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Bariani Ortencio e os espaços de memória no Brasil Central

10.01.2016 - 16:19:03
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Ao Wolney Unes e à Alice Martins, com quem aprendo muito sobre as tantas dobras e desdobras de possibilidades e(m) sentidos
 
 
Goiânia – “Como todo discurso”, diz José Horta Nunes, “o dicionário tem uma história, ele constrói e atualiza uma memória, reproduz e desloca sentidos”. 
 
A isso poderíamos acrescentar: os dicionários nos mantêm em fio(s) de conexão e pertencimento com aquilo de familiar que vivenciamos e que não está ali simplesmente para ser “consultado”, mas — talvez essencialmente — para ser (re)(entre)aberto algum dia, qualquer dia, hoje, ontem, sempre. Espaços de discursos, contradiscursos, de partilhas…
 
São, em toada-qual, possíveis (re)encontros com a cultura, aquela nossa “totalidade complexa” a que Jean-Pierre Warnier vincula a imagem da bússola — “que indica um norte” e nos possibilita “acionar referências, esquemas de ação e comunicação”, remetendo às formas organizar as famílias e os mais variados grupos; às concepções ligadas ao corpo, à saúde, à doença; aos modos de fazer, escolher e recusar, de estar e pertencer, dizer e silenciar na vida.
 
Essa ideia de “cultura-bússola” que necessita estar distante da prevalência besta de um tipo de “capital cultural” sobre outro(s), aquela concepção de dicionário para bem-além de suas etimologias e o meu reencontro-hoje com uma das bonitas obras-para-toda-uma-vida de Bariani Ortencio — eis o que me faz amanhecer domingo e mais domingos em querença de revisitar tais dobras e desdobras do Brasil Central (não apenas perscrutadas como, aqui-no-caso), experimentadas durante mais de quarenta anos pelo autor, escritor e folclorista, conhecedor e divulgador de um vasto repertório de expressões, maneiras de agir e interagir, de ouvir e registrar contando causo, curando-curandeirando, fazendo sabor e história das coisas nossas, do Brasil Central.  
 

Tive a honra de participar da equipe que, após dois anos de extensa pesquisa e prosa direta com Bariani, trouxe a público a 2ª edição do Dicionário do Brasil Central (ICBC, 2009). E que edição!, pois-fico sempre em tentações de redizer — ampliada em cerca de 6 mil definições, atenta às nuanças todas dos mais de 9 mil verbetes, com projeto gráfico de “não deixar a farinha por menos”, de tão refinado e alinhado com a concepção essencial da obra, de-com o agrado e a participação bonita do autor. 
 
Integradas a esta reedição do Dicionário do Brasil Central e com ela também articuladas graficamente, a 3ª edição da Medicina Popular do Centro-Oeste e a 8ª da Cozinha Goiana compuseram, como a gente bem sabe, a trilogia que foi premiada como uma das oito vencedoras do 28º Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, promovido pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em 2015. 
 

É coisa, sim, de dar gosto-além…
 
E no que venho pensando de há algum tempo… Isso de a gente ter a possibilidade de, vontadeando, esbarrar de novo em conceitos, reabrir expressões, perpetrar imaginaturas infinitas sobre aquilo que pulsa ou pulsou algum dia e que merece ser borbotado de reminiscências, não quedando silêncios nem esquecimentos sobre os falares das gentes, as nossas complexidades, até os desencontros e desvios, nossas formas de sentir, nomear, produzir e contraproduzir…
 
Nossos espaços de memória, de coletividades…! Que precisam sempre ser repensados a partir de… de… de quem-mesmo? Pois-ora: de quem simplesmente experimenta, segue na peleja de produzir, de ver e enredar com e sobre, na peleja de existir.
 
É esta, por exemplo, a deliciúra mais interessante que bem-agora me re(conecta) à ideia das dobras (de Deleuze e Guattari), ainda que de passagem. Uma ideia, aliás, que se esparrama em linhas provisórias, por investigar a perder de vista, mas com força de fazer querer e pertencer. Coisa de significar e interpretar, como talvez mesmo em toada-toda de dicionário, mas, para além, em cadência de experimentar, ir cozinhando em fogo brando, levando adiante com argúcia de vivedor-cultivador a exemplo do que foi fazendo Bariani ao longo da vida… 
 
E então assim a gente vai criando novas dobras — eis a bem-mais esperança. Dobras em desdobramentos, afinal, das formas miríades de olhar, com que ver e ser visto no entrelugar de uma vasta-vasta-vasta-cultura, como a que temos e que está ainda aqui, conosco, e a gente em fluidez infinita de se tornar… e explorar… e ficar de abrir caminhos para olhares e sempre olhares… Ah, o nosso Brasil Central!

 

 

 
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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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