Logo

Barracos, carapuças, luvas e versos

01.11.2012 - 10:40:27
WhatsAppFacebookLinkedInX


Goiânia – O bom e velho barraco consiste em promover uma discussão sobre assuntos de interesse privado em local preferencialmente público, esparramar-se e não se deixar juntar, elevando o tom de voz para desabar em palavras de baixo calão.
 
Convencionou-se dizer que nós, mulheres, somos as mais barraqueiras. Ciumentas e competitivas por natureza, volta e meia acabaríamos enredadas em bate-bocas de lavadeira quando o assunto “meu homem” estivesse envolvido.
 
Esquece-se a convenção, porém, de perceber que as brigas de homens, no trânsito, nos estádios, nos bares e boates, nada mais são do que barracos legítimos. Ou será que chegar as vias de fato goza de diferente status só porque se trata de conduta masculina? Constituem por acaso questão de honra os chiliques dos meninos?
 
Injustiça maior se considerarmos que nos quebra-paus femininos não se costuma quebrar nada além de algumas unhas postiças e se arrancar alguns tufos de aplique, ao passo que os masculinos acabam muitas vezes em quebradeira de narizes, queixos e costelas, quando não nas delegacias ou nos gavetões do IML.
 
O fato é que nos tempos de novas tecnologias pode-se descer do salto, chutar o pau da barraca, rodar a baiana, de modo seguro. Os e-mails, os blogs, as redes sociais estão aí para isso, para que se possa enfiar o dedo no olho sem tirá-lo do teclado. 
 
Dos arranca-rabos de família aos arranca-chifres dos casais, das namoradas enciumadas que difamam as rivais com alcunhas animais aos ex-amantes vingativos que publicam as imagens de suas ex-amadas, registradas quando no exibicionismo inconsequente da paixão elas se deixaram fotografar ninfas nuas, tornando-se agora umas piranhas e vacas peladas, tudo são barracos, virtuais, mas nem por isso menos ruidosos, espalhafatosos e doloridos.
 
A internet, aliás, se democratizou o exibicionismo na felicidade, também o fez com as situações de raiva e sofrimento.  O barraco nunca foi tão democrático. Ninguém mais quer discutir a relação reservadamente. Preciso mudar rapidamente meu status de relacionamento nas redes e promover um debate sobre o término de minha relação com B. Ninguém mais quer sofrer quietinho no seu canto. Promovo grandes eventos de desespero e convido todos os meus amigos a comparecer à minha dor. Em troca, recebo apoio e solidariedade, como presentes ofertados sob o fino embrulho das frases.
 
Por sorte, em tempos de escândalos diários na política, os barracos virtuais, assim como os reais, são esquecidos rapidamente. A maioria não tem conseqüências. Uns poucos desandam em processos por calúnia e difamação. O Brasil já não se escandaliza. Nada mais nos faz corar. Elegemos até musas para nossas CPIs. 
 
Restam, portanto, passado pouquíssimo tempo do bate-boca, do diz-que-me-diz, além de algumas feridas na autoestima, um vago sentimento de vergonha rondando os envolvidos. Vago, mas ainda assim uma mancha no grande telhado de vidro do ciberespaço que um dia pode ser evocada.  Diferente dos reais, que muito raramente são filmados ou fotografados, barracos virtuais deixam rastros. Por mais que, esvaída a raiva, possamos dar um delete, há sempre algum ser vigilante por aí a dar um print screen nas tolices que postamos.
 
