A engenharia civil sempre foi um campo dominado por homens, onde a presença feminina era vista como exceção, e não como parte essencial da profissão. Durante séculos, a construção das cidades foi desenvolvida por engenheiros que moldaram o futuro, enquanto as mulheres eram desencorajadas de seguir essa carreira. Mas esse cenário está mudando. Hoje, as engenheiras ocupam espaços, desafiando barreiras e provando que competência e talento não têm gênero.
No entanto, uma jornada para alcançar esse reconhecimento é árdua. Mesmo com o aumento da participação feminina na engenharia civil, a conquista de posições de liderança continua sendo um grande desafio. Diretorias, presidências de conselhos e associações p profissionais permanecem majoritariamente ocupados por homens, refletindo um sistema que impõe obstáculos as mulheres. Isso não acontece por falta de qualificação, mas sim por barreiras estruturais e culturais.
Quando uma engenheira almeja um cargo de destaque, enfrenta não apenas a concorrência, mas também a resistência velada e, por vezes, explícita do ambiente ao seu redor. Sua capacidade é frequentemente questionada antes mesmo de ser testada. Suas ideias, por mais bem fundamentadas que sejam, muitas vezes precisam ser reafirmadas várias vezes para considerar serem. Em reuniões, não é raro que suas sugestões sejam ignoradas até que um colega homem as repita. Nos canteiros de obras, são constantemente submetidas a testes desnecessários para provar que conheçam os processos e cálculos que já dominaram há muito tempo.
A intimidação masculina dentro da engenharia se manifesta de diversas formas. Alguns são suficientes, como a falta de inclusão em decisões estratégicas. Outras são explícitas, como o questionamento direto sobre sua autoridade, a resistência de subordinados em seguir suas instruções ou, até mesmo, o descrédito de sua experiência. Muitas engenheiras relatam a necessidade de serem constantemente firmes para impor respeito, mas sem ultrapassar a linha tênue entre "assertiva" e "autoritária".
Além dos desafios profissionais, há ainda dificuldades impostas pela vida pessoal. O mercado da construção civil exige flexibilidade, disponibilidade para viagens e jornadas extensas, o que torna a conciliação entre carreira e maternidade um dilema. A cultura empresarial, muitas vezes, representa a maternidade como um obstáculo para o crescimento profissional, reduzindo as oportunidades para mulheres que desejam equilibrar essas duas esferas da vida. Enquanto os homens são elogiados por sua dedicação exclusiva ao trabalho, as mulheres enfrentam a cobrança dupla de serem excelentes profissionais e, ao mesmo tempo, cumprem.
Os números confirmam essa desigualdade. Segundo dados do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (CONFEA, 2024), as mulheres representam apenas 20% dos profissionais registrados nos Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia (CREAs).
Em um universo de 1,1 milhão de engenheiros no Brasil, apenas 200 mil são mulheres. Quando se trata de cargas de liderança, essa porcentagem é ainda menor, revelando que o problema não está apenas no ingresso das mulheres na profissão, mas também na dificuldade de crescer e permanecer no setor.
Apesar disso, elas não se recuam. A cada desafio imposto, encontramos novas formas de superação. Com determinação, inteligência e resiliência, seguem conquistando espaços, rompendo barreiras e inspirando outras mulheres a fazerem o mesmo.
Sabemos que ainda há um longo caminho a percorrer, mas não deixamos nos abalar. Afinal, não se trata apenas de conquistar cargos ou reconhecimento – trata-se de transformar a engenharia civil em um setor mais justo, inclusivo, onde mulheres e homens têm a mesma oportunidade de crescer, liderar e inovar.
A sororidade feminina tem sido um dos pilares mais fortes na transformação da engenharia civil. Antes onde as mulheres lutavam individualmente por espaço e reconhecimento, hoje a realidade começa a mudar. Em vez de competição, há apoio; em vez de rivalidade, há parceria. As engenheiras entenderam que o verdadeiro avanço não acontece quando uma mulher conquista um espaço sozinha, mas quando todas se fortalecem mutuamente para transformar o setor em um ambiente mais igualitário.
Essa união se reflete no dia a dia. Em reuniões, validando ideias umas das outras, garantindo que suas vozes ou vidas sejam. Nos canteiros de obras, juntamente com conhecimento e experiência, ajudando-se a superar os desafios técnicos e culturais. Em redes profissionais, criam espaços de mentoria e apoio, mostrando que cada conquista individual pode abrir caminhos para muitas outras.
Hoje, mais do que nunca, sabemos que juntas somos mais fortes e temos um mesmo propósito: transformar a engenharia civil em um setor onde talento e competência sejam os únicos critérios para o sucesso.
E assim, tijolo por tijolo, projeto por projeto, as engenheiras continuam construindo um futuro em que talento, competência e dedicação sejam os únicos critérios que realmente importam.
*Ludmilla Couto é engenheira civil