
Goiânia – Toda a arte é autobiográfica, a pérola é autobiografia da ostra, disse certa vez Federico Fellini. Extrair histórias pessoais é uma ótima fonte para provocar a criação artística e é o fio condutor para o roteiro traçado para a película As Duas Irenes (2017), grata surpresa do diretor goiano debutante Fábio Meira, que se inspirou em um episódio de sua vida familiar. O ponto de partida para a narrativa se dá após a descoberta de Irene (Priscila Bittencourt), uma adolescente de 13 anos, cuja educação pauta-se por uma rigidez intrínseca a uma família tradicional provinciana, sobre uma vida dupla de seu pai (Marco Ricca). Ele tem um relacionamento com outra mulher (Inês Peixoto) e possui uma filha de mesma idade e com o mesmo nome, interpretada por Isabela Torres.
A primeira Irene tem outras duas irmãs, uma mais nova e outra mais velha. Enquanto o foco e as atenções estão destinados às duas irmãs, Irene meio que se encontra deslocada no seio familiar e se identifica mais com a empregada Madalena (Teuda Bara) do que com a própria mãe, Mirinha (Suzana Ribeiro). Ela opta por se aproximar de sua meia-irmã, filha única e que anseia por uma irmã, a quem possa trocar experiências e confidências para uma vida mais enriquecedora.
É neste contexto que os sentimentos fervilham e cujo rito de passagem e descobertas são retratados de modo sublime. As diferenças comportamentais entre as Irenes são visíveis e a ligação entre ambas cresce à medida que elas se conhecem. Enquanto a primeira demonstra-se acabrunhada e retraída, a segunda revela-se atilada, com os hormônios e a libido advindos da puberdade em polvorosa. Envolve-se com garotos, principalmente, em uma sala de cinema da cidade. Ainda se relaciona com inúmeros amigos e possui muito mais proximidade com a mãe.
Elas aproveitam o momento ocioso para tomar banho em cachoeiras, como quaisquer outras adolescentes, em um ambiente bucólico enquanto se aproveitam para flertar e conhecer novos garotos. A exuberante paisagem é fotografa por Daniela Cajías e, guardada as devidas proporções, remete a Jean-Claude Brisseau, sobretudo em uma passagem deslumbrante em Os Indigentes do Bom Deus (2000), visto que o plano é tão belo quanto uma pintura. Da perspectiva de dentro da bilheteria do cinema, em uma cena próximo ao fim do filme, há um enquadramento dos rostos das duas personagens do lado de fora, – uma por vez -, momento este que captura a imagem de cada uma, como se fosse uma lente cinematográfica a fim de emoldurar personalidades distintas, refletidas e espelhadas pela ausência paterna, e que, no fundo, são indissolúveis.