Goiânia – O polêmico maestro holandês retornará ao Brasil no próximo mês de outubro (2014). Subirá ao palco com seu violino Stradivarius 1732, para o primeiro de sua nova temporada de shows em São Paulo, um dia após comemorar seu 65º aniversário. Há muito tempo divide o topo das paradas de sucesso com os grandes nomes do show business.
Em 2012, em uma de suas passagens por aqui, escreveu-se muito sobre seus grandiosos espetáculos de forte apelo visual. À época, calorosos debates se seguiram pelo mundo virtual após a publicação do texto “O Falsificador” escrito pelo compositor e colunista da Revista Concerto Leonardo Martinelli. Na opinião desse crítico, André Rieu é mais um produto da chamada “indústria cultural”. Opina ainda que, ao violar o repertório clássico, com arranjos digamos, simples e até grosseiros, a fim de deixa-lo mais atraente, acaba difundindo uma ideia falsificada da música de concerto.
Mas devo esclarecer que a opinião de Martinelli não é unanimidade no mundo erudito. Conceituados músicos como os maestros Leandro Oliveira e Roberto Tibiriçá, citados por João Luiz Sampaio (Blog/Estadão), também se manifestaram sobre o tema. O primeiro identifica um tom academicista nas críticas ao holandês enquanto o segundo afirma que “se é popularização ou não, não importa. O que importa é que as pessoas se sentem felizes e curtem ouvi-lo”.
Analisando por esse prisma, concordo com os renomados maestros. Na verdade, trata-se de um aspecto importante a se considerar. O artista é livre para explorar os diferentes nichos de mercado e o público, igualmente, livre para escolher suas preferências. E mais, a questão aqui não é dar mais ou menos importância para um determinado gênero musical. Particularmente, lembrando o compositor erudito Gilberto Mendes, gosto de desfrutar a alta cultura, que inclui também a cultura pop de qualidade.
Na verdade, gostaria de explorar o tema pelo seguinte viés: André Rieu é ou não é formador de público para a música clássica, gênero quem vem perdendo espaço no mercado cultural? Seu produtor Manoel Poladian, em entrevista realizada em 2012, diz que sim. Pra falar a verdade, eu discordo. Acredito que reduzir o repertório erudito a uma espécie de “pano de fundo” para seus grandiosos e popularescos espetáculos, não seja a solução. Obviamente estou excluindo desse contexto a música incidental, aquela criada exclusivamente para essa finalidade, como trilhas de filmes, música para balés, etc.
Em outra direção, lembra Carol Nogueira (Blog/Veja), esta mistura é uma prática adotada, principalmente nas últimas décadas, por algumas orquestras brasileiras, como ferramenta de aproximação do grande público. Eu mesmo, quando era violinista da Orquestra Filarmônica de Goiás, toquei muitas obras com elementos populares colocados no idioma sinfônico. Inclusive dividi o palco com vários artistas como os nordestinos Moraes Moreira e o já falecido Sivuca. Porém, acredito que exista uma sensível diferença nesse caso. Aqui, o resultado desta mistura, normalmente realizada de maneira bem elaborada, é colocado como o elemento principal do espetáculo (concerto).
Voltando ao nosso personagem principal, não podemos negar o fato de que André Rieu seja um crossover (mistura do erudito com o popular) de sucesso como o grego Yanni ou a violinista singapurense Vanessa-Mae. Considerando então seus mais de 30 milhões de discos vendidos, podemos apontá-lo como um fenômeno do entretenimento de massa. Agora, você pode imaginar em que estado de espírito fiquei após assistir ao vídeo abaixo.
André Rieu no programa de TV Domingão do Faustão tocando Ai se eu te pego de Michel Teló.
Tudo bem! Confesso que depois disso, fiz algumas piadas pelas redes sociais e até mesmo em sala de aula, provocando uma justificada reação de seus fãs. Certa vez, um amigo violinista residente em Anápolis/GO, que estará em São Paulo prestigiando seu ídolo no próximo mês, comentando uma de minhas postagens em tom de brincadeira, insinuou que eu teria inveja da “grana” do Rieu. Pensando bem, não seria sacrifício dividir o palco e principalmente a bilheteria com ele.
Terminando, deixo o pensamento do escritor, apresentador da BBC e comentarista cultural, o inglês Norman Lebrecht: “artistas como André Rieu, deveriam ser retirados do ranking dos mais vendidos do universo erudito”. E justifica: “artistas como ele não estariam criando um novo público para a música erudita e sim para um novo gênero”.
E você leitor, qual a sua opinião sobre a arte de André Rieu?