Ontem o mundo ficou bem mais triste. Partiu tio Wandinho, o homem de sorriso largo, cabelos fartos e prateados e bom humor incomparáveis. Com o tio Wandinho morreu a criança dentro de mim e a minha infância.
Era ele que, no auge da febre dos patins, pegava sua moto 125 e puxava uma fila indiana de crianças e pré-adolescentes pelas ruas do Setor Marista. A gente agarrava na garupa da moto e ia alegre da vida com aquele doido sem juízo pilotando aquele trenzinho feliz.
Tio Wandinho era o homem dos apelidos. Eu era (e nunca deixarei de ser) a Samirinha. Meu pai o Árabe, minha irmã Juju Pereba e meu irmão Pedro Gralha. Tinha ainda a Criola (tia Angela), veinha (sua caçula Marcela), gordinha, (a filha Mariella). Talvez o mais engraçado tenha sido o apelido que deu para a governanta dos nossos vizinhos. Dona Vice – na verdade Vizitación – era uma espanhola franquista, que praticamente criou nossos amigos e era linha dura, duríssima. Virou Fedaputación. Sempre com amor, claro. Apelidava amigos e desconhecidos de maneira afetuosa. Era acima de tudo um gozador.
Um dos seus passatempos preferidos era encher o saco das pessoas. Na minha infância fui uma das vítimas preferidas das brincadeiras do tio Wandinho. Quando aos 9 ou 10 anos ganhei um relógio de Natal, ele, neuropediatra, arrumava tempo para me ligar 20 vezes por dia e perguntar: “Bia 130, que horas são?”. Eu ficava com ódio.
Ele também sempre me enganava quando eu – diariamente – ligava para sua casa – fomos vizinhos uma vida – para perguntar o que tinha de almoço. Gulosa, eu gostava de comparar o cardápio das duas casas e aí decidir aonde almoçaria. Como ele não era bobo nem nada, nessa hora inventava as maiores delícias – incluindo a sobremesa de banana que eu amava – para me enganar. E eu caía sempre.
Uma outra famosa dele é quando combinavam de ir para a chácara dos meus tios e Wandinho só para pegar o melhor quarto da casa – e matar meu pai de raiva – dirigia ida e volta 80 km pela manhã bem cedinho até a casa, arrumava a cama com lençol, trancava a porta e voltava para Goiânia. Assim quando meus pais chegavam alegres acreditando que eram os primeiros a escolher o quarto – eles encontravam o danado trancado. Coisas de Wandinho.
Wandinho era um figura. Era o boêmio que não sabia beber. Misturava qualquer coisa – até o uísque com Coca-Cola. Fingia que bebia, eu acho. E já adulta, ele sempre me pedia “um pito” quando me encontrava. Lá pelos 60 anos, Wandinho também realizou o sonho de virar motociclista. Encontrou logo sua turma, fez tatuagens, colocou a crioula na garupa e foi ser feliz. Fez outros trocentos amigos fiéis, mais uma turma, para agregar aos seus um milhão de amigos.
Ele também era um apaixonado por mulheres. Para ele o ideal de beleza feminina era uma gostosa de mini-saia de franjas e bota branca. Sua tara era bota branca. Sempre falava nisso com a boca cheia. Faltava salivar.
Não sei, mas pelo sorriso que ele tinha dentro do caixão – morreu dormindo – desconfio que o tio Wandinho uma hora dessas deve estar rodeado de mulheres gostosas – todas elas de mini-saia de franjas e botas brancas.