletos de estrangeirismos, os hotéis que se pretendiam familiares ostentando na fachada um crucifixo,  as chácaras lúgubres e com ar  mal assombrado, onde plácidos cavalos e vacas pastavam, e aquele  terno sobradinho pintado de azul por fora e de vermelho por dentro. Através da janela do segundo andar dava para assistir  a  um velhinho de cabeça branca sentado em um sofá, ele que por sua vez também assistia, indiferente, à nossa passagem.

Por que afinal passávamos por aquele caminho? – decerto ele indagava. O que pretendem alcançar no fim das contas todos os romeiros, todos os peregrinos? Naturalmente que eu ali estava porque tinha promessas a pagar, benesses a agradecer, pedidos a fazer, mas estava ali sobretudo porque, como Forrest Gump, desejava sair correndo a toda velocidade para deixar para trás a dor, essa que insiste em nos alcançar, em nos apunhalar pelas costas, em nos meter as esporas; a dor do afeto não correspondido, da amizade e do amor traídos, da ausência daqueles que partiram antes da gente e antes que a gente os tivesse amado suficientemente; a angústia de não conseguir realizar as nossas aspirações mais profundas; a dor inerente à própria vida.

Estava ali porque, na impotência de, como Forrest, fugir correndo pelo continente por três anos seguidos,  já havia tentado também  um outro tipo de corrida, a disputa contra o tempo, a tentativa vã de controle do destino. Corra, Lola, corra…  Como ela, já corri. Mas cada vez que mudava uma atitude, para alcançar determinado fim, outras peças se moviam, outros seres com que cruzava pelo caminho também mudavam  pequenos gestos, e como todas as vidas e ações humanas estão de tal forma intrincadas,  eu sempre obtinha um resultado diferente do previsto.

Eu estava ali, portanto, a caminhar porque mesmo resistindo a seguir junto a manadas, na irmandade dos rebanhos, sentia-me perdida e por algumas horas ao menos necessitava juntar-me aos meus iguais, aos que estivessem igualmente à procura, que fossem também caminhantes. O mundo anda afinal tão cheio de pessoas apressadas, na aparência ao menos tão sabedoras de suas metas de chegada, capazes de se teletransportar até seus bem delimitados objetivos, que nosso sentimento de inadequação, de não pertencimento e errância se agrava.

Se você, porém como eu, não é daqueles que já nasceram sabendo para que vieram ao mundo, não conseguindo traçar metas e objetivos assim tão claros, saberá entender bem a metáfora daquela caminhada. Com ela, eu não esperava ganhar nenhum tipo de recompensa celeste, mas talvez apenas alcançar a graça de aprender a caminhar atentamente, sorvendo cada pequeno trecho e ínfimo detalhe do caminho.

Eu caminhava e continuo a fazê-lo, porque, como no desenho animado Procurando Nemo, o peixe palhaço, exausto e desanimado, quando não sabe que rumo tomar para encontrar seu filho, recebe a única e mais sensata orientação possível da desorientada Dory: "continue a nadar, continue a nadar". Caminhemos então, continuemos a caminhar. 

 
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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