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A música na corte do “Rei-Sol”

03.10.2019 - 18:09:47
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Othaniel Alcântara Jr.

Luís XIV (1638-1715) é frequentemente apresentado como o exemplo máximo do soberano absoluto. A “corte” do Rei-Sol foi algo único e o próprio monarca é considerado um fenômeno singular e exclusivo de seu tempo. Cabe lembrar que Luís subiu ao trono em 1643, com apenas 4 anos de idade e, assessorado pelo cardeal e primeiro-ministro Mazarin, soube utilizar não apenas o controle fiscal e militar de seus domínios, mas também criar uma eficiente “máquina de propaganda” governamental. Estratégias como essas tornaram possível a construção de uma valiosa imagem pública para o rei, transformando-o em um símbolo de glória e, acima de tudo, numa fiel representação de Deus na terra.
 

Evidentemente, entende-se aqui pelo termo “imagem” não apenas aquela como foi retratada, por exemplo, em pinturas e esculturas, mas também aquela carregada de sentido metafórico, projetada em poemas, peças teatrais, óperas, balés etc. Enfim, ocorreu um verdadeiro “marketing político” direcionado, em especial, à “dominação” das classes altas da França e que também despertou uma boa impressão nas cortes estrangeiras. (BURKE, 1994, pp. 13, 56 e 165; ELIAS, 1969, pp. 21 e 44; SCHWARCZ, 2000, p. 258).

Nesse cenário, destaca-se a junção da arte e do poder no processo de manipulação do imaginário (coletivo) simbólico. Particularmente relevante para este texto é conhecer o papel da música nessa conjuntura. Entretanto, é pertinente lembrar, antes de qualquer coisa, que no século XVII, as atividades musicais de grande porte eram possíveis apenas quando decorrentes de patrocínio. Se na Itália era comum o apoio dos mecenas da classe burguesa ou da Igreja, na França existia um único patrono, o rei.

 

Da esquerda para a direita:
O Cardeal Richelieu, Luís XIII, o Delfim (Futuro Luís XIV), Ana da Áustria e a duquesa de Chevreuse.

 

Particularmente na estrutura hierárquica da sociedade de corte do Rei-Sol, as equipes de artistas eram dirigidas por comitês de patrocinadores. Acerca disso, Peter Burke (1994, p. 70) esclarece que se pensarmos essa estrutura na forma de um organograma, no topo estaria Luís XIV “que intervinha eventualmente para encomendar determinadas obras (…)”. Imediatamente abaixo do monarca viria Jean-Baptiste Colbert (1619-1683), o ministro da economia que, por sua vez, era aconselhado por um representante de cada área artística, exceto a música. A área musical (incluindo o balé e a ópera) era controlada diretamente por Jean-Baptiste Lully (1632-1687).


Surintendant de la Musique du Roy
Ao fundo: um grupo de músicos da corte do Rei-Sol.

 

Peter Burke está falando, mais precisamente, do italiano Giovanni Battista Lulli (1632-1687) que, ao se transferir, ainda jovem, para a França, passou a ser chamado de Jean-Baptiste Lully. Este músico logo se tornou amigo do rei e, com o tempo, monopolizou o comando das atividades musicais em Versalhes (corte) e Paris (Ópera de Paris).

Clique aqui “Lully e o 'cajado' da morte”
para ler mais a respeito do mais importante compositor do Barroco francês.

A supramencionada amizade entre Lully e o Rei-Sol se originou, de forma inusitada, nos palcos, quando, por cerca de 30 vezes, dançaram juntos nos balés da corte (NUNES, 2015, p. 54). Sim! Luís XIV teve uma brilhante e extensa carreira de bailarino. O “projeto de performance do rei” havia sido iniciado em 1651, quando ele tinha 13 anos, e durou 20 anos, aproximadamente. (FRANKO, 2000, p. 82).

No entanto, costuma-se dizer que, de fato, a amizade entre os dois jovens teve origem durante os ensaios de Le ballet royal de la nuit, em 1653. Curiosamente, a alcunha de Rei-Sol surgiu também naquela ocasião, quando o monarca, aos 14 anos, fez o papel de Apolo – deus do sol na mitologia grega – que, em sua juventude, havia matado a gigantesca serpente Píton (NUNES, 2015, p. 107). Esta, supostamente, seria uma analogia às possíveis desordens e/ou aos inimigos da França.

