Goiânia – Nós sempre acreditamos. Quando acreditamos, é para o bem de vocês. Mentira. É para nosso próprio bem. Começa na infância. Quando papai diz que a gente é a menina mais bonita da família, da escola, da cidade, a gente acredita, porque não fica bem para uma menina bonita desacreditar no julgamento masculino, ainda mais quando ele vem de um pai. Além disso e principalmente, a gente tem uma inclinação inata pelo que é belo e confortável, e sempre aprecia receber palavras enfeitadas e macias.
Mas a gente possui também muitos espelhos em casa e no fundo sabe que eles são a coisa mais sincera que existe e que a menina mais bonita está sempre por nascer. Então, a gente começa a se fantasiar para eles, os espelhos, papai e o resto dos meninos do mundo, usando maquiagem, pintando florzinhas nas unhas, procurando uma luz mais favorável, seguindo modas, comprando vestidos.
Quando nos dizem que devemos fechar as pernas, porque não fica bem para uma mocinha mostrar a calcinha, a gente acredita, e fecha, mas a nossa curiosidade secreta nos leva a examinar e experimentar profundamente o que tem lá no fundo da gente.
Quando os primeiros ficantes ou namoradinhos falam que vão ligar e não ligam, a gente se fia e ao longo da vida vai praticando esse exercício de fiar-se.
“Você sumiu”. – ele diz.
“Não. Foi você que sumiu. Falou que ia ligar aquele dia e não ligou”.
“É que estou trabalhado muito. Viajei.”
A gente sabe que é verdade, porque os homens são descendentes de Ulisses e são sempre muito ocupados.
“É que agora não estou querendo namorar. Não quero compromisso. Acabei de sair de uma relação”.
A gente põe fé, porque são muitos sensíveis – só entre os machos da espécie existem hemofílicos e eles são capazes de sangrar até morrer. A gente não; a gente sangra todo mês e nossos corações se regeneram mais eficientemente do que rabo de lagartixa.
Se bem que talvez essa comparação seja mais apropriada para eles, pois aquele mesmo cara que ontem disse que queria ficar sozinho foi visto no boteco com uma tanajura bunduda, o que nos leva a suspeitar de que os corações masculinos é que se regeneram mais rápido do que o rabo da tal lagartixa, pois mal se perde um rabo já se cria outro no lugar.
Ora, deixemos essas suspeitas tolas pra lá. Essa é uma daquelas mentiras que a gente inventa pra gente. Nós, mulheres, somos muito fantasiosas. Os homens sempre dão provas de que estavam apenas precisando de um tempo ou no máximo omitindo coisas de saias que só iriam nos magoar.
Tanto é assim, que aquele cara que teve um repentino sumiço vai reaparecer uns meses depois, como se nada tivesse acontecido, mostrando dessa forma que somos inesquecíveis, que eles rodam, rolam, mas sempre voltam ao mesmo lugar.
Aliás, um dia um desses que rodou, deitou e rolou, diz que a gente é a mulher da sua vida, a que é mais completa e mais bonita, e a gente confia, mas por via das dúvidas pede assim uma pequena prova, como um anel dourado no dedo, uma certidão no cartório, um juramento diante de dezenas de testemunhas.
E se depois de um certo tempo, pouquíssimo, as ações já não condizem com suas palavras amorosas, a gente prefere acreditar nestas e não naquelas, pois as palavras são coisas muito importantes para nós.
Fomos criadas lendo ou ouvindo palavras masculinas, não é,
Luís Fernando Veríssimo?
Conhecemos o mundo a partir dos livros de história que escreveram, das canções que compuseram. Foram as cantigas de amor medievais que nos seduziram. Foram as palavras pronunciadas ao pé do balcão dos Capuleto por um Montecchio. As doutrinas religiosas foram criadas por homens céticos para que mulheres pias acreditassem nelas.
Homens que sabem usar bem a lábia sempre nos ganharam muito mais facilmente, se bem que isso anda sendo coisa rara ultimamente, pois levamos a tais extremos a disposição de acreditar e finalmente estamos de tal forma livres para dar ou tomar, que já nem é lhes é necessário falar. Monossilábicos e ágrafos, pressentem que acreditamos tanto e tão piamente, que nem dizem a verdade, nem mentem. Permanecem apenas em silêncio, acreditando que isso é suficiente.
E as mulheres topam o jogo do vivo-morto, afinal, a não ter nada é melhor ter pouco; é preferível dividir filé com as amigas a não comer sozinha nem a carne do pescoço.
Assim, ante o celular desligado, o perfume no colarinho, o batom na cueca, o fio de cabelo comprido, em vez de quebrar o pau e chutar o pau da barraca – atitudes que nos renderiam a pecha de incrédulas, inseguras, neuróticas, loucas, ciumentas obsessivas (estamos fartas de historicamente ser tachadas de histéricas) – ficamos quietinhas e lotamos toda sorte de consultórios e de templos, atrás de explicações transcendentais e do consolo da resignação mística.
Ali ouvimos as palavras bonitas, as canções, as promessas de paraíso que os homens já não nos dão, e recebemos provas metafísicas de que existe vida após a morte do corpo e do amor romântico após o coito.
A credulidade das mulheres – ainda bem! – lota as igrejas e se constitui assim na sustentação do mundo, da religião e das relações. Depois da sufrágio universal, é a capacidade de crença feminina também que mantém a instituições democráticas.
Isso, porém, não tem sido muito tranquilizador para os homens, pois, com as mulheres se apropriando de rituais e discursos, trepando em púlpitos e tribunas, desvendando os mistérios da construção dos sistemas religiosos, sociais e políticos, e com tudo isso se mantendo ainda tão boazudas e boazinhas, eles começaram a desconfiar de que aquelas que em tudo acreditam em nada creem.
Começaram a suspeitar de que as crentes contentes, como as santinhas de antigamente, são do pau oco. Bem feito pra eles. Agora estão vendo que acreditar exige um esforço que não é pouco.