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A Soldo do Diabo

30.10.2017 - 08:57:58
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Goiânia – A Soldo do Diabo (1957), a obra-prima de Jack Arnold, passa-se nos confins do Oeste, na fazenda Golden Empire comandada pelo magnata Virgil Renchler (Orson Welles), durante certa noite, há uma atrocidade cometida pelos seus capangas. Juan Martin (Joe Schneider), um trabalhador mexicano é espancado até a morte. Por uma fresta na janela, com os olhos estatelados, Jesus Cisneros (Martin Garralaga), um senhor amigo do trabalhador assassinado, assiste ao crime, mas não esboça, por receio, qualquer reação de defesa. Há gritos que ecoam e logo após a imagem é centrada em Skippy (Colleen Miller), a bela moçoila filha de Virgil, a quem, posteriormente, descobre-se estar apaixonada pelo trabalhador morto, o que não justifica, mas explica o ato espúrio do proprietário do local. 
 
Tal fato é levado ao conhecimento de Ben Sadler (Jeff Chandler), o xerife local. Esta denúncia serve como combustível para que o delegado, imbuído de sentimentos magnânimos, em uma espécie de herói hawksiano, que não demonstra qualquer fagulha de temor diante da necessidade de se averiguar e de se resolver sua missão. Todavia seu cárater o coloca em perigo, visto que ele está lidando com alguém extremamente influente e endinheirado. Ele poderia simplesmente ignorar o fato e seguir em frente, mas seu pulsante desejo de justiça é peremptório diante da tentativa de mácula dos poderosos; afinal, para eles pouco importa se uma vida de um imigrante mexicano foi tirada. 
 
No meio do caminho, a resistência à investigação se torna cada vez mais um empecilho ao xerife. A população de Spurline se vê refém do magnata e teme que a cidadela seja arruinada sem os negócios movidos pela fazenda de Virgil. Há uma tentativa de ludibriar o crime com uma desculpa de que a morte de Juan Martin tenha sido acidental. Skippy conta ao xerife que escutou barulhos suspeitos na noite em que Juan Martin foi assassinado e a investigação se afunila. À medida que avança, Sadler tem seu carro avariado em uma clara tentativa de seu extermínio. Posteriormente, o xerife é espancado por dois capangas de Virgil e arrastado pela cidade na parte traseira de um caminhão.
 
A concisão com que Jack Arnold arquiteta a obra remete a Budd Boetticher, e não deve nada a este mestre, principalmente quando se expõe somente o essencial, sem firulas ou nada que não seja importante à trama. Tudo é desenvolvido com uma extrema exatidão, buscando-se extrair aquilo que realmente interessa em um curto espaço de tempo, lição alicerçada na máxima de que o menos é mais, em que não há subterfúgios para se alongar a película, e sim uma economia precisa em que o que é posto em cada cena é fundamental ao andamento da narrativa. Poderia ser muito bem um dos grandes filmes do mestre Boettticher, mas é Jack Arnold demonstrando todo o seu brilhantismo sem perder sua assinatura.
 
Há um forte comentário social que acena a um tipo de fascismo proveniente de uma relação de vassalagem entre o mandachuva local e a população, numa clara resolução que demonstra que a submissão pode levar ao colapso de ideias e a um falseamento da verdade em nome de um possível equilíbrio, mas cuja barbaridade não pode ser relegada ao esquecimento. Mesmo que as bases sejam estremecidas, é fundamental que a justiça se sobreponha, doa a quem doer. É este o norte que conduz o xerife, o insaciável desejo de que a justiça não se importe com raça, credo ou classe social, mas que ela seja o esteio irrevogável, em que nada seja capaz de maculá-la, independente de quem seja. Ao final da projeção, a comunidade está ao seu lado.
 
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por Declieux Crispim

*Declieux Crispim é jornalista, cinéfilo inveterado, apreciador de música de qualidade e tudo o que se relaciona à arte.

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