Goiânia – Quem ainda não foi, está perdendo. Woody Allen volta em plena forma com o ótimo Blue Jasmine, com a exuberante Kate Blanchett no papel título. Ninguém melhor do que Kate para personificar Jasmine, uma mulher linda, frívola, casada com um bilionário golpista, que de um dia para o outro se vê sem marido, casa, joias, amigos e o glamour de uma vida abastada.
Mesmo sem nenhuma perspectiva de vida, Jasmine não perde seu ar de soberba e superioridade em relação aos demais mortais – mesmo por aqueles que sobraram para lhe estender a mão e lhe dar um teto para morar. Na sua visão distorcida, essas pessoas são perdedores e ela uma pobre vítima, sem nenhuma responsabilidade sobre os acontecimentos que a deixaram apenas com uma mala Louis Vuitton, um casaquinho Chanel e um colapso nervoso.
É notório que Woody não tem nenhuma simpatia pela personagem que criou. Ela é patética em todos os sentidos e nas duas situações – a da riqueza e da pobreza. Uma pessoa sem qualquer conexão consigo mesma ou com o mundo à sua volta.
Genial como é, Woody não fez um filme para dar lições de moral. Foge da fórmula fácil de como o ser humano é capaz de dar a volta por cima em situações adversas, uma das máximas dos roteiros hollywoodianos. No alto dos seus mais de 70 anos, o cineasta de Nova York vê as coisas como realmente são, sem filtros ou desculpas para seus personagens. E aí reside toda sua força e a beleza de Blue Jasmine.
Não há perdão, nem esperança ou compaixão para aqueles que – como dizia Cazuza – estão no mundo, mas perderam a viagem.
Blues da Piedade
*Jornalista