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Amargo Reencontro

23.10.2017 - 09:20:31
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Goiânia – A efemeridade da vida e as constantes modificações intrínsecas ao passar dos anos promovem marcas cruciais que selaram momentos idílicos, instantes que antes pareciam eternos, mas que, ao longo do tempo, deparam-se com a inevitabilidade das transformações. Tal assertiva vai ao encontro da máxima de Heráclito que afirma que a única coisa permanente na vida é a mudança. Este é o eixo que sustenta um dos mais estrondosos retratos alicerçados envolvendo a inexorável transitoriedade da vida e os laços de amizade em Amargo Reencontro (1978), do essencial John Milius.
 
O rito de passagem que envolve o trio de amigos é conduzido com extrema maestria pelo seu diretor e é possível estabelecer um elo com Amanhecer Violento (1984), um outro grande filme de Milius, em que a juventude é bruscamente interrompida pelo ignóbil conflito bélico, tal qual ocorre com os amigos em Amargo Reencontro, que se vem destituídos de seu paraíso em que se encontram para pegar altas ondas na praia da Califórnia. Os degraus da escada os conduzem a um templo sacrossanto em que a plenitude se converge em direção à imensidão azul. Esta interrupção da mocidade para o amadurecimento da vida adulta e o ingresso na guerra do Vietnã provocará uma série de mudanças em seus personagens.
 
Matt Johnson (Jan-Michael Vincent), Jack Barlow (William Katt) e Leroy Smith (Gary Busey) sustentam o arco da narrativa e permite desabrochar o talento inegável de Milius em demonstrar a sua poesia transcrita por cenas esplendorosas da paisagem e dos inseparáveis amigos envolta em uma melancolia impregnada de uma força retumbante, de uma vitalidade assombrosa que ressalta a magnitude de uma obra que perpassa gerações e sobrevive ao tempo. Há uma série de sentimentos que irrompem durante a trajetória daquelas vidas, desde os sonhos desfeitos ao baque de amadurecer em meio a um mundo frio e pragmático. 
 
Ao final, no famigerado reencontro após alguns anos, os amigos retornam ao seu templo, aquele que parecia hermético, mas que agora já não é mais o mesmo. As ruínas estão presentes e, como bem observou o crítico Bruno Andrade,“a entrada é agora interditada por tábuas que parecem ter sido arrancadas ou quebradas por surfistas e repostas inúmeras vezes, nesse momento o ângulo baixo parece expulsá-los do paraíso perdido”.Em contrapartida a lente cinematográfica de Milius parece querer combater esta dissolução e afirmar o classicismo no cinema, em uma alusão a John Ford e Howard Hawks, e a relevância de se perpetuar a memória, do resgate daquilo que parece perdido, mas que insiste em se constituir no presente e se perpetuar no futuro. A câmera de John Milius eterniza aquele paraíso e a amizade mesmo que o tempo insista em dissolvê-lo. O cinema se perpetua.
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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