Como todos em algum momento da vida estamos sujeitos a rompantes de ira e destempero,  precisamos redobrar os cuidados com algumas situações. Eu por exemplo, toda vez que bebo, costumo orar: “Pai, afasta de mim esse cálice e esse celular, exatamente nessa ordem”. Outra alternativa é, não podendo a gente conter a vontade de mandar um recado àquele desafeto, em vez de partir para a ofensa direta, recorrer às indiretas, às antigas carapuças ou aos tapas com luva de pelica. E a vantagem é que as carapuças nas redes sociais principalmente são unissex e tamanho único, vestem dos minúsculos e machucados egos aos mais megalomaníacos. O risco é a gente mirar no que quer e acertar no que não quer, angariar novos desafetos, tocando-lhes a ferida, provocar a ira de um desses paranoicos que acham que tudo é com eles. Na dúvida, façamos versos, que são inofensivos: um modo de voar contra a corrente, sem topar de frente com toda gente.  
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

Postagens Relacionadas
Projetor
24.02.2026
Talvez

Já falei em outros artigos sobre a dificuldade de opinar toda semana. Há motivos pessoais e questões culturais envolvidas nisso. Em termos pessoais, tenho opiniões duras a depender do assunto. De forma geral, entretanto, é a dúvida que me guia. São características enraizadas em toda uma história de vida das quais não se pode escapar. […]

Noite e Dia
23.02.2026
Posse solene de desembargadora do TJGO reúne autoridades em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A solenidade de posse da desembargadora Laura Maria Ferreira Bueno foi realizada na última sexta-feira (20), no Plenário Desembargador Homero Sabino de Freitas, na sede do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), em Goiânia. Sob a condução do chefe do Poder Judiciário estadual, desembargador Leandro Crispim, a cerimônia cotou […]

Curadoria Afetiva
22.02.2026
Cerradim e um Jardim

A ideia de formatar o evento “Cerradim” partiu do desdobramento do “Projeto Goianins”, realizado ano passado, com oficinas criativas para crianças típicas e atípicas, cujo resultado dos trabalhos artísticos foram projetados nas paredes dos muros dos moradores da rua do entorno do Jardim Potrich. A idealização desse espaço multicultural sempre esteve vinculada a duas principais […]

Joias do Centro
20.02.2026
Feira Dom Bosco: raízes, tradição e trabalho na região central de Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Antes mesmo de o sol firmar presença no céu de Goiânia, as ruas do Setor Oeste já começam a ganhar outro ritmo. O cheiro de fruta cortada, o peso das caixas descarregadas ainda na madrugada e as primeiras conversas entre fregueses antigos anunciam que é dia de feira. Às terças e […]

Noite e Dia
20.02.2026
Exposição de Maria Clara Curti abre temporada 2026 da Vila Cultural Cora Coralina; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu o calendário de exposições 2026 nesta quinta-feira (19/2), com a exposição “Aquilo que fica e outros fantasmas”, primeira individual de Maria Clara Curti. A produção multifacetada desdobra temas como o luto e a simbolização da perda, as impressões da memória no corpo, tensões intersubjetivas […]

Noite e Dia
18.02.2026
Goiânia recebe 42ª edição do Congresso Espírita de Goiás; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Nem só de folia foi feito o Carnaval deste ano. A Federação Espírita do Estado de Goiás (Feego) realizou entre sábado (14) e segunda-feira (16), o 42º Congresso Espírita de Goiás. O evento foi realizado no Teatro Rio Vermelho (Centro de Convenções) e com o tema “Jesus e Kardec para os […]

Projetor
17.02.2026
Uma Cartografia de Influências

Os livros e os filmes nos moldam. Se eu tivesse que desenhar um mapa daquilo que me move, talvez bastasse alinhar em sequência as obras que mais me marcaram: elas formam uma espécie de autobiografia indireta, feita menos de fatos e mais de obsessões. Com Sherlock Holmes, aprendi que o mistério não é sinônimo de […]

Noite e Dia
16.02.2026
Goianienses aproveitam sábado de carnaval com muito samba; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Os goianienses aproveitaram o sábado de carnaval (14/2) no Centro da cidade. Com programação especial, o Quintal do Jajá recebeu os foliões com apresentação do DJ Ferrá, Ricardo Coutinho e Gabriela Assunção. A festa continua nesta segunda-feira (16), com show de Grace Venturini e Banda, às 18h. Na terça-feira (17), com […]