(Obs.: 4º movimento com as vozes solistas e o coral)
Indiscutivelmente, trata-se de uma verdadeira obra-prima, composta por um Beethoven já completamente surdo. Nela encontramos a genialidade de sua música somada a um dos mais expressivos apelos à paz e à fraternidade entre os povos, o poema “Ode à Alegria”, escrito por seu conterrâneo Friederich von Schiller (1759-1805). Para muitos melômanos, é algo mais do que música e, para a Unesco, um Patrimônio da Humanidade.
O fato é que Beethoven e sua última Sinfonia exerceram grande influência sobre seus sucessores. E mais, parece que também os assombraram. “Um pesadelo universal!” teria dito, certa vez, o compositor francês Claude Debussy (1862-1918). Sobre isso, Harold Schonberg, autor de “A Vida dos Grandes Compositores”, declarou que a Nona se transformou em um modelo contra o qual toda música teria que ser julgada. Aqui podemos citar o exemplo de Johannes Brahms (1833-1897), que iniciou sua Sinfonia nº1 em 1855 e depois esperou quase vinte anos para tomar coragem de terminá-la. Certa vez, cobrado pelos amigos indagou: “Você não tem ideia do que é ouvir atrás de si os passos de Beethoven?”.

Foto: Revista Concerto
Certo é que após a morte de Beethoven, coincidentemente, uma série de importantes compositores não terminaria uma décima obra do gênero; marca facilmente alcançada pelos sinfonistas que o precederam, como Haydn e Mozart, respectivamente com 104 e 41 obras do gênero. Fato perfeitamente justificável, pois o século XIX viu profundas mudanças quanto à maneira de encarar a música. Antes, composições efêmeras, descartáveis, com a função principal de entretenimento. A partir de Beethoven, frequentemente considerado como a ponte entre o Classicismo e o Romantismo, criações mais longas, expressivas, individuais e permanentes do repertório erudito.
Contudo, a partir de meados do século XIX essa coincidência acabou se transformando, para alguns, em tabu, forjando assim, a tal maldição. O fato é que dezenas de conhecidos compositores não chegariam ao místico número 9. Alguns exemplos: os alemães Félix Mendelssohn (1809-1847) com cinco sinfonias, Robert Schumann (1810-1856) com quatro, o supramencionado Johannes Brahms (1833-1897) também com quatro e o russo Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893) autor de sete obras do gênero (incluindo a Sinfonia Manfred).
Entrando de vez no campo das crendices, o exageradamente supersticioso compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951), já em 1913, analisando esses dados históricos, disse: “Parece-me que a Nona [de Beethoven] é o limite. Aquele que a quiser ultrapassar terá de partir (…). Aqueles que compuseram uma Nona Sinfonia chegaram perto demais do além”.
Um músico em especial embarcou nessa “fantasia” com muito entusiasmo, Gustav Mahler (1860-1911), considerado um dos maiores nomes da música de concerto, tanto como regente quanto como compositor. Dono de uma personalidade ímpar (merece uma coluna à parte) e protagonista de vários outros relatos envolvendo eventos sobrenaturais, tentou driblar a temida “maldição da nona sinfonia”. A história registra que ao terminar a sua nona obra sinfônica em 1909, ele simplesmente riscou o número nove e a publicou com o nome “Das Lied von der Erde” (ou, “A Canção da Terra”), começando um novo trabalho do gênero, completado em 1910.
“A Canção da Terra” de Gustav Mahler – Orquestra Filarmônica de Israel/Leonard Bernstein (1972)
Entretanto, ao terminar a obra intitulada por ele como Sinfonia nº 9 (na verdade, a décima) teria exclamado: “agora o perigo passou”. Mas, não foi bem assim. Morreu poucos meses depois, aos 50 anos, vítima de uma endocardite.
Finalizando, e espero, satisfazendo a curiosidade do leitor, muitos crédulos consideram o ano de 1953 como o fim da “maldição da nona sinfonia”. Foi quando o russo Dmitri Shostakovich (1906-1975) terminou a décima de suas quinze sinfonias.
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