Luís XIV com o figurino da personagem sol (Le Ballet de la nuit, 1653)
Fonte: Wikimedia Commons

 

Compartilhando da opinião do maestro Arcadio Minczuk, nota-se que as atividades musicais em Paris e Versalhes, sob a liderança musical e empresarial de Jean-Baptiste Lully, seguiu a linha de atuação política de seu amigo e soberano, ou seja, aquela de cunho absolutista (MINCZUK, 2014, pp. 16 e 17).

É sabido que, sob o comando de Lully, tanto a Banda1 Vingt-Quatre Violons du Roy em Versalhes, quanto a “Orquestra” da Académie Royale de Musique (criada em 1672; atual Opéra National de Paris) se tornaram os mais disciplinados e reconhecidos conjuntos musicais europeus daquele período (SPITZER e ZASLAW, 2004, p. 72).


Abaixo, os grandes eixos que sustentavam a produção artística na corte de Luís XIV em Versalhes:

1) Chambre (Câmara), formado por 2 grupos:

    – Les Petits Violons (Os pequenos violinos)
       Leia: 
Les Petits Violons  (postado em 16/09/2019)   
                                                  

    – Vingt-Quatre Violons du Roy (Os 24 Violinos do Rei)
        Leia: Os 24 Violinos do Rei (postado em 24/04/2019)
                                                                                             
2) La Grande Écurie
      Leia: La Grande Écurie – a música dos estábulos na França 
        (
postado em 02/10/2019)

3) Chapelle Royale (Capela Real)
 

______

NOTA:

1) Banda/Band/Bande: "Esse termo foi utilizado amplamente para designar as orquestras da corte de Luís XIV. É legado pela tradição de agrupamentos musicais que uniam instrumentos de diferentes características sonoras, chamados de bandes, as bandas […]. O vocábulo passou a representar a orquestra francesa no século XVII". (Prust, 2019, p. 22).

Leia também:


Os 24 Violinos do Rei (postado em 20/4/2019)

Les Petits Violons (postado em 16/9/2019)

La Grande Écurie (postado em 2/10/2019)

Lully e o "cajado" da morte (postado em 18/9/2019)

A família francesa do violino (postado em 9/3/2020).

“O que é uma orquestra?” (postado em 14/3/2019).   

Conjuntos pré-orquestrais (postado em 22/3/2019)
 

A “Orquestra” de Monteverdi (postado em 4/4/2019)

A batuta (postado em 23/5/2019) 

REFERÊNCIAS:


BURKE, Peter. A Fabricação do Rei: a construção da imagem pública de Luís XIVTradução, Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

ELIAS, Norbert. A Sociedade de Corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte. Tradução, Pedro Süssekind; prefácio, Roger Chartier. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
 
FRANKO, Mark. Inversões figurais do corpo dançante de Luís XIV. Tradução, Ana Teixeira e Marcelo Fernandes. Dança: Revista do Programa de Pós-Graduação em Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, v. 4, n. 1 pp. 76-95, jan./jun. 2015

MINCZUK, Arcadio. O contexto histórico, político e econômico de orquestras sinfônicas do Brasil. São Paulo, 2014. Tese (Doutorado). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

NUNES, Bruno Blois. As danças de corte francesa de Francisco I a Luís XIV: história e imagem. Pelotas/RS, 2015, 125p. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Pelotas.

Prust, M. T. Le roi des instruments : a constituição da família do violino da França e seus usos na corte de Luís XIV de 1653 a 1687 (Dissertação de mestrado). Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil, 2017.

SCHWARCZ, Lilia K. Moritz. A Fabricação do Rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Revista Antropológica, São Paulo, v. 43, n. 1, p. 257-261, 2000.

SPITZER, John; ZASLAW, Neal. The Birth of the Orchestra: history of an institution, 1650-1815. New York: Oxford University Press Inc., 2004.

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por Othaniel Alcântara

*Othaniel Alcântara é professor de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador integrado ao CESEM (Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical), vinculado à Universidade Nova de Lisboa. othaniel.alcantara@gmail.com

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