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Bala na Cabeça

31.07.2017 - 09:30:15
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Goiânia – Uma das grandes obras de John Woo, diretor expoente do cinema chinês e que alcançou voos em Hollywood, Bala na Cabeça (1990) pode ser entendido como uma resposta ou um complemento para O Franco Atirador (1978), um dos melhores trabalhos do genial Michael Cimino, falecido no ano passado. A repercussão de sua obra ganharia o ocidente com o lançamento de Alvo Duplo (1986), que gerou duas continuações, sendo a última delas realizada pelo mestre Tsui Hark, pedra angular do cinema asiático.
 
A narrativa circunda a vida de Ben (Tony Leung), Paul (Waise Lee) e Frank (Jacky Cheung), três amigos que anseiam por melhores condições de vida e, para tanto, decidem partir para longe de Hong Kong durante a década de 60. É firmado um pacto de lealdade, mas cuja entrada do dinheiro irá deflagrar atitudes que irá corroer a bela amizade existente entre eles – o niilismo é gritante -. Os laços de amizade são o ponto primordial da obra de Woo e remonta a outros mestres como John Milius, que abordou este tema de modo superlativo como nos inesquecíveis Amargo Reencontro (1978) ou Bravos Guerreiros (1997).
 
A película se inicia com uma atmosfera leve e aos poucos ganha contornos tensos, dramáticos, em que as cicatrizes emocionais inerentes ao abjeto conflito instaurado no Vietnã são expostas e a amizade do trio é posta em xeque constantemente. Não há como sobreviver intacto aos horrores vivenciados durante a guerra, o comportamento é corrompido e, neste sentido, há como traçar um paralelo em relação à degradação do personagem Travis Bickle (Robert De Niro), em Taxi Driver (1976). 
 
O cotidiano do trio é retratado por meio do relacionamento das personagens com seus familiares em meio a paupérrima comunidade em que vivem. Ben está prestes a se casar, mas, sem um vintém no bolso, consegue o auxílio de Frank, por meio de um empréstimo com um agiota. No trajeto para casa, sofre um assalto comandado pela gangue de Ringo (Yee Tin-Hung), mas consegue se esquivar munido da grana, apesar de graves ferimentos. Ben opta por postergar a noite de núpcias para depois e com o amigo arquiteta um plano de vingança, o que acarreta a morte do patife. 
 
Paul, com sua insatisfação em relação à pobreza inerente a eles, junta-se aos amigos e partem em busca de uma vida melhor em Saigon, o coração da guerra, e acabam em uma espiral sem fim após o envolvimento com Luke (Simon Yam), um matador de aluguel, que possui ligações com a CIA e que realiza pequenos trabalhos para Mr. Leong (Lam Chung), um mafioso, assim como quando Ben apaixona-se por uma de suas prostitutas.
 
John Woo não economiza em cenas de tiroteio como já havia realizado em obras pregressas. Elas são realizadas com uma desenvoltura ímpar e é impraticável não reconhecer a assinatura do mestre durante a projeção. Pode parecer um devaneio, mas associar esta película à canção Bullet in the Head, da banda Rage Against the Machine, surgida um ano após o lançamento da obra de John Woo, parece-me tangível, visto a fúria e a autoralidade contida em ambas, uma espécie de mola propulsora que conduz à liberdade criativa em detrimento ao padrão pré-estabelecido; assim como a banda, o cineasta também desfere um duro golpe no establishment.
 
Não há limites que balizam a obra de Woo, cujas características são mananciais abundantes de inspiração a diretores como Quentin Tarantino, ou aos irmãos Coen. A contundente desobediência ao sistema vigente – mesmo em Hollywood com o estupendo A Outra Face (1997) – em prol de uma identidade são uma tônica constante na filmografia do diretor. É possível afirmar que nenhum outro cineasta filma cenas de ação imiscuídas em intensas pinceladas que exalam uma alta carga emocional como John Woo, o que acarreta uma impossibilidade de se ficar indiferente a elas, culminando em um clímax acachapante que jamais poderá ser olvidado. 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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